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quinta-feira, 26 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA – O BEM, O MAL E O BAR DE FRUTAL



Arrogância: 

tendência para dominar os outros
para além dos próprios e legítimos direitos e méritos.
(João Paulo II)




Amigas e Amigos,


         No portal Folha.com encontrei uma matéria sobre o arquivamento de um processo que poderia averiguar indícios de corrupção envolvendo a prefeitura de Frutal-MG. Nada sei sobre a postura ética dos envolvidos nos supostos esquemas, mas me chamaram a atenção alguns aspectos – aparentemente exagerados – sobre a forma como os suspeitos e seus simpatizantes reagiram a notícias de rejeição da proposta de instaurar uma Comissão Processante.



        A matéria da Folha informou que:
Depois de a Câmara de Frutal (600 km de Belo Horizonte) arquivar na segunda-feira (23) dois pedidos de investigação de supostos esquemas de corrupção na área da saúde, o secretário responsável pela pasta, José Plínio dos Reis, chegou ao bar onde a decisão era comemorada de modo pouco tradicional: dirigindo uma ambulância. A Folha teve acesso a uma foto feita a partir de um telefone celular, que mostra o secretário no bar, de braços erguidos, com uma ambulância ao fundo. O fato foi confirmado à Folha pelo próprio secretário, que afirmou ter parado no local para "cumprimentar o pessoal". No início de abril, uma CEI (Comissão Especial de Investigação) denunciou um suposto esquema de desvio de dinheiro público envolvendo a prefeitura e duas fundações ligadas à área da saúde. Segundo a denúncia, a prefeita Maria Cecília Marchi Borges (PR) tinha conhecimento do caso. A prefeita também é acusada, desta vez pelo Ministério Público de Minas Gerais, de ter prevaricado ao não dar andamento regular aos processos movidos pelo município de Frutal contra seu marido e ex-prefeito, Luiz Antônio Zanto. Os dois pedidos de instauração de Comissão Processante não conseguiram maioria absoluta, em votação ocorrida na Câmara nesta segunda-feira (23), tendo sido arquivados. O secretário José Plínio dos Reis afirmou que dirigiu a ambulância anteontem de Belo Horizonte até Frutal e que a estacionou em frente ao bar, localizado ao lado da prefeitura, apenas por alguns instantes. "Na hora em que eu cheguei, estacionei, cumprimentei o pessoal e disse: 'eu vim trazer esta ambulância de Belo Horizonte'", afirmou. Segundo ele, que qualificou o encontro como "uma coincidência", a ambulância ficou em frente ao bar por poucos instantes. "Foi só o tempo de descer do carro e cumprimentar as pessoas. Logo em seguida, eu a estacionei dentro da prefeitura", afirmou o secretário, segundo quem a foto foi feita por pessoas "da oposição".


A denúncia de uma quantidade considerável de ilícitos deveria ser motivo para que os envolvidos como suspeitos de tais práticas buscassem formas de elucidar os cidadãos daquele município para dirimir todas as dúvidas sobre irregularidades no exercício de funções públicas. No lugar disso, o que se viu foi uma comemoração ostensiva, onde uma ambulância participa da “festa” como a demonstrar falta de preocupação com opiniões contrárias.

As declarações publicadas na matéria também dão idéia de que poderia estar sendo caracterizado um eventual desprezo para com a inteligência dos próprios eleitores daquele município. Esta hipótese esta associada, ainda, a publicação feita pelo jornalista Rodrigo Portari, de Frutal, que escreveu em seu site um comentário sobre o que chamou de “espetáculo armado na Câmara de Frutal, mais parecido com um verdadeiro circo” dizendo:
o que mais me preocupou nesse contexto, foi a cena que vi ontem em frente ao Bar do Gato. Pessoas ligadas à administração (inclusive médicos que viram seus nomes envolvidos na CEI) “comemoravam” o arquivamento das Processantes e, ao lado, uma mesa formada por jornalistas e pessoas de oposição. Em dado momento, uma ambulância, tocando sirene em “alto e bom som” chega até ao Bar do Gato, encosta ao lado da mesa e, dela, desce um médico também comemorando os arquivamentos. Essa foi a cena que gerou, pelo menos nesse articulista, um mal-estar enorme, digno de embrulhar o estômago. Cada um tem o direito de comemorar, mas utilizar uma ambulância para esse fim… é passar dos limites. Só me resta rezar para que o final do ano não seja marcado por extravasos como este que vi ontem. Sob pena de toda a cidade ser seriamente castigada.

         Esse acontecimento em Frutal-MG pode servir para que se pense sobre os relacionamentos entre os poderes constituídos, em todos os seus níveis – municipal, federal e estadual – que cada vez mais se revestem de arrogância como se estivessem acima da lei ou da avaliação dos cidadãos que representam. Como atos reprováveis tornam-se cada vez mais corriqueiros, acordos escusos passam a freqüentar com desenvoltura essas rodas de “negociações”.

         No decorrer da reflexão que possa surgir a partir dessas notícias, recomendo a leitura de outro conto recolhido por Câmara Cascudo (que fez parte da Tertúlia Nativa da última semana) sobre como pagar bem-feitos e malfeitos. No livro “Contos Tradicionais do Brasil”, C. Cascudo diz ter ouvido esse conto quando ainda era menino, em Natal-RN, e novamente lhe foi repetido no Recife-PE, quando estudava Direito.

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O BEM SE PAGA COM O BEM

                                                                  Luís da Câmara Cascudo


A onça caiu numa armadilha preparada pelos caçadores e, por mais que tentasse escapar, ficou prisioneira. Resignara-se a morrer, quando viu passar um homem. Chamou-o e lhe pediu que a libertasse.


— Deus me livre — disse o transeunte. Se você ficar solta, devorar-me-á.


A onça jurou que seria eternamente agradecida, então o homem desatou as cordas que seguravam a tampa do alçapão e ajudou a onça a deixar a cova. Logo que esta se encontrou livre; agarrou seu salvador por um braço, dizendo:


— Agora você é o meu jantar.


Debalde o homem pediu e rogou. A onça, finalmente decidiu:


— Vamos combinar uma coisa. Ouvirei a sentença de três animais. Se a maioria for favorável ao meu desejo, comê-lo-ei.


O homem aceitou e saíram os dois. Encontraram um cavalo, velho, doente, abandonado. A onça narrou o caso. O cavalo disse:


— Quando eu era moço e forte trabalhei e ajudei o homem a enriquecer. Qual foi o meu pagamento? Largaram-me aqui para morrer, sem um auxílio. O bem só se paga com o mal.


Adiante depararam com um boi. Consultado, opinou pela razão da onça. Contou sua vida de serviços ao homem e, quando julgava que ia ser recompensado, soube que fora vendido para ser morto e retalhado pelo açougueiro. O bem só se paga com o mal.


O homem, triste, acompanhava a onça que lambia o beiço, quando viram um macaco. Chamaram o macaco e pediram o seu parecer. O macaco começou a rir. A onça ia-se zangando:


— Por que tanta risada, camarada macaco?


— Não é fazendo pouco, — explicou o macaco — é que eu não acredito que o homem caísse na armadilha que ele mesmo preparou.


— Ela não caiu. Quem caiu foi eu, — contava a onça.


— Foi você? Então como é que esse homem fraquinho pôde libertar um bicho tão grande e forte como a camarada onça?


A onça, despeitada pelo macaco julgá-la mentirosa, foi até o alçapão e saltou para o fundo do fosso, gritando lá de baixo:


— Está vendo? Foi assim!


Mais que depressa o macaco empurrou o engradado de varas pesadas que fazia de tampa e a onça tornou a ficar prisioneira.


— Camarada onça - sentenciou o macaco — o bem só paga com o bem. E como você fez o mal, receba o mal.


E se foi embora com o homem, deixando a onça para morrer de fome na armadilha.



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         A música escolhida para esta Tertúlia é "A Palavra Ladrão", do saudoso compositor, de Itápolis-SP, José Fortuna, com a dupla de irmãos Zé Fortuna (José Fortuna) e Pitangueira (Euclides Fortuna).


 



Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA - DOM LOBO E O DIPLOMATA


O que o povo chama vício é eterno;
o que chama virtude, é apenas moda.
(George Bernard Shaw)




Amigas e Amigos,

O ministro das Relações Exteriores, Patriota, disse ontem que o Brasil pedirá esclarecimentos à Embaixada do Irã sobre a suspeita do abuso de crianças realizado por um diplomata daquele país. Com essa “ameaça” toda, a Embaixada do Irã demonstra estar “preocupadíssima” com a anunciada interpelação, pois, segundo já está sendo falado, o diplomata suspeito de pedofilia (ou seria o pedófilo suspeito de diplomacia) já nem está mais em território brasileiro.

         Além disso, no melhor estilo corporativista e inspirado em políticos brasileiros acusados de corrupção, a Embaixada Islâmica referida já disse que tudo é um mal entendido e que a culpa é da Imprensa. E enviou uma declaração à Imprensa com seguinte texto:
Em virtude da difusão de algumas inverdades levantadas sobre atitude de um diplomata da República Islâmica do Irã relacionada às algumas cidadãs brasileiras e em seguida polemizá-la com um tratamento intencional por parte de alguns veículos de comunicação, são necessários os seguintes esclarecimentos para a opinião publica brasileira: Uma das causas mais importantes é a falta de conhecimentos sobre as virtudes e as diferenças entre as culturas e o mal entendimento e as suas consequências decorrentes que isso pode causar. Sendo nas demais sociedades estas virtudes e valores relativos, podem provocar dificuldades e uma séria de incompreensão para as pessoas que estão vivendo num ambiente alienígena as suas características culturais. Paralelamente a este tópico, o papel e uma reação midiática não propicia e provocante, pode ajudar ainda a criação do cinismo na sociedade brasileira que possui identidades culturais diferentes, introduzindo uma polêmica gratuita, sobretudo quanto fosse tendencioso politicamente. Estimular a sensação pública, por sua vez irá desviar a atenção para que possa procurar a veracidade dos fatos e causa uma desinformação ainda maior. Essa Missão Diplomática declara que a acusação levantada contra o diplomata iraniano é exclusivamente um mal entendimento decorrente das diferenças nos comportamentos culturais. Nesse sentido também expressamos energicamente o nosso protesto e indignação relativo ao tratamento e na maneira de como a mídia geralmente tendenciosa sobre as coisas relativas a alguns países entre eles o Irã, tem encarado com a cobertura dessa noticia, afirmando ainda que a transmissão do assunto, se demonstra nitidamente um comportamento intencional, propositado e imparcial.

         Penso que se um brasileiro em território iraniano falasse o monte de asneira contra qualquer classe daquele país, como as impropriedades escritas pela missão diplomática conforme acima, o sujeito já seria uma peneira ou teria explodido na forma de bomba humana. Mas por aqui, tudo é permitido, até dizer que não entender um tarado que “bolina” crianças (o que é, segundo eles, uma “virtude”) só pode ser desconhecimento de diferenças de identidades culturais. Desconhecimento, mesmo, é o que a nota, se de fato foi escrita como divulgada, demonstra em relação à língua portuguesa.

         A notícia, que a referida missão diplomática classificou como tendenciosa, foi – segundo o portal G1 – sobre o comportamento de um diplomata iraniano no último sábado. Disse o portal que:
Um diplomata é suspeito de ter abusado sexualmente de crianças e adolescentes no Distrito Federal. Ele teria abordado meninas de 9 a 14 anos em um clube na Asa Sul. O conselheiro de missão diplomática do Irã, em Brasília, tem 51 anos e vive no Brasil desde fevereiro de 2010. A Embaixada do Irã não quis se pronunciar sobre o caso.Testemunhas relataram que o suspeito nadava em uma piscina do clube, na tarde do último sábado (14), quando teria acariciado as partes íntimas das vítimas. Cerca de dez meninas estavam na piscina quando foram abordadas pelo diplomata. As crianças ficaram assustadas e denunciaram o abuso para o salva-vidas, em seguida para os familiares. O pai de uma das meninas, de 11 anos, contou que a filha ficou desorientada, sem saber o que fazer. “Ele mergulhava e passava a mão no peito de uma, nas nádegas de outra, na genitália. E ai elas saíram pra chamar a gente”, disse o pai de uma das vítimas, que não quis se identificar. Um outro pai, de uma adolescente de 14 anos, afirma que o homem só parou de mexer com as meninas depois que a filha começou a gritar. “Estou revoltado. Como um homem mexe com meninas de 9 a 14 anos, que estão se formando, que não tem malícia”, protestou um pai, que também pediu para não ser identificado. O caso foi parar na delegacia. Os pais das crianças registraram um boletim de ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia, mas o conselheiro da embaixada do Irã não pôde ser ouvido e acabou liberado. O delegado Sérgio Ricardo Mattos explicou que o suspeito tem imunidade diplomática.

         Espero que, nesse caso, a justiça não se deite sobre sua injustificada morosidade e busque, com a celeridade exigida, uma definição pela gravidade da situação. Em se comprovando os fatos relatados pelas crianças e por seus pais, além do empolgado diplomata, todos os seus “defensores” que não pensaram muito para publicar a indignada nota “elucidativa” deveriam ser banidos – definitivamente – do país, pois canalhas estão na lista de coisas que não necessitamos “importar”. E o que ministro Patriota continue demonstrando sua preocupação com esse desagradável incidente.



         No folclore brasileiro, também encontramos figuras que se julgam capazes de ignorar os costumes dos lugares em que vivem, pensando ser superiores a tudo e a todos. É o caso de Dom Lobo, personagem de um conto recolhido pelo saudoso folclorista, historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (Natal-RN, 1898 – Natal-RN, 1986). Câmara Cascudo, no livro “Contos Tradicionais do Brasil” (de 1946), diz que esta história lhe foi contada por uma empregada natural de Oeiras-PI,  da qual ele só lembrava o nome – Antônia. Transcrevo abaixo o conto retirado das páginas 306-307, da 18ª edição (Ediouro, 2003).

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AS PERGUNTAS DE DOM LOBO

         Um moço trabalhador e direito morava com sua mãe, labutando pela vida com muita dificuldade. Uma feita disse:

– Minha mãe! Não podemos passar o resto da vida nesta miséria, quase sem ter o que comer. Fique minha mãe com o roçado, as cabeças de ovelhas, e bote sua benção que vou pelo mundo ver o que posso fazer.

A mãe abençoou-o e o rapaz foi-se embora  pelo mundo. Onde chegava, trabalhava uma semana e ia para diante. Tempos depois chegou a um reinado bonito mas sem gente. As ruas limpas de povo, as casas fechadas, tudo calado, sem um choro de menino ou voz de homem, parecia um descampado. O rapaz procurou a casinha de um velho e pediu agasalho. O velho recebeu-o muito bem e deu de cear. Quando estavam comendo o rapaz perguntou por que o reinado era assim triste. O velho explicou que, por mal dos pecados do povo, aparecera ali um homem encantado, de nome Dom Lobo, dono de um palácio, que botara para obrigação comer o coração de uma pessoa todo dia. Pega a criatura e faz três perguntas. Se a criatura responder, pode fazer outras três a Dom Lobo, mas não nasceu ainda esse cristão para adivinhar as perguntas de Dom Lobo. Não responde e Dom Lobo mata e come o coração dos pobres. Por isso é que toda a gente vivia escondida e tremendo de medo.

O rapaz dormiu e na manhã do outro dia saiu para a rua perguntando onde era o palácio de Dom Lobo. O povo ficava espantado com o atrevimento dele mas ensinava. O moço chegou perto de umas pedras grandes e lá em cima estava o palácio que era um monarca de grande, por um portão de ferro. O rapaz tocou-se para o palácio com coragem. Chegou, bateu, e as portas se abriram por si mesmo. O moço enfiou-se por dentro, sobe aqui, desce ali, até que chegou num salão que era uma beleza. Aí apareceu Dom Lobo, um homem alto, forte como um touro, todo cabeludo, com olhos de gato e uns dentes de onça-tigre. Quando viu o rapaz deu uma gargalhada de estrondar o mundo. Falou, com voz grossa de bicho encantado, mandando o rapaz sentar. Depois perguntou:

– Que é que tanto mais velho mais forte fica?

– É o vinho, respondeu o moço.

– Que é que tanto se tira mais fica?

– Água do mar!

– Qual é o lugar onde todos vão e ninguém quer ir?

– O cemitério!

– Acertou, cabra danado! Faça as três perguntas que quiser!

– Quem é que nasceu de uma virgem, batizou-se num rio e morreu numa cruz?

O homão rangeu os dentes como um desesperado porque não podia dizer o santo nome de Jesus Cristo. Deu um estouro que estremeceu tudo e subiu aquela bola de fumaça cobrindo o mundo. Quando clareou, o rapaz estava em cima das pedras. O palácio e Dom Lobo tinham se sumido. O povo estava todo reunido batendo palmas e levou o moço em charola para o rei. Deram uma casa com todos os preparos, fazenda de gado, muito dinheiro. O rapaz mandou uma carrugem buscar sua mãe e viveu muito bem e satisfeito.

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A música escolhida para hoje é de Dalvan, interpretada pela dupla Duduca & Dalvan, com o título "A pequitita", para refletirmos sobre quem este tipo de diplomata molesta.


 


Um grande abraço e até um próximo encontro!