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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

TERTÚLIA NATIVA – A PÂNDEGA DOS MENSALEIROS


Eu continuo a ser uma coisa só, apenas uma coisa - um palhaço,
o que me coloca em nível bem mais alto que o de qualquer político.
(Charles Chaplin)



Amigas e Amigos,



Está começando o julgamento do processo do mensalão com as mais variadas expectativas. Os ocupantes dos principais cargos nos poderes constituídos passam a idéia de que já organizaram uma grande torcida para que tudo faça parte de cobertura da pizza que estão preparando. Já os que acreditam em um estado democrático de direito esperam que os fatos sejam julgados com isenção, que os inocentes sejam absolvidos e que os culpados cumpram penas conforme seus ilícitos.

Como a designação de ministros para o STF (Supremo Tribunal Federal) é decidida com o critério único de indicação política, os integrantes daquela corte tendem a ter um relacionamento que pode beirar a gratidão para com o poder executivo. No STF hoje, o ministro Dias Toffoli – que foi advogado de José Dirceu, tem no PT a base de sua carreira jurídica e namora a advogada Roberta Maria Rangel, defensora de alguns “mensaleiros” – já foi defensor de uma tese utilizada por Marcus Valério em sua defesa no mensalão. Apesar de seu forte vínculo com o PT e com os temas relacionados ao mensalão, o ministro Toffoli tem demonstrado não se considerar impedido de atuar no processo.


                                                                      Fonte: http:www.correiobraziliense.com.br


Para dar um pouco mais de clareza aos “rolos” inerentes ao mensalão, o portal Folha.com informa que a dívida junto a Receita de alguns mensaleiros já supera R$ 64 milhões. Diz a Folha que:
A segunda instância da Receita Federal já confirmou punições contra réus e empresas ligadas ao processo do mensalão que somam pelo menos R$ 64,4 milhões. As penalidades foram mantidas pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão do Ministério da Fazenda, e referendam na área administrativa as acusações feitas criminalmente pela Procuradoria-Geral da República na ação no STF (Supremo Tribunal Federal). Os valores poderão ficar ainda maiores, porque devem ser atualizados pela Receita com base no ano em que os créditos deveriam ter sido pagos à União. As decisões do conselho apontam que o empresário Marcos Valério de Souza e outros réus do grupo apontado como "núcleo operacional" do esquema cometeram diversas infrações, como evasão de divisas, movimentação de dinheiro de origem não declarada e fraudes contábeis para justificar a entrada e saída de recursos. Nas empresas dos réus ocorreu o uso de notas fiscais frias e alterações irregulares em livros contábeis, além de empréstimos simulados para justificar movimentações financeiras, segundo as deliberações do conselho. Os relatórios do órgão do Ministério da Fazenda revelam também que, quando foi descoberto o mensalão, as empresas tentaram alterar sua documentação fiscal para inserir faturamento que não constava de declarações dos anos anteriores. Segundo documentos da própria Receita, o grupo mandava desde 2002 dinheiro ilegalmente ao exterior, sem passar pelo sistema financeiro nacional.

Se em valores não atualizados, a dívida desses senhores com a Receita atinge espantosos R$ 64,4 milhões, sem as devidas atualizações monetárias, não consigo imaginar os valores que possam ter sido desviados de cofres públicos, nem os valores envolvidos em eventuais negociatas com representantes dos poderes públicos. Um pouco disso tudo poderá ser deduzido do encaminhamento que será dado ao processo nos próximos dias – ninguém acredita em menos do que um mês.


Para esquecer um pouco esse corrompido mundo adulto, publico abaixo um causo, do Rolando Boldrin, sobre a pândega infância interiorana.  


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CONVERSA DOS BICHOS
                        Rolando Boldrin

O Zequinha, menino de uns 10 anos de idade, era na fazenda do meu padrinho o que se pode chamar de “charrete boy”. Na cidade tem o motoboy, não tem? Então! Nas fazendas tem – ou tinha naquele tempo, que já vai longe – o charrete boy. O menino que com a charrete do fazendeiro vai buscar as coisas ou as pessoas na cidade.

Pois naquele dia o Zequinha tinha ido buscar na cidade o Padre Antônio, que estava iniciando sua temporada por lá. Era um padre novo e tinha uma particularidade que a gente só ficou sabendo depois desse causinho que tô contando aqui e agora: ele era ventríloquo. Um dom que poucas pessoas possuem que é o de falar sem abrir a boca. Dizem que é uma técnica de emitir os sons pelo estômago. Aliás, um grande ventríloquo que existiu no Brasil foi o pai das cantoras Linda e Dircinha Batista. Chamava-se Batista Junior e se apresentava em circos e teatros. E, de lambuja, era um grande compositor.

Mas, seguindo no causo. O Padre Antônio sobe na charrete com o caipirinha Zequinha, ruma a fazenda do meu padrinho pra rezar uma missa. Logo na saída, o padre pergunta se era longe a tal fazenda, ao que o menino prontamente e muito espertamente lhe responde que levaria uns pares de horas. O que dava pra entender que era longe pra cacete e a viagem ia ser dolorosa ou dolorida para um padre que não estava acostumado a meter a bunda no banco duro de uma charrete velha conduzida por uma eguinha lerda.

PADRE – Oh, menino! Você sabia que os animais conversam?

ZEQUINHA – Entre eles, eu sabia, sim sinhô. Eles cunvérsa bastante.

PADRE – Não, filho. Estou dizendo que os animais conversam com a gente. Conosco. Mas para isso é preciso conversar com eles com muito amor. Você quer ver os animais conversando comigo?

Aí o menino, esperto, se encanta e atiça.

ZEQUINHA – Ara, sêo padre. Essa eu tô pagando pra vê. Animar conversa cum gente. Essa nunca vi não sinhô. E o sinhô me adiscurpa, mas num querdito.


PADRE (falando para a égua) – Dona eguinha! Está muito pesada a charrete? (E faz a voz da égua sem abrir a boca) Tááá...sêo padre.

O menino, num susto, pára a charrete.

ZEQUINHA(gaguejando) – Sêo...padre... a égua falo...a minha égua...respondeu pru sinhô...eu escutei...

PADRE – Todos os animais conversam com a gente. Quer ver mais?

O padre olha um urubu nos céus e fala:

PADRE – Bom dia, urubu. (E faz voz.) Bom dia, parceiro. Bom dia, sêo padre.

E assim o Padre Antônio foi se divertindo com a surpresa encantada daquele caboclinho, que viu com os próprios olhos e ouvia ali, in loco, os bichos falando com aquele padre. Com isso, a viagem, que poderia ser longa, terminou logo, logo.

ZEQUINHA – Óia, sêo Padre! O sinhô ta vendo aquela cabrita branca ali na grama? Por favor, o sinhô num querdite em nada que ela fala prô sinhô, viu!!!!!!

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Na música escolhida para esta Tertúlia, valho-me de Luiz Vieira para continuar lembrando infâncias, esquecendo as discrepâncias entre as promessas de eleição e o exercício dos mandatos. No link abaixo, o grande sucesso da década de 1950 “O Menino de Braçanã”, do pernambucano Luiz (Rattes) Vieira (Filho), assinada, também, pelo carioca Arnaldo Passos e interpretada pelo próprio Luiz Vieira.

 

Um grande abraço e até a próxima!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

TERTÚLIA NATIVA – CONCHAVOS E PAGODE EM BRASÍLIA


Porque quando alguém, meu caro, vangloria-se
de ser um homem honrado, depois de dar
a sua palavra, esta deve ser sagrada.
E mesmo que a estrada seja longa, feia ou bela,
custe o que custar, nem que ele tenha de ser morto,
mas a sua palavra deve ser mantida.
(C. Pascarella)



Amigas e Amigos,



Notícias da capital de todos os brasileiros podem levar a um entendimento de que a colaboração das delegacias de polícia de Brasília para o sucesso das PPP é extremamente significativa. Na edição desta quarta-feira do jornal Correio Braziliense, encontram-se duas matérias que podem levar ao entendimento apresentado aqui.

Fonte: Dave Brown IN http://www.englishblog.com 


A primeira matéria trata de condenações do delegado da Polícia Civil do Distrito Federal, João Kleiber Ésper, que está preso no Complexo Penitenciário da Papuda e poderá cumprir penas que somariam 4 anos. Diz a matéria que:
Condenado em 2010 pelos crimes de prevaricação e ocultação de documento ao omitir depoimento que prejudicaria o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ele era um foragido procurado até pela Interpol. Acabou detido por ex-colegas de instituição, apoiados por policiais federais, na noite da última segunda-feira, no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, ao desembarcar de uma viagem aos Estados Unidos. Transferido para a Papuda, ele vai cumprir as penas impostas pela 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do DF em dezembro de 2010: seis meses por prevaricação — retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício — e três anos e seis meses por ocultar documento. As condenações se referem a falhas cometidas no depoimento do advogado Bruno de Miranda Ribeiro, em 2007, contra Renan Calheiros, então presidente do Senado. Bruno acusou o ex-sogro, o empresário Luiz Carlos Garcia, de montar esquema de arrecadação de dinheiro para Renan nos ministérios chefiados pelo PMDB. O depoimento ficou sete meses parado na mesa do delegado João Kleiber, então chefe da 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião). O caso veio à tona em 2007, no auge do escândalo em que o senador foi acusado de receber dinheiro da Mendes Júnior para pagar pensão à filha que teve com a jornalista Mônica Veloso. Acusado de quebra de decoro, Renan escapou da cassação no Senado.

Considerando que o senador Calheiros se mantém legislador, sem qualquer arranhão aparente; que o delegado aposentado está preso para cumprir pena de 4 anos, que rapidamente poderão ser permutados por alguma pena alternativa (que geralmente são mais alternativas do que penas); que o PMDB nem se abalou; e que o(s) empresário(s) continuam empresário(s), fica a impressão de que essa parceria entre as partes conhecidas foi exitosa e o dinheiro arrecadado foi aplicado nas contas dos envolvidos.

Outra matéria informa que a delegada Martha Vargas, acusada de falsidade ideológica “y otras cositas mas”, foi afastada de suas funções pela Polícia Civil. Na reportagem, consta que:
A direção-geral da Polícia Civil do Distrito Federal afastou do serviço a delegada Martha Vargas, lotada na 10ª Delegacia de Polícia, no Lago Sul, por ter usado de forma inusitada uma vidente para apontar supostas provas, além dos assassinos do advogado José Guilherme Villela, da mulher dele, Maria Villela, e da empregada do casal, Francisca Nascimento da Silva. Martha é acusada de falsidade ideológica, fraude processual, denunciação caluniosa, violação de sigilo funcional e tortura com o objetivo de obter uma confissão falsa durante a condução de um dos inquéritos mais conturbados da história policial da capital do país. [...] Além de Martha Vargas, o agente José Augusto Alves foi afastado do serviço. Ele responde por fraude processual, denunciação caluniosa e tortura. Os dois ficarão longe da delegacia, mas durante esse período receberão salários. Como titular da 1ª Delegacia de Polícia, na Asa Sul, Martha teria produzido provas ilegais e plantado evidências a fim de incriminar três pessoas. [...] As chaves supostamente encontradas na casa de dois suspeitos e apresentadas pela delegada como prova de que havia desvendado o crime, na verdade, foram levadas por policiais civis da própria casa dos Villela, segundo aponta o MPDFT. Constam em fotos registradas no apartamento, mas não haviam sido incluídas nos autos de apreensão. [...] a policial civil trocou informações com a vidente Rosa Maria Jaques e o marido dela, João Tocchetto de Oliveira, sobre o inquérito do triplo homicídio ocorrido na 113 Sul. Mesmo sendo um caso tão intricado e de difícil solução, a delegada compartilhou dados secretos com a profissional que cobra para ter visões.

Da presente matéria, pode-se depreender que a parceria entre o público (delegada e agente) e o privado (vidente e outros interessados na fantasiosa versão) só não foi um completo sucesso porque o Ministério Público atrapalhou o grupo. Mesmo com essa atitude o MPDFT, ainda é possível acreditar no sucesso da parceria, pois a delegada e o agente continuam recebendo seus salários – sem trabalhar – e, com um bom programa de marketing, a vidente pode explorar suas previsões – com auxílio tecnológico – para futuros contratos.

Como se não bastasse tudo isso, um dos senadores de Brasília resolveu fazer autopromoção na televisão e se apresenta como grande benemérito da capital, que – segundo seu entendimento – está sendo beneficiada por seus maravilhosos projetos. O mais chocante é ouvi-lo falar de seu “trabalho sério” e se intitular “o seu senador”. Com certeza não é “meu” e será muito difícil ser de alguém, pois sequer foi eleito – era suplente de Roriz, que renunciou para não ser cassado – e foi empossado antes da Lei da Ficha Limpa ser aprovada. Sobre o trabalho sério, consta no portal da revista “Isto é”, de 23/12/2009, que o mencionado senador:
responde a processo no STF por lavagem de dinheiro, crimes contra o patrimônio, apropriação indébita, ocultação de bens, peculato e corrupção passiva. O processo tramita em segredo de Justiça, e não se conhece em detalhes o teor da acusação sobre operações financeiras que Argello não conseguiu identificar. O senador do PTB também foi acusado de envolvimento num esquema de mudança de destinação de lotes na Câmara Distrital. Pelo esquema, áreas rurais desvalorizadas são transformadas em áreas residenciais e áreas para restaurantes viram disputados lotes para postos de gasolina. Esse esquema também teria funcionado nos condomínios de Brasília, pendentes de legalização.

Para não deixar que tanto desnorteamento na capital altere significativamente o nosso humor, o causo escolhido para hoje – que tive oportunidade de apresentar no programa Chimarreando com Deus, na Rádio Aliança FM, de Porto Alegre-RS, no início do mês de março do ano de 1996 – é do livro “Causos da Querência: literatura oral”, da Editora da Universidade de Caxias do Sul (1985), do contista de Quaraí-RS, Sejanes Dornelles.


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COSTUMES DE ANTIGAMENTE
                                       Sejanes Dornelles

Lá pelos idos de mil e novecentos e dezoito, quando eu tinha seis anos, começaram a aparecer, no Alegrete, os primeiros fordecos de “bigode”, os chamados “modelo T”.

Naquelas recuadas épocas, posto de gasolina era manga de colete.

Havia coisas que hoje causam espanto às gerações novas. O sanitário nas residências, nas cidades da fronteira, e até nas escolas, era uma simples depressão no terreno ou então uma casinha mambembe, no fundo do quintal.

Quanto ao material de limpeza, nem se fala. Pra lavar a cabeça, sabão preto feito em casa. Papel higiênico era desconhecido. Quando entrou na região, veio nos trens de passageiros. O pessoal chamava de “papel de trem”.

Na campanha, então era tudo mais precário. A latrina, na maioria das casas, era atrás da mangueira.

O índio velho se apertava ou chegava nas casas meio mal da barriga e já ia dando uma olhada pro lado da mangueira, geralmente de pedra, oferecendo um tapume perfeito.

De uma feita, um caxeiro viajante se mandou por aqueles pagos, num dos primeiros fordecos de “bigode”. No Alegrete, conseguiu uma lata de gasolina, que o estoque estava mais curto do que coice de porco.

O nosso homem se largou do Alegrete, rumo a São Chico de Assis. Lá fez a praça e se mandou em direção a Santiago do Boqueirão.

Mas, como ia dizendo, o taura se tocou, como quem vai pras pitangas, sem atinar que naquelas localidades, não havia chegado o progresso do auto. Ao entrar o sol, o fordeco deu umas duas ou três tossidas fortes e empacou. Foi aí que o nosso viajante atinou com a causa. Faltou “nasta” como dizem os castelhanos.

O vivente se viu perdido naqueles cafundós à boca da noite. Deu uma olhada pra frente e pra trás, nem viva alma na estrada. Olhou para os campos. Lá na encosta de um serro, divisou um rancho, fumaceando como um sinal de vida. Tirou uma mala do fordeco e se botou a pé em direção à morada.

Quando chegou, os cuscos deram o aviso. Saiu o dono do rancho. Era um posteiro da estância da Tuna.

– Chegue-se no mais paisano, os cuscos não mordem.

Explicando o motivo, o viajante pediu pousada.

– O rancho é de pobre, mas sempre tem lugar.

Veio o mate, que não há outra maneira de receber na campanha. A siá Libinda, mulher do posteiro, se foi ao galinheiro. No escuro mesmo, pelo tanteio no mais, pescoceou a carijó mais gorda que havia.

Foi um zás, enquanto os dois homens proseavam, ela aprontou a galinha com arroz.

O viajante, com a promessa de no outro dia irem rebocar o auto, foi dormir. O Jango arrumou um catre num canto da pecinha de chão batido. E recomendou:

– Qualqué coisa que o sinhô percisá é só me chamá que eu atendo. Durmo aqui de lado.

– Não vai ser preciso amigo, vá descansar.

– Não vá sofre percisão, qualqué coisa... me chame...

O viajante dormiu logo. Lá pelas tantas, por ter dormido de estômago cheio, teve um pesadelo. Ele tinha mania de jogar na loteria. Tudo que é número que via, assim meio estranho, tomava nota. Chegando na cidade comprava o bilhete. Já tinha tirado lascas na “grande”, acertando aproximações.

Como disse, sonhou que apareceu um anjo, todo luminoso e escreveu na parede do rancho, 12.942.

Viu bem aquele número. Deu um salto no escuro. Lascou os fósforos. Acendeu o candieiro. Mexeu na maleta. Achou o lápis, com a preocupação de não perder o número, remexeu procurando onde anotar...

O posteiro escutou o ruído. Viu o clarão do candieiro...

– O que que hai seu moço?

O viajante aflito, pensando no número...

– Me arrume um pedaço de papel, ligeiro.

O posteiro, pensando em outra coisa, mandou a resposta:

– Não é perciso... atrás da mangueira tem sabugo!...


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         Para animar um pouco mais a Tertúlia de hoje, fica a música "Pagode em Brasília", composta em 1959 por Teddy Vieira e Lourival dos Santos, interpretada pela dupla que consagrou o pagode sertanejo Tião Carreiro e Pardinho.

 


         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

TERTÚLIA NATIVA – TREM ESQUISITO: DORMIU LEGAL; ACORDOU ILEGAL


É tal a falibilidade dos juízos humanos,
que muitas vezes os caminhos por onde esperamos chegar à felicidade
conduzem-nos à miséria e à desgraça.
(Marquês de Maricá)




Amigas e Amigos,



Parece que a cachoeira da corrupção tem mais vazão do que poderia ser imaginável. Notícias sobre novos rumos para as gravações que envolvem o empresário zoofílico Carlinhos Cachoeira podem levar ao relaxamento de sua prisão.




Voltando apenas sessenta dias, pode ser encontrado no portal da revista Época, do dia 13/04/20012, notícias sobre a legalidade das escutas contra o senador Demóstenes e Carlinhos Cachoeira. A revista noticiou que:
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, negou o pedido feito pelos advogados do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) para desconsiderar as gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal na operação Monte Carlo, informa o jornal O Globo. As gravações mostram a ligação entre o senador com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. [...] O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, também argumentou nesta sexta-feira (13) que as escutas feitas pela Polícia Federal são legais. Segundo Gurgel, não era necessária autorização especial do STF, porque o alvo inicial das escutas era Carlinhos Cachoeira. O senador Demóstenes jamais foi alvo das interceptações telefônicas. “As interceptações tinham por alvo Cachoeira e outras pessoas não detentoras de prerrogativa de foro e por isso podiam ser, como foram, autorizadas pela Justiça Federal em Goiás", disse. Segundo Gurgel, a descoberta da relação entre Cachoeira e Demóstenes foi um "achado fortuito".


Com toda a coerência que se observa no tratamento dado pelos homens da justiça para qualquer assunto, o portal R7 informou, no último dia 12/06 que o relator do processo na Justiça Federal pode tirar o bicheiro da prisão por considerar ilegal as gravações do Cachoeira. Informa o referido portal que:
O desembargador Tourinho Neto, da 3ª Turma do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, considerou nesta terça-feira (12) que são ilegais as gravações feitas pela PF (Polícia Federal) que servem como prova contra o contraventor Carlinhos Cachoeira. O magistrado sugeriu ainda que as escutas sejam retiradas dos autos do processo. [...]  No voto, o relator do processo, juiz Tourinho Neto, afirmou que o direito à privacidade, que inclui o sigilo de comunicações telefônicas, é garantia constitucional pétrea, que estabelece que a interceptação telefônica só é admissível por exceção, “em situações que não estão caracterizadas no caso sob análise”. Não há prazo para o TRF-1 decidir o habeas corpus. A terceira turma se reúne semanalmente, às segundas-feiras, e, quinzenalmente, às terças-feiras, mas o desembargador Ribeiro não é obrigado a retomar o caso na próxima semana, e sim quando tiver seu voto pronto. Caso a tese de Tourinho Neto prevaleça, a interceptação telefônica contra Cachoeira será declarada nula e as provas dela derivadas, ilegais. A decisão, se confirmada, significará a liberdade imediata para o bicheiro e o enfraquecimento das acusações que há contra ele.


Acredito que, como diz um provérbio português, “muita água passará debaixo da ponte”, pois aparentemente a cachoeira não parará de “verter” tão cedo. E sabe-se lá o que anda correndo nesses rios (mas deve ser muito!).

Junte-se a isso, o verdadeiro passatempo de senadores e deputados, conhecido como CPI, que consegue transformar nosso Congresso em algo próximo a um grande teatro de araque, com produções mal ensaiadas e interpretações de sofríveis canastrões. Os conluios com os governadores Marcondes e Agnelo deram o tom dos últimos dias, comprovando a idéia do Gran Circo, onde cada um deles compareceu com sua claque. E foi feita a festa...

Pensando nessa “evolução espontânea” da justiça, na avaliação das gravações – a contravenção, a apropriação de dinheiro público, o envolvimento de políticos e outros tantos – lembrei de um causo do livro “Causos de Fronteira”, do escritor e  professor uruguaianense Luís Alberto Ibarra, que transcrevo abaixo pelo medo que determinadas “evoluções” provocam em algumas pessoas.  


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O TREM
                        Luís Alberto Ibarra

O Juca era um guri criado na campanha, que não conhecia o “povo”, isto é, a cidade.

O pai era invernador e certa feita negociou uma ponta de bois com a Cooperativa. Como Juca já estava taludinho, decidiu confiar ao filho a tarefa de tropear o gado, junto com alguns peões da estância.

Mas fez uma recomendação muito importante: cuidado quando tiver que passa os trilhos. É muito perigoso. Antes de atravessar tem que olhar bem para os dois lados.

No dia marcado, lá se foi o Juca e a peonada, tropeando as 200 cabeças, rumo ao frigorífico da Cooperativa.

Bueno, mas quando o “velho” foi acertar as contas na Cooperativa, em lugar de 200 bois, só constava 180.

Chamou o filho e perguntou:

– Mas não eram 200 cabeças, Juca?

– Eram, pai, mas aconteceu o seguinte: na hora de cruzar os trilhos, cuidei, cuidei e como não vinha nada, mandei tocar a tropa. Quando estava bem no meio apareceu aquele baita bicho, bufando, e atropelou 20 bois. E a sorte que o bicho veio de frente, porque se vem de lado, eram um tendal, matava toda a tropa.

Daí uns dias, o Juca foi ao “povo” e quando passou frente a uma loja viu um trenzinho andando numa linha de trilhos circular. Não se conteve. Entrou e pisoteou o trenzinho, destruindo-o completamente, ante a surpresa geral.

– Mas o que é isso? – perguntou o proprietário espantado.

– Esse bichinho tem que matar quando pequeno, porque depois que cresce, causa um baita estrago – respondeu o Juca.

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         Para animar a Tertúlia de hoje, deixo a música "Trem do Pantanal", de Paulo Simões e Geraldo Roca, na interpretação de Almir Sater.



         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – DE COINCIDÊNCIAS, ÉTICA E POLÍTICA


É uma experiência eterna de que todos os homens com poder são tentados a abusar.
(Baron de la Brede et de Montesquieu)





Amigas e Amigos,




Uma série de coincidências, encontrada nos últimos dias nas leituras de alguns periódicos, provocaram desassossegos em meus pensamentos. Pensava que se alguma situação é tida como legalmente correta, não existiria qualquer motivo para incomodar.


A atuação do ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, em alguns dos seus últimos casos me conduziu a uma situação de desconforto. Mesmo que, aparentemente, não seja vislumbrada qualquer ilegitimidade, alguns fatos parecem aviltar preceitos de boa conduta.

Para começar a seqüência de fatos, uma matéria do portal do Diário de Pernambuco, hoje, diz que foi pedido ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região:
que anule as escutas telefônicas das operações Vegas e Monte Carlo, base da CPI do Cachoeira. A anulação das gravações derrubaria todas as investigações em curso contra Cachoeira e os demais integrantes da organização acusada de exploração ilegal de jogos e corrupção de parlamentares, entre outros agentes públicos. O advogado de Cachoeira, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, alega que as escutas são ilegais porque, no transcorrer das operações Vegas e Monte Carlo, a Polícia Federal investigou o senador Demóstenes Torres (Sem partido-GO) e outros parlamentares sem autorização prévia do Supremo Tribunal Federal (STF).


Na matéria acima, salvo engano, fica parecendo que o ex-ministro não está preocupado com a Justiça, mas com o bem estar de seu cliente – conhecido por atividades de contravenção e acusado de crimes envolvendo o poder público de diversos estados. As escutas telefônicas trouxeram ao conhecimento público uma quantidade exorbitante de crimes, envolvendo favorecimento de servidores e desvios de verbas públicas. Como o ex-ministro teve um entendimento – particular – do que seria a autorização para escutar esses degradantes colóquios via telefone, passa a impressão de acreditar que a atitude correta é deixar que esse tipo de falcatrua contra o cidadão brasileiro se perpetue.

No último dia 22 de maio, o portal Folha.com, o ex-ministro aparece defendendo interesses de seus clientes envolvidos com o escândalo do mensalão. Conforme o citado portal:
O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos afirmou nesta terça-feira (22) não ver pressa para o julgamento do mensalão. Thomaz Bastos advoga no caso para José Roberto Salgado, diretor do Banco Rural. "Eu não vejo pressa. Por que vamos fazer correndo esse julgamento, quando tem tantos outros que não se fazem?", afirmou o advogado.

Nesse caso, parece que o ex-ministro faz menção a notória lentidão da Justiça para clamar aos seus companheiros de toga que “empurrem com a barriga” o julgamento dessa bandalheira que se havia instituído no centro dos poderes brasileiros.  Mais uma vez, a idéia passada é de que o melhor é, na opinião do ex-ministro, que ninguém seja julgado por crimes cometidos contra os cidadãos brasileiros, pois protelar, nesse caso, pode significar esperar pelo decurso de prazo das acusações.

Outra notícia, interessante, também envolvendo o ex-ministro é a do portal Estadão, do dia 2 de maio de 2009, com o seguinte teor:
Ministro da Justiça de janeiro de 2003 a março de 2007, o advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos não abandonou a rotina na capital da República: foi e ainda é o homem que ajuda a livrar o governo das piores enrascadas. [...] Não há no Planalto um problema de grande impacto na seara política ou jurídica que não passe pelo "confessionário" do ex-ministro da Justiça. Nos últimos meses, sua atuação foi decisiva para conter a guerra de facções na Polícia Federal, escancarada com a Operação Satiagraha, que vasculhou a vida do banqueiro Daniel Dantas. Foi Thomaz Bastos, por exemplo, quem ajudou a construir o acordo que resultou na transferência do delegado Paulo Lacerda - ex-diretor-geral da PF e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) - para o cargo de adido em Lisboa. Depois de uma quarentena de um ano, o ex-ministro não vê impedimento ético em defender agora a empreiteira Camargo Corrêa e o empresário Eike Batista, alvos de investigações da Polícia Federal - instituição que foi subordinada a ele até março de 2007.

Essa última matéria, mais antiga, dá a impressão de que o exercício do cargo de ministro da Justiça foi suspenso, porém a autoridade proveniente do cargo continua potencialmente ativa. E é essa também a percepção proporcionada pelas atuações relacionadas às demais matérias aqui referidas.

Deve ficar claro que impressão ou percepção não são evidências que comprovem qualquer irregularidade. Penso, também, que à luz da lei não se qualifique na atuação profissional do ex-ministro qualquer desvio que possa ser condenado. Mas a “pulga” da ética insiste em se acomodar “atrás de minha orelha”.

A grande dúvida que tenho diz respeito a tantas tentativas do ex-ministro, como advogado de defesa, para que sejam “abafados” processos que envolvem denúncias de negócios escusos associados ao poder constituído (do qual ele fez parte em determinado período). Posso estar com um errôneo entendimento dessa situação e alguns resultados – que não vislumbro – justifiquem os fatos apresentados, confirmando a idéia – com a qual não consigo concordar – de que a ética foi abandonada pelo exercício da vida política.

Com essas aparentes “misérias”, lembrei de um sujeito miserável que virou personagem de Rolando Boldrin em um causo, que abaixo está publicado.


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ÊTA CABOCLO MISERÁVEL

                        Rolando Boldrin


Lá em São Joaquim da Barra (lá venho eu com minha terra de novo), tinha o Abílio Estori. Muitos inventaram causos da miserabilidade dele. Quando a gente fala em miserável, é aquele camarada que não rói a unha porque dói. É aquele que, de graça, não dá nem bom dia...etc. e tal.


Sobre o tal Abílio, chegaram a contar dele uma escabrosa. Imaginem os senhores que contam por lá que, um certo dia, o nosso personagem estava com dor de cabeça. Naquela época, era comum tomar o famoso Melhoral para qualquer dor.


Então, isso posto, conta-se que o Abílio, estando com dor de cabeça, teria amarrado na ponta de uma linha bem fina de costura um comprimido de Melhoral. E tomado o comprimido em seguida com um gole de água. Assim que a dor de cabeça passou, o Abílio teria puxado pra fora o Melhoral, para guardá-lo para outra ocasião. Outra dor. Era muito econômico o nosso querido Abílio.


Outra atribuída a ele era nos tempos da bicicleta motorizada. Aquelas que tinham um motorzinho no cano central. Pois bem. Contam que ele descia a rua principal que era um pouco declinada, com o motorzinho ligado, fazendo aquele barulhinho característico de motor...brrr....brrrrrrr...De vez em quando (dizem), o Abílio desligava o tal motorzinho e substituía o seu barulho característico por um ruído igual, só que feito pelos lábios, pela boca... brrrrr... brrrrr...Era muito econômico o nosso Abílio.


Agora, pra encurtar nossos causos, aqui vai uma do saudoso Pedro Chediac, que dizem era muito miserável também. No bom sentido da nossa lembrança querida desse personagem histórico da minha terra.


Pois bem. Lá vem o sêo Pedro numa caminhonete na estrada. Ao ver um caboclo na bêra do caminho, como quem pede carona, este sêo Pedro toma a iniciativa de parar o veículo e oferecer (vejam só) a tal carona.


PEDRO – Pra onde o senhor está indo, amigo?


CABOCLO – Pra fazenda do Lageado, moço.


PEDRO – Entre aqui, que eu lhe levo até o seu destino.


CABOCLO – Obrigado, cidadão... Muito obrigado pela gentileza.


O caboclo subiu na caminhonete. Prosa vai, prosa vem, que lá na minha terra se gosta muito de prosear, o sêo Pedro de repente diz ao caboclo:


PEDRO – O senhor por acaso já me conhecia?


CABOCLO – Só de vista, moço.


PEDRO – Pois eu me apresento. Sou muito conhecido por essas bandas. Meu nome é Pedro Chediac.


O caboclo faz um ar de quem já ouviu falar do sêo Pedro Chediac.


PEDRO – Pois então. Veja o senhor que, na minha cidade, dizem que sou muito miseráve. Mas é intriga. Pois eu mesmo não lhe ofereci carona, agora mesmo? Intão. Eu não sou miseráve nada. Eu sou muito bom. Veja bem: sou uma pessoa tão dadivosa... portanto, não sou miseráve, que isso fosse verdade.... eu quero que, por um castigo, uma jamanta dessas bem grandes e pesadas passe por cima de nóis dois, agora mesmo. Neste instante.


CABOCLO (no ato) – Ô moço! O sinhô qué fazê o favô de encostá a sua caminhonete... Eu quero apeá... agora mesmo. Bem depressa!!!


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         Para concluir a Tertúlia de hoje, fica a música "Lição de Moral", de Zé da Praia e Teodoro, com Zé Tapera e Teodoro.


  
 Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – MARCHA DOS PREFEITOS “ESPERTOS”



Os homens, tão enfadonhos quando se trata das manobras da ambição,
são atraentes ao agirem por uma grande causa.
(Charles André Joseph Marie de Gaulle)






Amigas e Amigos,

Ontem, o clima – mesmo com temperaturas mais baixas – esteve quente na Capital Federal, onde prefeitos de diversos municípios brasileiros encontraram a presidente da República. Como por ironia, o “incêndio” começou com petróleo.

Matéria do portal Folha.com informou que:
A presidente Dilma Rousseff foi vaiada nesta terça-feira (15) pelos prefeitos que participavam da 15ª edição da Marcha dos Prefeitos, em Brasília. A vaia ocorreu no momento em que a presidente decidiu falar sobre a redistribuição dos royalties do petróleo. Ao final do discurso de Dilma na abertura do evento, os prefeitos pediram que a presidente se manifestasse sobre o assunto e Dilma respondeu: "Vocês não vão gostar do que eu vou dizer". Em seguida, a presidente declarou: "Não acreditem que vocês conseguirão resolver a distribuição de hoje pra trás. Lutem para resolver a distribuição daqui pra frente". Os prefeitos não gostaram da fala de Dilma e vaiaram a presidente.

A posição da presidente foi firme e transparente – duas qualidades que, aparentemente, incomodam boa parte de nossos políticos – e ela não fugiu do que poderia parecer – ou foi – uma provocação.

Na continuidade dos fatos, a presidente demonstrou despreparo para discutir ideias que divirjam das suas. Conforme notícias de hoje, além de demonstrar irritação com o que considerou uma “cobrança pública” do presidente da Confederação Nacional dos Municípios, chegou a ser vista de dedo em riste no decorrer de uma conversa nada amistosa com o mencionado presidente.

Penso que falte discernimento para a presidente entender que ideias diferentes podem contribuir para discussões que enriquecerão qualquer assunto. Por outro lado, entendo que o presidente da CNM não demonstrava qualquer outro tipo de preocupação que não fosse desestabilizar sua interlocutora (o que, pela reação foi muito fácil), pois ao defender a redistribuição dos royalties do petróleo (conforme a continuidade da matéria da Folha):
O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, fez um discurso com uma série de reivindicações dos prefeitos ao governo federal e ao Congresso. Uma das reclamações tratava sobre a falta de recursos das prefeituras para pagar o piso nacional de determinadas profissões. Ziulkoski citou como exemplos o piso dos professores e dos agentes comunitários: "Ninguém é contra o piso. Só que tem que ter um piso que dê para cumprir", disse o presidente. Paulo Ziulkoski disse ainda que o prefeito que não pagar o piso será punido pela Lei de Responsabilidade Fiscal e, por isso, poderá ser considerado ficha-suja. "O promotor lá na base ele pega o prefeito. O andar térreo é fácil. Do governador pra cima, o tratamento já é diferente", disse. Dilma disse que ficou "muito preocupada" com o relato sobre o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e prometeu que a União irá auxiliar nessa discussão. "Seria fundamental discutir o que é de fato que produz um desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal, que não é fruto da capacidade do prefeito. [... ] Nós queremos auxiliar em tudo para que não fiquem vulneráveis do ponto de vista jurídico à Lei de Responsabilidade Fiscal", afirmou Dilma. E completou: "o governo vai ser parceiro nisso. O governo vai separar o joio do trigo".

Parece que o Sr. Ziulkoski apresenta diferentes justiças, uma que pune quem deve ser punido – como a que ele chama “lá na base” e que pune prefeitos que não cumprem leis – e outra que trata “do governador para cima” com uma cegueira diferenciada – provavelmente sem condenações por irresponsabilidades. Ele pede que essa “justiça parceira”, mais confortável, seja estendida para os prefeitos. O mais surpreendente é a presidente Dilma afirmar que “o governo vai ser parceiro nisso”.
 
 Fonte: Portal Folha de Dona Inês

 Outra matéria da Folha, ainda abordando o encontro dos prefeitos com a presidente da República, pode dar uma ideia melhor de quem seja o presidente da Confederação Nacional dos Municípios. Diz a matéria que:
Paulo Ziulkoski, pediu nesta terça-feira (15) à presidente Dilma Rousseff que sancione o novo Código Florestal, aprovado pelo Congresso. [...] "Nós temos 4.400 municipios agropecuarios no país, estamos pedindo pra senhora que sancione o novo Código Florestal aprovado na Câmara. Esses municípios não podem terminar", afirmou Paulo Ziulkoski durante a abertura da 15ª edição da Marcha dos Prefeitos, em Brasília.

O veto do Código Florestal, ou mesmo a criação de um Código Florestal preocupado com questões ecológicas fundamentais, pode acabar com 4.400 municípios agropecuários, segundo o Sr. Ziulkoski. Constatável na afirmação desse senhor, provavelmente, será somente a quantidade de municípios agropecuários, pois o apoteótico final aludido não deve estar embasado em qualquer estudo. Acredito que esse patético apelo não terá qualquer efeito na decisão da presidente Dilma que vem demonstrando seu desconforto com o formato tomado pelo Código Florestal a partir de interesses pessoais de deputados.

A fala fácil do Senhor Ziulkoski, associada a um aparente descompromisso com fatos, me lembrou dum caso de Rolando Boldrin, que transcrevo abaixo.


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NOS TEMPOS DA REVOLUÇÃO
                                           Rolando Boldrin

Vejam só: até dos tempos da marfadada revolução tem causos pra gente contar. Esse que conto agora é dum camarada muito boateiro que tinha num bairro de São Paulo. O homem fazia boato de tudo. E isso era sempre num botequinho que ele freqüentava. Inventava coisas do governo militar, coisas de autoridades, zombava disso e daquilo outro.

Acontece que, desse barzinho gostoso de se trocar umas conversas de fim de tarde, um coronel que estava sempre à paisana era também um grande freguês. E, portanto, sabedor e até ouvinte assíduo do boateiro. Ninguém naquele boteco sabia que o coronel era coronel do nosso glorioso Exército... isso porque o dito cujo não fazia propaganda da farda. Era um cabra até que bem humilde e bom de papo.

Mas os boatos do tal amigo foram de certa forma chegando ao exagero e, com isso, no bom palavreado, foi enchendo o saco do bom militar. Daí o tal coronel resolve fazer uma brincadeira corretiva com o boateiro. E, pra isso, simula uma operação militar com jipes, metralhadoras e pessoal fardado, tudo combinado para simplesmente pregar uma boa peça no moço dos boatos, pois os vários boatos já estavam deixando a situação dos militares um pouco chata.

Pois bem. Era de tardezinha, nosso amigo dos boatos falava mal dos fardados e eis que, de repente surge aquela operação militar de araque.

CORONEL (fardado e bravo) – O senhor está preso. Coloquem este indivíduo no camburão. O senhor vai ser julgado por júri militar e condenado, por causa dos boatos referentes ao Exército.

Levam o dito cujo, simulam um júri e a condenação: morte por fuzilamento.

Pois bem. Isso posto, lá está o nosso amigo num paredão e na sua frente 5 fuzileiros apontando armas (com festim, é claro).

CORONEL – Apontarrr.... fogo!

Disparam as armas e o susto foi o pretendido pelo coronel, que se aproxima do boateiro, ainda bravo:

CORONEL – Isso é só pro senhor aprender a não falar mal das Forças Armadas. Entendeu? Fora daqui, sêo desocupado (e dá-lhe um último empurrão).

No outro dia, lá está o nosso querido boateiro, chegando à porta do mesmo botequim, para as conversas de sempre, regadas duma boa cachacinha.

Alguns clientes e amigos que tinham presenciado a prisão do nosso amigo no dia anterior se aproximam para saber das novidades, sobre o efeito da bronca do nosso militar.

FREGUÊS – Então, Justino! Como foi lá no quartel? Conta aí pra gente as novidades...

O nosso amigo boateiro chama todos para perto de si para cochichar um último e criativo boato:

BOATEIRO (falando baixinho) – Olha, pessoal. Não contem pra ninguém. Mas o nosso Exército está totalmente sem munição...


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         Fechando a Tertúlia de hoje (lembrando que os "interesses" dos senhores perfeitos serão um dia avaliados), fica a música “O Último Julgamento”, de Léo Canhoto, com Milionário e José Rico.

 

         Um grande abraço e até a próxima!