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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

TERTÚLIA NATIVA – A PÂNDEGA DOS MENSALEIROS


Eu continuo a ser uma coisa só, apenas uma coisa - um palhaço,
o que me coloca em nível bem mais alto que o de qualquer político.
(Charles Chaplin)



Amigas e Amigos,



Está começando o julgamento do processo do mensalão com as mais variadas expectativas. Os ocupantes dos principais cargos nos poderes constituídos passam a idéia de que já organizaram uma grande torcida para que tudo faça parte de cobertura da pizza que estão preparando. Já os que acreditam em um estado democrático de direito esperam que os fatos sejam julgados com isenção, que os inocentes sejam absolvidos e que os culpados cumpram penas conforme seus ilícitos.

Como a designação de ministros para o STF (Supremo Tribunal Federal) é decidida com o critério único de indicação política, os integrantes daquela corte tendem a ter um relacionamento que pode beirar a gratidão para com o poder executivo. No STF hoje, o ministro Dias Toffoli – que foi advogado de José Dirceu, tem no PT a base de sua carreira jurídica e namora a advogada Roberta Maria Rangel, defensora de alguns “mensaleiros” – já foi defensor de uma tese utilizada por Marcus Valério em sua defesa no mensalão. Apesar de seu forte vínculo com o PT e com os temas relacionados ao mensalão, o ministro Toffoli tem demonstrado não se considerar impedido de atuar no processo.


                                                                      Fonte: http:www.correiobraziliense.com.br


Para dar um pouco mais de clareza aos “rolos” inerentes ao mensalão, o portal Folha.com informa que a dívida junto a Receita de alguns mensaleiros já supera R$ 64 milhões. Diz a Folha que:
A segunda instância da Receita Federal já confirmou punições contra réus e empresas ligadas ao processo do mensalão que somam pelo menos R$ 64,4 milhões. As penalidades foram mantidas pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão do Ministério da Fazenda, e referendam na área administrativa as acusações feitas criminalmente pela Procuradoria-Geral da República na ação no STF (Supremo Tribunal Federal). Os valores poderão ficar ainda maiores, porque devem ser atualizados pela Receita com base no ano em que os créditos deveriam ter sido pagos à União. As decisões do conselho apontam que o empresário Marcos Valério de Souza e outros réus do grupo apontado como "núcleo operacional" do esquema cometeram diversas infrações, como evasão de divisas, movimentação de dinheiro de origem não declarada e fraudes contábeis para justificar a entrada e saída de recursos. Nas empresas dos réus ocorreu o uso de notas fiscais frias e alterações irregulares em livros contábeis, além de empréstimos simulados para justificar movimentações financeiras, segundo as deliberações do conselho. Os relatórios do órgão do Ministério da Fazenda revelam também que, quando foi descoberto o mensalão, as empresas tentaram alterar sua documentação fiscal para inserir faturamento que não constava de declarações dos anos anteriores. Segundo documentos da própria Receita, o grupo mandava desde 2002 dinheiro ilegalmente ao exterior, sem passar pelo sistema financeiro nacional.

Se em valores não atualizados, a dívida desses senhores com a Receita atinge espantosos R$ 64,4 milhões, sem as devidas atualizações monetárias, não consigo imaginar os valores que possam ter sido desviados de cofres públicos, nem os valores envolvidos em eventuais negociatas com representantes dos poderes públicos. Um pouco disso tudo poderá ser deduzido do encaminhamento que será dado ao processo nos próximos dias – ninguém acredita em menos do que um mês.


Para esquecer um pouco esse corrompido mundo adulto, publico abaixo um causo, do Rolando Boldrin, sobre a pândega infância interiorana.  


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CONVERSA DOS BICHOS
                        Rolando Boldrin

O Zequinha, menino de uns 10 anos de idade, era na fazenda do meu padrinho o que se pode chamar de “charrete boy”. Na cidade tem o motoboy, não tem? Então! Nas fazendas tem – ou tinha naquele tempo, que já vai longe – o charrete boy. O menino que com a charrete do fazendeiro vai buscar as coisas ou as pessoas na cidade.

Pois naquele dia o Zequinha tinha ido buscar na cidade o Padre Antônio, que estava iniciando sua temporada por lá. Era um padre novo e tinha uma particularidade que a gente só ficou sabendo depois desse causinho que tô contando aqui e agora: ele era ventríloquo. Um dom que poucas pessoas possuem que é o de falar sem abrir a boca. Dizem que é uma técnica de emitir os sons pelo estômago. Aliás, um grande ventríloquo que existiu no Brasil foi o pai das cantoras Linda e Dircinha Batista. Chamava-se Batista Junior e se apresentava em circos e teatros. E, de lambuja, era um grande compositor.

Mas, seguindo no causo. O Padre Antônio sobe na charrete com o caipirinha Zequinha, ruma a fazenda do meu padrinho pra rezar uma missa. Logo na saída, o padre pergunta se era longe a tal fazenda, ao que o menino prontamente e muito espertamente lhe responde que levaria uns pares de horas. O que dava pra entender que era longe pra cacete e a viagem ia ser dolorosa ou dolorida para um padre que não estava acostumado a meter a bunda no banco duro de uma charrete velha conduzida por uma eguinha lerda.

PADRE – Oh, menino! Você sabia que os animais conversam?

ZEQUINHA – Entre eles, eu sabia, sim sinhô. Eles cunvérsa bastante.

PADRE – Não, filho. Estou dizendo que os animais conversam com a gente. Conosco. Mas para isso é preciso conversar com eles com muito amor. Você quer ver os animais conversando comigo?

Aí o menino, esperto, se encanta e atiça.

ZEQUINHA – Ara, sêo padre. Essa eu tô pagando pra vê. Animar conversa cum gente. Essa nunca vi não sinhô. E o sinhô me adiscurpa, mas num querdito.


PADRE (falando para a égua) – Dona eguinha! Está muito pesada a charrete? (E faz a voz da égua sem abrir a boca) Tááá...sêo padre.

O menino, num susto, pára a charrete.

ZEQUINHA(gaguejando) – Sêo...padre... a égua falo...a minha égua...respondeu pru sinhô...eu escutei...

PADRE – Todos os animais conversam com a gente. Quer ver mais?

O padre olha um urubu nos céus e fala:

PADRE – Bom dia, urubu. (E faz voz.) Bom dia, parceiro. Bom dia, sêo padre.

E assim o Padre Antônio foi se divertindo com a surpresa encantada daquele caboclinho, que viu com os próprios olhos e ouvia ali, in loco, os bichos falando com aquele padre. Com isso, a viagem, que poderia ser longa, terminou logo, logo.

ZEQUINHA – Óia, sêo Padre! O sinhô ta vendo aquela cabrita branca ali na grama? Por favor, o sinhô num querdite em nada que ela fala prô sinhô, viu!!!!!!

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Na música escolhida para esta Tertúlia, valho-me de Luiz Vieira para continuar lembrando infâncias, esquecendo as discrepâncias entre as promessas de eleição e o exercício dos mandatos. No link abaixo, o grande sucesso da década de 1950 “O Menino de Braçanã”, do pernambucano Luiz (Rattes) Vieira (Filho), assinada, também, pelo carioca Arnaldo Passos e interpretada pelo próprio Luiz Vieira.

 

Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – DE COINCIDÊNCIAS, ÉTICA E POLÍTICA


É uma experiência eterna de que todos os homens com poder são tentados a abusar.
(Baron de la Brede et de Montesquieu)





Amigas e Amigos,




Uma série de coincidências, encontrada nos últimos dias nas leituras de alguns periódicos, provocaram desassossegos em meus pensamentos. Pensava que se alguma situação é tida como legalmente correta, não existiria qualquer motivo para incomodar.


A atuação do ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, em alguns dos seus últimos casos me conduziu a uma situação de desconforto. Mesmo que, aparentemente, não seja vislumbrada qualquer ilegitimidade, alguns fatos parecem aviltar preceitos de boa conduta.

Para começar a seqüência de fatos, uma matéria do portal do Diário de Pernambuco, hoje, diz que foi pedido ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região:
que anule as escutas telefônicas das operações Vegas e Monte Carlo, base da CPI do Cachoeira. A anulação das gravações derrubaria todas as investigações em curso contra Cachoeira e os demais integrantes da organização acusada de exploração ilegal de jogos e corrupção de parlamentares, entre outros agentes públicos. O advogado de Cachoeira, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, alega que as escutas são ilegais porque, no transcorrer das operações Vegas e Monte Carlo, a Polícia Federal investigou o senador Demóstenes Torres (Sem partido-GO) e outros parlamentares sem autorização prévia do Supremo Tribunal Federal (STF).


Na matéria acima, salvo engano, fica parecendo que o ex-ministro não está preocupado com a Justiça, mas com o bem estar de seu cliente – conhecido por atividades de contravenção e acusado de crimes envolvendo o poder público de diversos estados. As escutas telefônicas trouxeram ao conhecimento público uma quantidade exorbitante de crimes, envolvendo favorecimento de servidores e desvios de verbas públicas. Como o ex-ministro teve um entendimento – particular – do que seria a autorização para escutar esses degradantes colóquios via telefone, passa a impressão de acreditar que a atitude correta é deixar que esse tipo de falcatrua contra o cidadão brasileiro se perpetue.

No último dia 22 de maio, o portal Folha.com, o ex-ministro aparece defendendo interesses de seus clientes envolvidos com o escândalo do mensalão. Conforme o citado portal:
O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos afirmou nesta terça-feira (22) não ver pressa para o julgamento do mensalão. Thomaz Bastos advoga no caso para José Roberto Salgado, diretor do Banco Rural. "Eu não vejo pressa. Por que vamos fazer correndo esse julgamento, quando tem tantos outros que não se fazem?", afirmou o advogado.

Nesse caso, parece que o ex-ministro faz menção a notória lentidão da Justiça para clamar aos seus companheiros de toga que “empurrem com a barriga” o julgamento dessa bandalheira que se havia instituído no centro dos poderes brasileiros.  Mais uma vez, a idéia passada é de que o melhor é, na opinião do ex-ministro, que ninguém seja julgado por crimes cometidos contra os cidadãos brasileiros, pois protelar, nesse caso, pode significar esperar pelo decurso de prazo das acusações.

Outra notícia, interessante, também envolvendo o ex-ministro é a do portal Estadão, do dia 2 de maio de 2009, com o seguinte teor:
Ministro da Justiça de janeiro de 2003 a março de 2007, o advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos não abandonou a rotina na capital da República: foi e ainda é o homem que ajuda a livrar o governo das piores enrascadas. [...] Não há no Planalto um problema de grande impacto na seara política ou jurídica que não passe pelo "confessionário" do ex-ministro da Justiça. Nos últimos meses, sua atuação foi decisiva para conter a guerra de facções na Polícia Federal, escancarada com a Operação Satiagraha, que vasculhou a vida do banqueiro Daniel Dantas. Foi Thomaz Bastos, por exemplo, quem ajudou a construir o acordo que resultou na transferência do delegado Paulo Lacerda - ex-diretor-geral da PF e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) - para o cargo de adido em Lisboa. Depois de uma quarentena de um ano, o ex-ministro não vê impedimento ético em defender agora a empreiteira Camargo Corrêa e o empresário Eike Batista, alvos de investigações da Polícia Federal - instituição que foi subordinada a ele até março de 2007.

Essa última matéria, mais antiga, dá a impressão de que o exercício do cargo de ministro da Justiça foi suspenso, porém a autoridade proveniente do cargo continua potencialmente ativa. E é essa também a percepção proporcionada pelas atuações relacionadas às demais matérias aqui referidas.

Deve ficar claro que impressão ou percepção não são evidências que comprovem qualquer irregularidade. Penso, também, que à luz da lei não se qualifique na atuação profissional do ex-ministro qualquer desvio que possa ser condenado. Mas a “pulga” da ética insiste em se acomodar “atrás de minha orelha”.

A grande dúvida que tenho diz respeito a tantas tentativas do ex-ministro, como advogado de defesa, para que sejam “abafados” processos que envolvem denúncias de negócios escusos associados ao poder constituído (do qual ele fez parte em determinado período). Posso estar com um errôneo entendimento dessa situação e alguns resultados – que não vislumbro – justifiquem os fatos apresentados, confirmando a idéia – com a qual não consigo concordar – de que a ética foi abandonada pelo exercício da vida política.

Com essas aparentes “misérias”, lembrei de um sujeito miserável que virou personagem de Rolando Boldrin em um causo, que abaixo está publicado.


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ÊTA CABOCLO MISERÁVEL

                        Rolando Boldrin


Lá em São Joaquim da Barra (lá venho eu com minha terra de novo), tinha o Abílio Estori. Muitos inventaram causos da miserabilidade dele. Quando a gente fala em miserável, é aquele camarada que não rói a unha porque dói. É aquele que, de graça, não dá nem bom dia...etc. e tal.


Sobre o tal Abílio, chegaram a contar dele uma escabrosa. Imaginem os senhores que contam por lá que, um certo dia, o nosso personagem estava com dor de cabeça. Naquela época, era comum tomar o famoso Melhoral para qualquer dor.


Então, isso posto, conta-se que o Abílio, estando com dor de cabeça, teria amarrado na ponta de uma linha bem fina de costura um comprimido de Melhoral. E tomado o comprimido em seguida com um gole de água. Assim que a dor de cabeça passou, o Abílio teria puxado pra fora o Melhoral, para guardá-lo para outra ocasião. Outra dor. Era muito econômico o nosso querido Abílio.


Outra atribuída a ele era nos tempos da bicicleta motorizada. Aquelas que tinham um motorzinho no cano central. Pois bem. Contam que ele descia a rua principal que era um pouco declinada, com o motorzinho ligado, fazendo aquele barulhinho característico de motor...brrr....brrrrrrr...De vez em quando (dizem), o Abílio desligava o tal motorzinho e substituía o seu barulho característico por um ruído igual, só que feito pelos lábios, pela boca... brrrrr... brrrrr...Era muito econômico o nosso Abílio.


Agora, pra encurtar nossos causos, aqui vai uma do saudoso Pedro Chediac, que dizem era muito miserável também. No bom sentido da nossa lembrança querida desse personagem histórico da minha terra.


Pois bem. Lá vem o sêo Pedro numa caminhonete na estrada. Ao ver um caboclo na bêra do caminho, como quem pede carona, este sêo Pedro toma a iniciativa de parar o veículo e oferecer (vejam só) a tal carona.


PEDRO – Pra onde o senhor está indo, amigo?


CABOCLO – Pra fazenda do Lageado, moço.


PEDRO – Entre aqui, que eu lhe levo até o seu destino.


CABOCLO – Obrigado, cidadão... Muito obrigado pela gentileza.


O caboclo subiu na caminhonete. Prosa vai, prosa vem, que lá na minha terra se gosta muito de prosear, o sêo Pedro de repente diz ao caboclo:


PEDRO – O senhor por acaso já me conhecia?


CABOCLO – Só de vista, moço.


PEDRO – Pois eu me apresento. Sou muito conhecido por essas bandas. Meu nome é Pedro Chediac.


O caboclo faz um ar de quem já ouviu falar do sêo Pedro Chediac.


PEDRO – Pois então. Veja o senhor que, na minha cidade, dizem que sou muito miseráve. Mas é intriga. Pois eu mesmo não lhe ofereci carona, agora mesmo? Intão. Eu não sou miseráve nada. Eu sou muito bom. Veja bem: sou uma pessoa tão dadivosa... portanto, não sou miseráve, que isso fosse verdade.... eu quero que, por um castigo, uma jamanta dessas bem grandes e pesadas passe por cima de nóis dois, agora mesmo. Neste instante.


CABOCLO (no ato) – Ô moço! O sinhô qué fazê o favô de encostá a sua caminhonete... Eu quero apeá... agora mesmo. Bem depressa!!!


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         Para concluir a Tertúlia de hoje, fica a música "Lição de Moral", de Zé da Praia e Teodoro, com Zé Tapera e Teodoro.


  
 Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – MARCHA DOS PREFEITOS “ESPERTOS”



Os homens, tão enfadonhos quando se trata das manobras da ambição,
são atraentes ao agirem por uma grande causa.
(Charles André Joseph Marie de Gaulle)






Amigas e Amigos,

Ontem, o clima – mesmo com temperaturas mais baixas – esteve quente na Capital Federal, onde prefeitos de diversos municípios brasileiros encontraram a presidente da República. Como por ironia, o “incêndio” começou com petróleo.

Matéria do portal Folha.com informou que:
A presidente Dilma Rousseff foi vaiada nesta terça-feira (15) pelos prefeitos que participavam da 15ª edição da Marcha dos Prefeitos, em Brasília. A vaia ocorreu no momento em que a presidente decidiu falar sobre a redistribuição dos royalties do petróleo. Ao final do discurso de Dilma na abertura do evento, os prefeitos pediram que a presidente se manifestasse sobre o assunto e Dilma respondeu: "Vocês não vão gostar do que eu vou dizer". Em seguida, a presidente declarou: "Não acreditem que vocês conseguirão resolver a distribuição de hoje pra trás. Lutem para resolver a distribuição daqui pra frente". Os prefeitos não gostaram da fala de Dilma e vaiaram a presidente.

A posição da presidente foi firme e transparente – duas qualidades que, aparentemente, incomodam boa parte de nossos políticos – e ela não fugiu do que poderia parecer – ou foi – uma provocação.

Na continuidade dos fatos, a presidente demonstrou despreparo para discutir ideias que divirjam das suas. Conforme notícias de hoje, além de demonstrar irritação com o que considerou uma “cobrança pública” do presidente da Confederação Nacional dos Municípios, chegou a ser vista de dedo em riste no decorrer de uma conversa nada amistosa com o mencionado presidente.

Penso que falte discernimento para a presidente entender que ideias diferentes podem contribuir para discussões que enriquecerão qualquer assunto. Por outro lado, entendo que o presidente da CNM não demonstrava qualquer outro tipo de preocupação que não fosse desestabilizar sua interlocutora (o que, pela reação foi muito fácil), pois ao defender a redistribuição dos royalties do petróleo (conforme a continuidade da matéria da Folha):
O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, fez um discurso com uma série de reivindicações dos prefeitos ao governo federal e ao Congresso. Uma das reclamações tratava sobre a falta de recursos das prefeituras para pagar o piso nacional de determinadas profissões. Ziulkoski citou como exemplos o piso dos professores e dos agentes comunitários: "Ninguém é contra o piso. Só que tem que ter um piso que dê para cumprir", disse o presidente. Paulo Ziulkoski disse ainda que o prefeito que não pagar o piso será punido pela Lei de Responsabilidade Fiscal e, por isso, poderá ser considerado ficha-suja. "O promotor lá na base ele pega o prefeito. O andar térreo é fácil. Do governador pra cima, o tratamento já é diferente", disse. Dilma disse que ficou "muito preocupada" com o relato sobre o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e prometeu que a União irá auxiliar nessa discussão. "Seria fundamental discutir o que é de fato que produz um desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal, que não é fruto da capacidade do prefeito. [... ] Nós queremos auxiliar em tudo para que não fiquem vulneráveis do ponto de vista jurídico à Lei de Responsabilidade Fiscal", afirmou Dilma. E completou: "o governo vai ser parceiro nisso. O governo vai separar o joio do trigo".

Parece que o Sr. Ziulkoski apresenta diferentes justiças, uma que pune quem deve ser punido – como a que ele chama “lá na base” e que pune prefeitos que não cumprem leis – e outra que trata “do governador para cima” com uma cegueira diferenciada – provavelmente sem condenações por irresponsabilidades. Ele pede que essa “justiça parceira”, mais confortável, seja estendida para os prefeitos. O mais surpreendente é a presidente Dilma afirmar que “o governo vai ser parceiro nisso”.
 
 Fonte: Portal Folha de Dona Inês

 Outra matéria da Folha, ainda abordando o encontro dos prefeitos com a presidente da República, pode dar uma ideia melhor de quem seja o presidente da Confederação Nacional dos Municípios. Diz a matéria que:
Paulo Ziulkoski, pediu nesta terça-feira (15) à presidente Dilma Rousseff que sancione o novo Código Florestal, aprovado pelo Congresso. [...] "Nós temos 4.400 municipios agropecuarios no país, estamos pedindo pra senhora que sancione o novo Código Florestal aprovado na Câmara. Esses municípios não podem terminar", afirmou Paulo Ziulkoski durante a abertura da 15ª edição da Marcha dos Prefeitos, em Brasília.

O veto do Código Florestal, ou mesmo a criação de um Código Florestal preocupado com questões ecológicas fundamentais, pode acabar com 4.400 municípios agropecuários, segundo o Sr. Ziulkoski. Constatável na afirmação desse senhor, provavelmente, será somente a quantidade de municípios agropecuários, pois o apoteótico final aludido não deve estar embasado em qualquer estudo. Acredito que esse patético apelo não terá qualquer efeito na decisão da presidente Dilma que vem demonstrando seu desconforto com o formato tomado pelo Código Florestal a partir de interesses pessoais de deputados.

A fala fácil do Senhor Ziulkoski, associada a um aparente descompromisso com fatos, me lembrou dum caso de Rolando Boldrin, que transcrevo abaixo.


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NOS TEMPOS DA REVOLUÇÃO
                                           Rolando Boldrin

Vejam só: até dos tempos da marfadada revolução tem causos pra gente contar. Esse que conto agora é dum camarada muito boateiro que tinha num bairro de São Paulo. O homem fazia boato de tudo. E isso era sempre num botequinho que ele freqüentava. Inventava coisas do governo militar, coisas de autoridades, zombava disso e daquilo outro.

Acontece que, desse barzinho gostoso de se trocar umas conversas de fim de tarde, um coronel que estava sempre à paisana era também um grande freguês. E, portanto, sabedor e até ouvinte assíduo do boateiro. Ninguém naquele boteco sabia que o coronel era coronel do nosso glorioso Exército... isso porque o dito cujo não fazia propaganda da farda. Era um cabra até que bem humilde e bom de papo.

Mas os boatos do tal amigo foram de certa forma chegando ao exagero e, com isso, no bom palavreado, foi enchendo o saco do bom militar. Daí o tal coronel resolve fazer uma brincadeira corretiva com o boateiro. E, pra isso, simula uma operação militar com jipes, metralhadoras e pessoal fardado, tudo combinado para simplesmente pregar uma boa peça no moço dos boatos, pois os vários boatos já estavam deixando a situação dos militares um pouco chata.

Pois bem. Era de tardezinha, nosso amigo dos boatos falava mal dos fardados e eis que, de repente surge aquela operação militar de araque.

CORONEL (fardado e bravo) – O senhor está preso. Coloquem este indivíduo no camburão. O senhor vai ser julgado por júri militar e condenado, por causa dos boatos referentes ao Exército.

Levam o dito cujo, simulam um júri e a condenação: morte por fuzilamento.

Pois bem. Isso posto, lá está o nosso amigo num paredão e na sua frente 5 fuzileiros apontando armas (com festim, é claro).

CORONEL – Apontarrr.... fogo!

Disparam as armas e o susto foi o pretendido pelo coronel, que se aproxima do boateiro, ainda bravo:

CORONEL – Isso é só pro senhor aprender a não falar mal das Forças Armadas. Entendeu? Fora daqui, sêo desocupado (e dá-lhe um último empurrão).

No outro dia, lá está o nosso querido boateiro, chegando à porta do mesmo botequim, para as conversas de sempre, regadas duma boa cachacinha.

Alguns clientes e amigos que tinham presenciado a prisão do nosso amigo no dia anterior se aproximam para saber das novidades, sobre o efeito da bronca do nosso militar.

FREGUÊS – Então, Justino! Como foi lá no quartel? Conta aí pra gente as novidades...

O nosso amigo boateiro chama todos para perto de si para cochichar um último e criativo boato:

BOATEIRO (falando baixinho) – Olha, pessoal. Não contem pra ninguém. Mas o nosso Exército está totalmente sem munição...


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         Fechando a Tertúlia de hoje (lembrando que os "interesses" dos senhores perfeitos serão um dia avaliados), fica a música “O Último Julgamento”, de Léo Canhoto, com Milionário e José Rico.

 

         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – DOUTOR EM DISCRIMINAÇÃO


O falhado é um homem que errou
mas não é capaz de converter o seu erro em experiência.
(Elbert Hubbard)



Amigas e Amigos,

         Um shopping em Brasília-DF foi palco de uma ocorrência no último domingo, 29/04, que, pelas informações disponíveis até agora, somente provocou todo o constrangimento noticiado pela impunidade que beneficia os delinqüentes nessas Terras de Santa Cruz. Um médico, identificado como Heverton Octacílio de Campos Menezes, de 62 anos, teria ofendido uma funcionária da bilheteria da área de cinemas do shopping por que ela não foi conivente com a intenção dele de “furar a fila”.

         A funcionária da bilheteria, falando para diversos meios de comunicação, informou que o médico teria dito que  ela “era muito grossa que era por isso que tinha essa cor, que estava no lugar errado, que ali não era seu lugar, que não devia estar lidando com gente, devia estar lidando com animal. E disse também que não deveria estar morando aqui que deveria estar morando na África, cuidando de orangotangos”.



         As câmeras de segurança do shopping mostram o referido médico saindo do cinema e descendo as escadas rolantes como se fugisse de algo. Existem relatos publicados de que a forma ostensiva com que o médico agrediu a funcionária acabou provocando uma reação contrária entre as pessoas que aguardavam na fila – as que o médico queria “passar para trás” –  e que solicitaram mais respeito por parte do  descontrolado cidadão.

         Hoje, lendo a edição impressa do Correio Braziliense, encontrei uma entrevista do medico Campos Menezes, em que ele nega todas as acusações de discriminação racial contra a funcionária da bilheteria, Marina Serafim dos Reis, de 25 anos, dizendo ainda que em nenhum momento insultou a atendente. Segundo o Correio, o médico alegou:
ter dito apenas que ela estava sendo “descortês”. “Não entendo por que a palavra ‘descortês’ causou tanto mal entendido”. Questionado pelo Correio por qual motivo então teria fugido correndo, já que as imagens feitas pelo circuito de câmeras do shopping mostravam claramente isso, ele respondeu que, por conta do nervosismo da funcionária, as pessoas que estavam na fila ficaram muito exaltadas e ficou com medo de um linchamento. “No Brasil é muito comum as pessoas, a polícia, matarem ou baterem. Quis apenas preservar a minha integridade física”, disse.

         Fico pensando que, mesmo para um grande mestre do surrealismo, seria muito difícil pintar um “quadro” melhor do que a alegação publicada pelo jornal. O “equilibrado” médico da alegação acima, ainda conforme o Correio, “acumula, em 18 anos, outras nove acusações na Polícia Civil do Distrito Federal. Entre as queixas estão injúria discriminatória, desacato, agressão e lesão corporal”.
        
         Em não havendo exagero nas informações publicadas, talvez você também esteja com a mesma dúvida que me assola: como que um indivíduo descontrolado como esse ainda não foi julgado por tantos descalabros?

         E tem mais uma informação preocupante, publicada ontem no portal G1, informando que Campos Menezes:
atuava como psicanalista, em uma clínica no Lago Sul, área nobre de Brasília, mas, segundo a Sociedade de Psicanálise de Brasília, ele não tem formação na área. Segundo um representante do grupo, ele passou por três entrevistas e pelo exame de currículo, mas foi reprovado. Ele resolveu então criar uma entidade, a Associação da Refundação Psicanalítica Internacional, onde dava aulas.


Com todas essas versões para uma mesma história – onde, aparentemente, a única coisa certa é a presença da arrogância e sua consequência primeira, caracterizada pela sensação de superioridade em relação aos demais – lembrei de uma história do livro “Contando Causos”, do múltiplo artista Rolando Boldrin sobre uma versão carregada de fantasia para uma história de caçador.

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O MEDO DA ONÇA
                           Rolando Boldrin



Dentre todos os mentirosos que eu conheci, o mais engraçado deles era o Zé Farol. Esse tinha um jeito especial de inventar suas histórias incríveis.

Como todo mentiroso, causo de onça era o que não faltava ao Zé Farol. Tinha um punhado de mentira, cada uma melhor do que a outra.

Nesse causo que passo a contar agora, ao contrário de todo mentiroso que começa contando vantagem, ele começou contando pra gente assim:

Zé Farol – Óia, gente. Esta que eu vou contar agora foi fogo, porque eu sempre tive muito medo de onça. E num é que  justamente uma das grandes foi a que apareceu um dia que eu fui caçá? Apois bem: quando eu vi a marvada, carpi os pé. Larguei espingarda, larguei tudo ali mêmo e saí desembestado mata afora.

Ouvinte 1 – E daí, Zé? Conseguiu se livrar da onça? 

Zé Farol – Que nada. Pois num é que a mardita garrô corrê atráis de mim feito uma doida. E eu lá no meio daquele mato... correndo. E a onça atráis pega num pega... tava chegando nos meu carcanhá.

Ouvinte 2 – Conta logo, Zé! Quero vê como ocê se livrô dessa bitela... 

Zé Farol – Carma, gente. Eu chego lá. Pois bem, corre que corre, a onça quase me arcançando... De repente, eu trupiquei nuns graveto e tium... Caí de boca no chão. Daí, eu desesperado me virei de barriga pra riba, pra móde num morrê cumo um covarde de bruço pro chão. A onça veio vindo... vindo... me oiando... me oiando... e quando chegou pertinho de mim, que tremia... ela ponhô a pata direita em riba do meu peito... abriu aquele bocão bem na minha cara e roncô bem arto... ansim: GREEEEEEEEEEEE (Zé imitando a onça). O barulho do ronco bravo dela acho que dava para ouvi no arraia.

Todos (muito interessados) – E daí, Zé? O que que ocê fez?

Zé Farol – Me borrei tudo. Me sujei na carça. 

Ouvinte 1 – Pois agora gostei de vê, Zé. Agora ocê provou que num mente. Pois, com uma onça dessas com a pata no meu peito, até eu borrava. Me sujava as carça também.

Zé Farol (calmo) – Não gente. Eu tô falando que me borrei, mas foi agora que eu imitei o ronco arto da onça: GREEEEEEEEEEEEEEEEE...


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         A música para esta Tertúlia traz uma história de um doutor que também deixou o título "subir à cabeça". Escrita por Edward de Marchi e interpretada pela dupla Biá & Dino Franco, pode-se ouvir, abaixo, "Lição de Moral".   





Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TERTÚLIA NATIVA – A JUSTIÇA E O CHICO BELEZA




Quando a gente está cansado, dá uma bruta vontade de dizer que sim.
(Millôr Fernandes)



Amigas e Amigos,

Na Tertúlia Nativa, volto a comentar o estilo “caranguejo tupiniquim” de se fazer justiça neste nosso país. O fato que me levou a esse comentário inicial é a ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Federal (MPF), em Brasília, para pedir a demissão do ex-procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bandarra, e da promotora de Justiça, Deborah Guerner, acusados de envolvimento na Operação Caixa de Pandora, esquema de corrupção ligado ao governo do DF e descoberto em 2009.

O jornal O Estado de São Paulo (http://www.estadao.com.br) tem uma matéria na quarta-feira, informando sobre as pessoas citadas acima que:
No ano passado, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) condenou-os após processo administrativo a perda dos cargos. Os dois foram punidos pelo colegiado por terem violado sigilo funcional de uma operação policial e tentarem receber, pelos dados, vantagem pecuniária de José Roberto Arruda, governador que foi cassado pelo escândalo de corrupção na capital. Eles teriam cobrado uma quantia milionária para não divulgar o vídeo em que Arruda recebe dinheiro ilegal. Além de sugerir a pena de demissão, o CNMP suspendeu Deborah por 60 dias e Bandarra por 150 dias, sem recebimento de salário ou gratificações. Atualmente o ex-procurador-geral de Justiça está suspenso até o dia 24 e a promotora, de licença médica até maio. 
O caso envolvendo os dois havia sido remetido inicialmente para o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para propor ação. Mas, por se tratar de ação que deve ser ajuizada na primeira instância, Gurgel mandou o caso para lá dia 26 de outubro. A ação contra os dois foi ajuizada na sexta-feira, dia 10. Como foi necessário o empréstimo de provas criminais contra ele, a acusação vai correr sob segredo de Justiça. Com o simples ajuizamento da ação, a dupla sofreu o primeiro revés no bolso. Pela Lei Orgânica do Ministério Público da União, o simples ajuizamento da ação, depois da conclusão de um processo administrativo por conselho superior, é motivo suficiente para o afastamento automático dos dois dos cargos bem como da suspensão dos vencimentos até o julgamento do processo. Por causa da prerrogativa, a ação que pode levar os dois à demissão pode demorar anos. Em São Paulo, um promotor ainda ficou 15 anos no cargo até ser finalmente condenado à demissão pela Justiça. Em Brasília, outro promotor demorou 10 anos até deixar os quadros da instituição.

Depois de toda a transgressão moral propiciada pelo procurador (de encrenca, talvez) e pela promotora (quem sabe, de cenas canastras), é difícil entender como que ainda é utilizado o dinheiro público para sustentar esse tipo de gente. Mais duro, ainda, é imaginar que a “enrolação” pode perdurar por muito mais tempo, conforme a própria matéria adverte lembrando casos onde para tirar dois indivíduos de seus cargos, em situações semelhantes, levou 10 e 15 anos.



         A matéria também informa que os dois “jurisconsultos”, especialistas em baixaria, podem sofrer o primeiro revés no bolso, mas isso só acontecerá se não existir um “jeitinho jurídico” para reverter essa situação. Enquanto isso, veremos muitos desmaios cênicos e ensaios de histerismo. E os Mensalões – do DEM e do PT – entrando na fila do esquecimento, para morrerem de inanição, porque a Justiça não teve “tempo” para avaliá-los.

   
         Os fatos apresentados podem levar a um entendimento de que a justiça pouco trabalha e quando trabalha apronta "cardápios de difícil digestão". Se efetividade e eficácia andam descompassadas dos labores jurídicos, a única forma para melhorar a imagem é aproveitar o tempo momesco e ensaiar alguns "passinhos" na esperança de agradar os espectadores foliões.
   
         Para entender melhor a sugestão acima, a Tertúlia traz a obra “Chico Beleza”, de Catulo da Paixão Cearense, contando a história de um "sambadô". E esse “Cearense” é tão somente um sobrenome, pois Catulo nasceu em São Luís do Maranhão e, ainda adolescente, foi com os pais para o Rio de Janeiro.

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CHICO BELEZA
                                  Catulo da Paixão Cearense

Pulas areia da istrada,
Cum as perna já meia bamba,
Um dispotismo de gente
Vinha cantando num samba,
Fazendo grande berrêro!

Quem puxava a istruvunca
Era o Manué Cachacêro,
O mais grande dos violêro,
Que im todo sertão gimia!

E era ansim que ele cantava
E no canto ansim dizia:
"Diz os véiu de outras éra
que quando São João sintia
sôdade de Jesú Cristo
e de sua cumpanhia,
garrava logo na viola,
prá chorá sua sôdade
e a sua malincunía!
Entonce logo os apóstro,
Assombrando o istruvío,
Cada um seu pé de verso
Cantava no desafío
A Mãe de Cristo chorava
e as água que derramava
da fonte do coração,
caia nas corda santa
da viola de São João!
Pru via disto é que o pinho,
instrumento sem rivá,
quando se põe-se chorando,
se põe-se a gente a chorá".

Foi aí, nesse festêro,
que vi o Chico Sambêro,
um sambadô sem sigundo,
mas porêm feio ,tão feio,
que toda gente dizia
que foi o hôme mais feio
que Deus butou neste mundo!

Tinha cara de preguiça,
cabeça de mono véio,
e pescoço de aribú!
A boca, quando se ria,
taquarmente parecia
a boca de um cangurú!

Tinha as oreias de porco
e os dentes de caitetú!
Tinha barriga de sapo,
e o nariz, impipocado,
figurava um genipapo!

Os braços era taliquá
dois braços sirigaitado
d' um veio tamanduá!
Os óios - dois berimbau!
As pernas finas alembrava
as pernas d' um pica pau!

O queixo de capivara
tinha um bigode pru riba,
que quase tapava a cara!
O cabelo surupinho
era, sem tirá nem pô,
cabelo de porco espinho!

Im conclusão, prá findá,
tinha os dedos de gambá,
os hombros redondo e chato
e os pé que nem pé de pato!

Inda mais prá cumpletá
aquela xeringamança
e feiúra de pagóde,
o hôme quando se ria,
era um cavalo rinchando,
e quando táva suando,
tinha um ôroma de bóde.

Apois bem. Esse raboeza,
que era prú todas as bocas
chamado : Chico Beleza;
esse horríve lobizome,
que era mais feio que a fome,
mais feio que o Demo inté
quando as pernas sacudia,
sambando nargum banzé
enfeitiçando as viola,
apaixonando as muié,
trazia tôda as cabôca,
cumo um capaxo, dibaxo,
das duas sóla do pé!!!



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         Para terminar a Tertúlia, Rolando Boldrin canta (após declamar "Senhor Brasil") a sua música "Vide Vida Marvada".



         Um grande abraço e até a próxima!