sexta-feira, 2 de março de 2012

TERTÚLIA NATIVA – ELES QUE VENHAM, "NÓIS SEMO MAIS HOMEM"


O homem citado recorda-nos os bárbaros das grandes ondas migradoras,
que matavam e depois faziam penitência,
e para os quais fazer penitência acabou por se tornar uma técnica facilitadora do assassínio.
(Sigmund Freud)



Amigas e Amigos,

O jornal O Estado de São Paulo traz uma notícia sobre a “bronca” da presidente Dilma nos militares, o que estaria levando a um endurecimento da reação das Forças Armadas ao Governo. Diz o Estadão que:
Não será fácil para os comandantes militares resolverem o imbróglio criado pela presidente Dilma Rousseff que decidiu punir todos os militares que assinaram o manifesto "Alerta à Nação - eles que venham, por aqui não passarão", que endossa as críticas a ela por não ter censurado suas ministras que pediram a revogação da lei de anistia. No novo documento os militares dizem ainda que não reconhecem a autoridade do ministro da Defesa, Celso Amorim. Inicialmente, o manifesto tinha 98 assinaturas e na quinta-feira, após terem tomando conhecimento da decisão de puni-los, o número de seguidores subiu para 235. [...] Nessa quinta-feira, 1º, o Ministério da Defesa passou o dia discutindo com que base legal os militares podem ser punidos. Nova reunião foi convocada pelo ministro Celso Amorim e os comandantes militares. Mas há divergências de como aplicar as punições. A Defesa entende que houve "ofensa à autoridade da cadeia de comando", incluindo aí a presidente Dilma e o ministro da Defesa. Amorim tem endossado esta tese e alimentado a presidente com estas informações. O ministro entende que os militares não estão emitindo opiniões na nota, mas sim atacando e criticando seus superiores hierárquicos, o que é crime, de acordo com o Estatuto dos Militares. [...] Nos comandos, há a preocupação, ainda, com o fato de que a lista de adeptos do manifesto só cresce, o que faria com que este tema virasse uma bola da neve. Há quem acredite que o assunto deva ser resolvido de uma outra forma, a partir de uma conversa da presidente com os comandante militares, diretamente, para que fosse costurada uma saída política para este imbróglio que, na avaliação da caserna, parece não ter fim, já que a determinação do Planalto é de que todos que já assinaram e que venham ainda a aderir ao manifesto sejam punidos.

         Talvez a não ocorrência de uma “guerrinha” para exercitar os músculos dos integrantes das Forças Armadas tenha levado alguns de seus integrantes a buscarem alguma forma de passar o tempo. Aí, surge uma explicação – não sei se plausível – para o manifesto, porque pouco, além disso, percebo.

Texto da ilustração acima: “Arrancaram-me o ramo de oliveira, razão de meu vôo... Quiseram impingir-me outro ramo de pseudo paz. Já descobri em meio ao dilúvio de ódio e de guerra, em maré crescente, minorias que cultivam oliveiras de verdade, símbolos fiéis da paz verdadeira.....”  D. Hélder Câmara

         Afinal, vivemos em um país onde a impunidade grassa, pois os responsáveis pela elaboração das leis são, cada vez mais e por nossa vontade, pouco afeitos a ética e moral. Em conseqüência disso, redigem pensando em oportunidades para escaparem de quaisquer penas que, porventura, lhes possam ser atribuídas.

         Em função das considerações acima, perderia força uma eventual justificativa para o manifesto amparada por receios de punições indiscriminadas contra militares. Por outro lado, não acredito que se reedite uma “caça às bruxas”, onde os militares poderiam ser considerados similares às objeto das perseguições religiosas dos séculos XVI e XVII.

         Ante o exposto, a justificativa para o manifesto poderia – situação mais preocupante – ser amparada por medos associados a atitudes, de alguns, onde os direitos individuais tenham sido agredidos. Seriam esses “alguns”, hoje, os mais injuriados com a possibilidade de revisão de uma anistia introduzida em uma lei por motivos nunca muito transparentes?

         Se a história da ditadura militar recente não tem máculas injustificáveis, não há necessidade de existir uma anistia. Se, por outro lado, essa história não for assim tão alva, o perdão em sentido amplo pode estar associado a uma grande injustiça com a própria sociedade. Logo, penso que uma volta à discussão sobre anistia poderia interessar a todos, tantos civis – preocupados com a transparência de seus governos – quanto militares – preocupados com sua imagem perante a opinião pública.

         Bravatas do tipo “eles que venham, por aqui não passarão” nada agregam a uma necessidade de entendimento entre todos os envolvidos neste enredo digno de uma produção da antiga “zona do lixo”.

         Como bravatas e militares já andam lado a lado desde muito tempo, lembrei de uma causo do professor, comunicador e tradicionalista Antônio Augusto “Nico” Fagundes, sobre uma figura impar ligada as forças revolucionárias de 1923, no Rio Grande do Sul, que publico abaixo.


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CANDINHO BICHAREDO
                                  Antônio Augusto Fagundes

Se eu falo no Candinho Bicharedo, primeiro, porque era contador de causo; segundo, porque ele peleou em 23, do lado dos Maragatos.

Mas era Maragato dos quatro costados! Quando cercaram Uruguaiana, no primeiro dia de abril de 23, ele se juntou com as forças de Honório Lemes.

         E no combate do Ibicuí da Armada, onde Flores da Cunha atacou com ímpeto enorme, matou tanta gente que os urubus fizeram cerimônia: só comiam de capitão pra cima...

Um piquete de Flores da Cunha aprisionou Candinho Bicharedo! Degola, não degola... disseram pro Flores degolar.

– Não, o Candinho Bicharedo! Que é isso! Vão tomar banho! O Candinho é uma glória aqui em Uruguaiana, aqui nesta região da Fronteira... Como é que vamos degolar?

– Mas, ele é um contador de causo! Muito mentiroso!

– Não, não, o Candinho é sagrado – disse o Flores – Dêem ele prum soldado cuidar.

O soldado ficou cuidando do Candinho. Todos os dias o Candinho ia ao ouvido do soldado:

– É, vocês passaram no Ibicuí da Armada (onde Honório Lemes ofereceu uma resistência muito grande), mas passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!

 Com o passar do tempo, o soldado foi enchendo a paciência e não agüentou mais. Passou o Candinho pro cabo!

O cabo ouvia, todos os dias:

– É. Vocês passaram no Ibicuí da Armada. Mas, passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!

O cabo não agüentou e passou o Candinho pro sargento. O sargento passou pro capitão. O Capitão passou prum major; dizem até que era o major Laurindo Ramos, lá do Itaqui, que não era de laçar com sovéu curto...

E ninguém mais agüentava o Candinho. Até que passaram pro próprio Flores da Cunha.

– Olha, Coronel Flor, não agüentamos mais o Candinho! Só o senhor, pra dar um jeito na vida dele!

– Mas, o que é que ele faz?

– Ele fica incomodando a gente, à roda do dia. Já estava com vontade de mandá degolá!

– Não, não e não! Me passem o Candinho. (O Dr. Flores da Cunha tinha sido intendente em Uruguaiana; comandava a Brigada do Oeste, na Fronteira da República, com o Coronel Neco Costa, aquela gente toda!).

Bueno, e pro flores o Candinho cevou o mate, mas um mate véio espumando como apojo de brasina! Alcançou o mate pro Dr. Flores, que era Coronel Provisório, mas todo mundo chamava de General. Diz o Candinho:

– Óia, General Flor, vocês passaram no Ibicuí da Armada, mas só passaram porque tinham mais gente, mais arma que nós. Nós semos muito mais homens que vocês!

E o Flores, que já sabia da história e que também não era de pelar com a unha, respondeu:

– Olhe, Candinho, tu é Maragato, não é?

– Sim, claro. Sou Maragato.

– Agora, tu vai vestir a farda azul dos meus Provisórios e botar um lenço branco no pescoço, jurar a Bandeira do lado do Governo, senão vou te mandar degolar. Tu sabe que essa indidada tá louca pra te degolar; eu é que não deixei!

Na voz da degola, o Candinho Bicharedo achou que já tava com idade de sentar praça! E sentou. Arrumaram uma farda azul pra ele. Aquele bonezinho, uma borda vermelha aqui em cima, e ataram um lenço branco bem nas pontas; mandaram o Candinho se apresentar pro Flores e bater continência.

O Candinho, travestido de Chimango, se apresentou ao Flores. Enquadrou o corpo, bateu continência. O Flores chasqueou:

– E agora, Candinho? O que tu acha do combate do Ibicuí da Armada?

O Candinho não se apertou:

– É, General. "Nós" passemos, mas só "passemos" porque "nós" tinha mais gente, mais arma. "Eles" são muito mais homens do que "nós"!!!


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         Para fechar a Tertúlia, fica a música "Décima do Candinho Bicharedo", de Knelmo Alves e Francisco Alves, interpretada na 5ª Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaina, por Oristela Alves (melhor intérprete feminina) e Os Uruchês (melhor conjunto instrumental). E é essa interpretação que se pode ouvir abaixo.

 

         Um grande abraço e até a próxima!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ABRINDO A PORTEIRA – A IMPUNIDADE QUE SE ESPALHA


Quem perdoa uma culpa encoraja a cometer muitas outras.
(Públio Siro)


Amigas e Amigos,

         Vou abrir a porteira, esta semana, para pensar um pouco sobre a influência exercida por mazelas, associadas ao Poder, na sociedade brasiliense, tão próxima – e, paradoxalmente, tão longe dos Poderes da União. 
         Os três Poderes da república estão localizados no Distrito Federal, em prédios bem conhecidos pela população da capital. Por outro lado, os representantes que ocupam os diversos escalões desses Poderes, em sua grande maioria, têm compromissos com outras regiões. Para essas regiões dedicam a maioria de seu tempo, pensando – talvez – em próximos pleitos e na garantia dos benefícios advindos de seus cargos.

         A impunidade assume diversas formas para se fazer presente nos três Poderes, como se pode observar no caso do Mensalão, onde ninguém foi punido, pois o Judiciário trata o assunto com mais voltas do que bolacha em boca de velho (ditado gaúcho), o que vai fazendo o tempo passar, até que algum ministro aposente, o que fará o caso esperar um substituto, a ser indicado pelo Executivo que o escolherá sabe-se lá quando. Enquanto isso, as CPIs e Conselhos de Ética do Legislativo dão a impressão de brincar de detetives e vão deixando o tempo passar para o processo caducar.



         Essa impunidade acaba gerando reflexos na sociedade, conforme se pode observar no caso de Galdino Jesus dos Santos, um índio pataxó de 44 anos, que morreu com 95% do corpo queimado em abril de 1997, porque cinco rapazes de classe média resolveram fazer uma brincadeira. Na diversão dos garotos, o índio dormindo em uma parada de ônibus foi encharcado em combustível e recebeu fósforos acesos para tomar um susto. Três dos garotos responsáveis por esse crime monstruoso tinham à época 19 anos, um tinha 18 anos e o mais novo, 16 anos. Além disso, um era filho de um juiz federal, um fora criado por ex-ministro do TSE e os demais eram amigos e pertenciam a famílias influentes do DF.

         Mesmo com o Art. 5º da Constituição prevendo que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, o que aconteceu após a identificação dos criminosos foi, conforme a Wikipedia:
Pertencentes a famílias de grande poder aquisitivo e influência, desde a prisão os criminosos contaram com regalias a que nenhum outro preso comum tinha direito. [...] G.N.A.J. [o menor] foi encaminhado para o centro de reabilitação juvenil do Distrito Federal, onde ficou preso apenas por três meses, apesar de ter sido condenado a um ano de reclusão. Os outros quatro foram condenados, em 2001, a catorze anos de prisão em regime integralmente fechado por homicídio doloso. Pela gravidade do crime não teriam direito a determinados benefícios, mas, já no ano seguinte, receberam autorização para exercer funções administrativas em órgãos públicos. Três dos cinco rapazes chegaram a ser flagrados pela imprensa local se dirigindo em carro próprio até o presídio sem passar por qualquer tipo de revista, após namorar e ingerir bebida alcoólica em um bar. Em agosto de 2004, foi concedido o livramento condicional aos quatro condenados. Esse benefício foi recepcionado pela opinião pública como um atestado do "caráter volúvel do Poder Judiciário frente à força político-econômica" e revoltou os familiares do índio assassinado. A mídia também noticiou a concessão do benefício, apesar de previsto em lei, como "certeza da impunidade" para um crime considerado hediondo pela legislação brasileira.
         Com o exemplo acima, moradores de rua foram queimados por jovens na última semana e uma das vítimas, de 26 anos de idade, não resistiu aos ferimentos e morreu          com 63% do corpo queimado. Segundo o portal G1:
De acordo com um homem que presenciou a cena, entre 22h30 e 23h um grupo de sete jovens tentou colocar fogo no sofá onde os sem-teto dormiam. A primeira tentativa não deu certo. Segundo a testemunha, cerca de uma hora depois, três jovens voltaram ao local e incendiaram o sofá. A testemunha, que ainda será ouvida oficialmente pela polícia, contou que os jovens, que aparentavam ser adolescentes, atearam fogo no sofá e fugiram. Segundo a polícia, a testemunha chamou o Corpo de Bombeiros que fez os primeiros socorros no local e levou as vítimas para o hospital. Segundo informações do agente de plantão na delegacia, os moradores de rua são conhecidos da QR 118, no conjunto H, em Santa Maria. Eles não têm passagem pela polícia e costumavam dormir no sofá que ficava embaixo de uma árvore da região que é residencial e comercial.
         Essa sensação de impunidade que grassa nos três poderes pode ser responsável, ainda, pelo brutal assassinato de um menino de 12 anos em uma briga de trânsito no Distrito Federal, conforme a informação do “Bom Dia DF”, de hoje:
O adolescente levou um tiro na região do abdômen, foi levado ao hospital, mas não resistiu e morreu no centro cirúrgico. A briga aconteceu na frente da casa da vítima, na quadra 304 de Santa Maria. A tia do menino, Fabiana Teodósio, contou que tudo começou porque o carro da família fechou a pista por alguns minutos e um outro veículo queria passar. "Quando eu estava embarcando no carro do meu esposo e ele colocando o cinto de segurança, demoramos um pouco mais a sair com o veículo. O carro de trás começou a buzinar, o meu cunhado se exaltou e perguntou por que eles estavam buzinando, e pediu pra ter um pouco de calma. Aí eles começaram um bate-boca e, poucos minutos, depois o carona do carro efetuou um disparo", relatou. Segundo a família, no carro havia três rapazes que conseguiram fugir.
         Como no caso do índio Galdino, penso que não faltarão rábulas para tentar desclassificar os crimes e transformar bandidos em “menininhos com irresponsabilidades próprias da idade”. Punições como a aplicada ao monstrengo que assassinou uma adolescente em São Paulo poderiam levar esses menininhos a pensar um pouco antes de agir de forma tão leviana.

         Até que efetivamente tenhamos algum resultado mais prático para as questões de impunidade, ainda veremos nossos três Poderes aumentarem seus (14, 15 ou 16) salários anuais muito além de qualquer índice aplicado para as classes trabalhadoras brasileiras. E a caravana passa...

         A música escolhida para hoje lembra um vagabundo que nada tem a ver com a malandragem de tomou conta da postagem de hoje. É “Malandro da Barra Funda”, um samba de Raul Torres e Carreirinho, interpretada pelo mineiro Tião Carreiro, no LP "Em solo de viola caipira", gravado em 1979. Essa música, com um arranjo diferente, fez parte da trilha sonora da novela O Rei do Gado (Rede Globo,1996-1997), gravada pela dupla Pirilampo & Saracura (Almir Sater e Sérgio Reis), com o título alterado para “Vagabundo”.

 

         Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

FOGÃO DE LENHA – PISO(U) NO MAGISTÉRIO

  

A educação de um povo pode ser julgada,
antes de mais nada, pelo comportamento que ele mostra na rua.
Onde encontrares falta de educação nas ruas, encontrarás o mesmo nas casas.
(Edmondo de Amicis)



Amigas e Amigos,

         Notícia da Agência Brasil, já divulgada em grande número de jornais e portais de notícias na Internet, informa que o início do ano letivo está evidenciando que a Lei do Piso Nacional do Magistério, aprovada em 2008 e fixando o mês de janeiro para reajuste dos professores da rede pública com jornada de 40 horas por semana, não está entre as mais “simpáticas” para os governos estaduais, pois até agora muitos estados e municípios estão completamente “esquecidos” da determinação legal.

         Li a notícia sobre esse assunto no Jornal do Brasil, de onde transcrevo que:
Apesar de o texto da lei deixar claro que o reajuste deve ser calculado com base no crescimento dos valores do Fundo de Manutenção e desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), governadores e prefeitos justificam que vão esperar o Ministério da Educação (MEC) se pronunciar oficialmente sobre o patamar definido para 2012. De acordo com o MEC, o valor será divulgado em breve e estados e municípios que ainda não reajustaram o piso deverão pagar os valores devidos aos professores retroativos a janeiro. O texto da legislação determina que a atualização do piso deverá ser calculada utilizando o mesmo percentual de crescimento do valor mínimo anual por aluno do Fundeb. As previsões para 2012 apontam que o aumento no fundo deverá ser em torno de 21% em comparação a 2011.

         Penso que o problema é mais simples do que todo o imbróglio provocado pelos envolvidos. Sendo o corpo mole de prefeitos e governadores conhecido pelo MEC, bastaria que, no início do ano, esse Ministério divulgasse um índice preliminar, a ser substituído pelo definitivo assim que apurado. Não se falaria de passivo, nem de falta de informação e nem de professor sendo enganado por seu empregador oficial.

         Sobre o assunto, e muito mais preocupante, é a sequência da notícia, onde parece que alguém pisou no piso salarial dos professores e esse alguém tem o nome de muito prefeito e de muito governador conhecido. Diz o JB que:
Na Câmara dos Deputados tramita um projeto de lei para alterar o parâmetro de reajuste do piso que teria como base a variação da inflação. Por esse critério, o aumento em 2012 seria em torno de 7%, abaixo dos 21% previstos. A proposta não prosperou no Senado, mas na Câmara recebeu parecer positivo da Comissão de Finanças e Tributação. A Lei do Piso determina que nenhum professor pode receber menos do valor determinado por uma jornada de 40 horas semanais. Questionada na Justiça por governadores, a legislação foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no ano passado. Entes federados argumentam que não têm recursos para pagar o valor estipulado pela lei. O dispositivo prevê que a União complemente o pagamento nesses casos, mas desde 2008 nenhum estado ou município recebeu os recursos porque, segundo o MEC, não conseguiu comprovar a falta de verbas para esse fim.

         Penso ser emocionante para todos nós, cidadãos brasileiros, perceber uma Câmara de representantes preocupada em não desperdiçar dinheiro público e escolhendo o menor índice para reajuste de professores – que, acredito, pensem nossos representantes naquela Casa estarem muito bem remunerados. Vale lembrar, apenas, que esses mesmos senhores são os que, sem qualquer vergonha ou remorso, reajustam seus próprios salários (15 por ano) em patamares que sempre surpreendem os mais otimistas. Um grande número desses mesmos senhores, ao contrário da maioria dos brasileiros, ainda não voltou a trabalhar após o recesso de Natal/Ano Novo, pois antes esperavam as festividades de Momo e agora devem estar se recuperando do Carnaval.

         Interessante observar que estados e municípios teriam direito a um aporte de recursos amparado por lei, mas ninguém recebeu qualquer ajuda. Será que a comprovação da falta de verbas poderia gerar algum desconforto provocado por utilização indevida de verbas? É só uma pergunta...



         Para o fim de semana, a sugestão é um prato para pronta recuperação do feriado e das festas. A receita de hoje é carne de panela, com um toque especial, acompanhada de batatas.

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CARNE DE PANELA COM BATATAS

Ingredientes:


1 kg de alcatra, cortada em cubos grandes

½ kg de batata, cortada em cubos grandes

1 lata de cerveja preta

4 colheres (sopa) de óleo

2 cebolas médias, picadas

3 dentes de alho, picados

2 tomates, picados

1 pimenta dedo-de-moça sem sementes, picada

½  xícara de extrato de tomate

1 colher (sopa) de farinha de trigo

1 tablete de caldo de picanha (ou de carne)

3 xícaras de água fervente

Sal e pimenta-do-reino a gosto

½  xícara de salsa, picada




Modo de preparar:


Tempere a carne com alho, sal e pimenta-do-reino.

Deixe descansar por aproximadamente uma hora.

Salpicar a carne temperada com a farinha de trigo.

Em uma panela de ferro grande, aqueça o óleo.

Frite os cubos de carne aos poucos, até dourar.

Na mesma panela, frite a cebola e a pimenta dedo-de-moça.

Acrescente o tomate e misture ligeiramente.

Coloque cerveja, o caldo de picanha e o extrato de tomate.

Acrescente a água e cozinhe até amaciar a carne.

Coloque a batata e, se necessário, coloque mais água até cobrir.

Deixe ferver novamente, até a batata ficar macia.

Se necessário, acerte o tempero e deixe o molho engrossar.

Polvilhe com a salsa picada e sirva.


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         A música escolhida para ouvir enquanto a receita é preparada tem por título "A Violeira", de Chico Buarque e Tom Jobim, interpretada pela mineira Ivânia Catarina, acompanhada pelos mineiros Carlos Gomes (mais contemporâneo do que o compositor do Guarani) e Tatá Sympa.

 

         Um abraço e um excelente fim de semana!

GALERIA SERTANEJA – BAILE DO CANDIEIRO E CONTRATOS NO ESCURO


Os abusos, que destroem as boas instituições,
têm o privilégio fatal de fazer subsistir as más.
(Pierre-Édouard Lémontey)



Amigas e Amigos,

A má vontade para tratar assuntos relacionados à saúde, à educação e à segurança é extremamente maior do que apregoada falta de recursos para essas necessidades.

         Além do desperdício com uma “máquina” governamental inchada, para “acomodar” cabos e promessas, e além dos desvios para sustentar a corrupção institucional que geram CPIs que jamais levam a qualquer lugar, mas que desviam deputados e senadores de seus afazeres para ocuparem canais midiáticos, aparece hoje uma notícia mostrando o que se pode fazer com dinheiro público para empregar amigos e ignorar a própria lei.

         A Folha de São Paulo, hoje, destacou em seu caderno sobre “Poder”, que a TV do governo quer jornalistas em todos os continentes. Diz a matéria que:
O governo quer contratar jornalistas em todos os continentes para abastecer com informações oficiais seus veículos de comunicação. A meta está prevista no plano de trabalho da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) apresentado pela nova direção da estatal que assumiu em dezembro e controla uma TV, uma agência de notícias e uma rádio. O primeiro passo foi dado na última semana quando a empresa reativou a cobertura na África, enviando um correspondente para Maputo, capital de Moçambique. O custo de manter um repórter para abastecer a TV, que tem audiência próxima a zero, e os demais veículos é de R$ 543,21 mil anuais. Com 192 jornalistas concursados e quatro anos de existência, a EBC informou que optou por contratar um profissional porque "não possui jornalista com a qualificação necessária para desenvolver o trabalho". A EBC só conta com repórteres próprios no Brasil em três Estados (RJ, SP e MA) e no DF, onde é a sua sede. O contrato com o repórter de Moçambique foi assinado sem licitação, na semana passada, com empresa que tem cinco meses de existência. Emerson Penha, dono da empresa, foi escolhido, de acordo com a EBC, "por ter realizado inúmeras coberturas internacionais", entre as citadas, nenhuma na África. Até janeiro, Moçambique foi o destino de apenas 0,96% das exportações brasileiras para a África. A EBC diz que Moçambique é o maior país de língua portuguesa na África e abriga empresas brasileiras importantes como a Vale. Segundo a EBC, o plano de trabalho é para 2012, mas o envio de pessoal para os demais continentes irá ocorrer "assim que o orçamento permitir essa expansão". A empresa mantém também posto em Buenos Aires, "onde os serviços das agências de notícias não costumam ter eficiente qualidade". O orçamento da empresa pública para este ano é de R$ 416,5 milhões. No Brasil, atinge 1.700 dos 5.565 municípios. Ainda na cobertura internacional, a nova direção da EBC abriu licitação de R$ 800 mil para contratar uma empresa que ofereça serviços de produção de TV e transmissão de sinal via satélite em viagens de autoridades. Justifica que a agenda da presidente Dilma no exterior é fechada de última hora, o que torna a negociação com as emissoras locais "sempre problemáticas".

         Dos 192 jornalistas concursados nenhum tem qualificação para ser correspondente em um local que praticamente não tem qualquer repercussão internacional e para uma TV cuja audiência é muito próxima do zero. Supondo que, como acontece em alguns órgãos do governo, o concurso para jornalistas tenha sido um processo sem muita transparência, onde não foi considerada a função a ser desempenhada pelos aprovados e nem tenha lembrado de formação ou de experiência. Ainda assim, seria tudo isso suficiente para que um profissional – com o número de jornalistas existente no mercado – fosse contratado sem licitação simplesmente por... (imagine uma justificativa para completar a frase).


           Apesar de que o pessoal do Planalto sabe "preparar" uma licitação de forma muito particular, conforme noticiado na Folha de São Paulo, nesta quinta-feira, sobre editais da Presidência e do Ministério de Minas e Energia para aquisição de tablets contendo especificações exclusivas do iPad2 e com o Governo, na maior cara-de-pau, dizendo existirem vários fornecedores, o que estaria mantendo o princípio da concorrência. Diz a Folha que: 
Órgãos do governo federal têm montado editais de licitação para a compra de tablets copiando do site oficial da Apple especificações técnicas exclusivas do iPad 2, produzido pela empresa. A atitude, cuja legalidade é questionada por especialistas, acarreta na exclusão automática de tablets produzidos por outros fabricantes. Hoje existem mais de dez fabricantes dos aparelhos com atuação no Brasil. A Lei de Licitações prevê que, nos processos de compras públicas, os bens a serem adquiridos devem conter especificações técnicas, mas sem indicação de marca.  […] O exemplo mais claro de favorecimento ao produto da Apple vem do Planalto. Numa licitação realizada em outubro para a compra de 42 tablets para serem distribuídos entre autoridades e assessores palacianos, a Presidência fez praticamente um "copiar e colar" do site da Apple. Até mesmo uma chamada para uma nota de rodapé presente na página da empresa foi mantida no edital da Presidência. Prática semelhante ocorreu no Ministério de Minas e Energia, que abriu há alguns dias uma licitação para a compra de até 665 tablets.

         Pouco criativa, também, é a desculpa utilizada pela EBC para gastar R$ 800 mil com produção e transmissão de viagens de autoridades – será que as negociações problemáticas serão substituídas por propagandas governamentais de viagens pagas com dinheiro público para justificar algum tipo de turismo institucional. Mas com um orçamento de mais do que R$ 400 milhões – para uma audiência zerada – é preciso inventar (e muito) formas de distribuí-lo.



         Enquanto não se acende, pelo menos, um candeeiro para iluminar as contas dessa empresa de comunicação e as licitações do Planalto, a letra para hoje é de “Baile de Candieiro”, de Sérgio Napp e Albino Manique.     


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BAILE DE CANDIEIRO
                                  Sérgio Napp e Albino Manique

Camisa branca lenço colorado

E uma bota nova e calça de riscado

Pelos cabelos muita brilhantina

Que tem bate coxa no salão da esquina.

E vou chegando meio ressabiado

Pelo lusco-fusco deste candieiro

E no entreveiro busco a tal morena

Por quem me deixei assim enfeitiçado.

E já nos tocamos pro meio do baile

E mais uma volta e uma volta e meia

Toca mais um xote mais uma vaneira

Que eu mostro o meu valor.

E eu me apeio pelo seu cangote

E o seu perfume me deixando tonto

Mais uma volteada que eu não abro mão

De quem é o meu amor.

Ai, meu candieiro

Se apaga teu lume agora

Eu pego esta flor de morena

Encilho o meu pingo e me vou mundo afora.

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         Nessa Galeria, a interpretação hoje é do grupo "Os Mirins".





          Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

TERTÚLIA NATIVA – CORDEL, QUE BELO CARNAVAL



 
As grandes oscilações da personalidade
 observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos.
Na da inteligência, elas são muito fracas. Um imbecil permanecerá sempre imbecil.
(Gustave Le Bom)



Amigas e Amigos,

Está terminando mais um Carnaval. Enquanto no Rio de Janeiro fica a expectativa de que, no próximo ano, mais foliões se divertirão e divertirão expectadores (e telespectadores), em São Paulo fica a dúvida se já no próximo ano estará entendido o verdadeiro espírito dessa festa.

         No Rio de Janeiro, a Unidos da Tijuca – Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Tijuca – foi a grande campeã, com uma bonita homenagem a Luís Gonzaga. Salgueiro e Vila Isabel, por detalhe, ocupam o segundo e terceiro lugar. Esse detalhe, percebido por alguns jurados, poderia ter levado a outra classificação no resultado final da apuração sem que houvesse injustiça para quem aprecia um bom desfile.  

A ousadia da Unidos da Tijuca foi  homenagear mestre Lua sem contar sua história, mas trazendo a sua nobreza para a avenida na forma de reverência ao Rei do Baião por outros “reis”. A literatura de cordel ficou por conta do Salgueiro, que trouxe sua “Furiosa” fazendo o samba lembrar xote e baião, o que seu principal casal de mestre-sala e porta-bandeira transformou em forró na avenida, com direito a triângulo na coreografia. A Vila Isabel, que ganhou o prêmio “Estandarte de Ouro” de melhor escola, trouxe o “Canto livre de Angola”, lembrando o seu enredo inesquecível de “Kizomba, a Festa da Raça”. Vale registrar que a “paradinha” da bateria da Mangueira foi a grande revolução do desfile de 2012: o silêncio da bateria – mais de dois minutos – e do carro de som era substituído por um carro de bambas, responsável por sustentar o samba enredo por um longo período – homenagem ao “Cacique de Ramos”, sem esquecer o “Bafo da Onça” –, enchendo de emoção um desfile que será lembrado por muito tempo.

         O destaque negativo do Carnaval ficou para a apuração do desfile principal de São Paulo, marcado por aberrações que poderiam ser associadas a truculências medievais. A continuidade dos fatos dá um toque de transgressão da ordem de forma surreal, pois o incitamento a violência propiciado por lideranças de escolas, apesar de documentado, é tido como não acontecido por suas diretorias. Além disso, o integrante da diretoria de uma escola (estava, como consentimento de seus pares, na área destinada para essas pessoas) que invadiu, agrediu, rasgou documentos e sabe-se lá que mais aprontou, é declarado como não integrante da escola e, assim que detido pela polícia, já tem um advogado de defesa pronto para transformá-lo em um santinho arrependido. Para coroar o inesquecível Carnaval paulistano, o prefeito transforma o assunto em oportuno fato político, anunciando com bravatas medidas que, muito provavelmente, poderão render votos, mas em nada melhorarão a precária situação da festa momesca em Sampa.  Até porque o corporativismo das diretorias de escola – que em São Paulo levaram para a avenida as torcidas organizadas com todas as suas mazelas – tentarão colocar “panos quentes” em toda a orgia da apuração para que tudo continue como dantes. E até os próximos problemas... mas isso não é Carnaval.



         Como o Cordel tomou conta da Sapucaí, a Tertúlia de hoje traz uma bela poesia do saudoso Patativa do Assaré – o poeta, compositor e improvisador cearense Antônio Gonçalves da Silva. Esse poema deu nome a um livro do autor, publicado em 1978.

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CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ
                                  Patativa do Assaré

Poeta, cantô de rua, / Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua, / Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo, / Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá / Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí, / Cante lá, que eu canto cá.

Você teve inducação, / Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão / Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça, / Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem, / Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida / Sabe o gosto que ela tem.

Pra gente cantá o sertão, / Precisa nele morá,
Tê armoço de fejão / E a janta de mucunzá,
Vivê pobre, sem dinhêro, / Trabaiando o dia intero
Socado dentro do mato, / De apragata currelepe,
Pisando inriba do estrepe, / Brocando a unha-de-gato.

Você é munto ditoso, / Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu gozo, / Que eu canto meu padecê.
Inquanto a felicidade / Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento / A fome, a dô e a misera.
Pra sê poeta divera, / Precisa tê sofrimento.

Sua rima, inda que seja / Bordada de prata e de ôro,
Para a gente sertaneja / É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito, / Não canta o sertão dereito,
Porque você não conhece / Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada, / Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito, / Com tudo quanto ele tem,
Quem sempre correu estreito, / Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão / Suportando a privação
Com paciença de Jó, / Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada, / Moiadinho de suó.

Amigo, não tenha quêxa, / Veja que eu tenho razão
Em lhe dizê que não mêxa / Nas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega / De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá, / Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí, / Cante lá, que eu canto cá.

Repare que a minha vida / É deferente da sua.
A sua rima pulida / Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente, / Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão; / Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte / Das obra da criação.

Mas porém, eu não invejo / O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo, / Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta / E fazê rima compreta,
Não precisa professô; / Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio / E um verso em cada fulô.

Seu verso é uma mistura, / É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura / Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada, / Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão / E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive / Do meu querido sertão.

Canto as fulô e os abróio / Com todas coisa daqui:
Pra toda parte que eu óio / Vejo um verso se bulí.
Se as vêz andando no vale / Atrás de curá meus male
Quero repará pra serra / Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima / Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra / De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra / E fulô de trapiá,
De canto de passarinho / E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem, / Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente / E nosso verso também.

Repare que deferença / Iziste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença, / Trabaiando em minha roça,
Você lá no seu descanso, / Fuma o seu cigarro manso,
Bem perfumado e sadio; / Já eu, aqui tive a sorte
De fumá cigarro forte / Feito de paia de mio.

Você, vaidoso e facêro, / Toda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um isquêro / Do mais bonito metá.
Eu que não posso com isso, / Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui, / Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado, / Boa pedra e bom fuzí.

Sua vida é divirtida / E a minha é grande pená.
Só numa parte de vida / Nóis dois samo bem iguá:
É no dereito sagrado, / Por Jesus abençoado
Pra consolá nosso pranto, / Conheço e não me confundo
Da coisa mió do mundo / Nóis goza do mesmo tanto.

Eu não posso lhe invejá / Nem você invejá eu,
O que Deus lhe deu por lá, / Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié, / Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem / E ninguém pode negá
Que das coisa naturá / Tem ela o que a sua tem.

Aqui findo esta verdade / Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade / Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio, / Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá. / Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mêxo aí, / Cante lá, que eu canto cá.



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         Para terminar essa Tertúlia, fica a música de Dominguinhos e Anastácia, interpretada por Luís Gonzaga e Gonzaguinha, "Eu só quero um xodó".



         Um grande abraço e até a próxima!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

COM O PÉ NO ESTRIBO - BILHETE PREMIADO E FESTA NA ROÇA




À minha volta, reprovava-se a mentira, mas fugia-se cuidadosamente da verdade.
(Simone de Beauvoir)



Amigas e Amigos,

          Neste sábado de Carnaval, uma senhora idosa é envolvida pelo conto do bilhete premiado e só não teve um grande prejuízo por o gerente de seu banco suspeitou do golpe e acionou, rapidamente, a polícia que acabou prendendo as marginais que tentavam aplicar o golpe.

          O jornal O Estado de São Paulo publicou sobre a tentativa de golpe acima que:
Uma aposentada, de 80 anos, foi vítima do golpe do "bilhete premiado", no bairro de Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, mas foi salva pelo gerente do banco. A idosa foi a uma agência bancária na Vila Formosa e solicitou um saque de R$ 25 mil da poupança. O gerente desconfiou de que a senhora estava sendo vítima de um golpe e perguntou o motivo da retirada. A cliente respondeu que era para comprar um "bilhete premiado", em valor bem mais alto, de R$ 440 mil. Ela explicou que duas mulheres, que a esperavam na porta do banco, lhe ofereceram o bilhete da loteria federal - ela daria os R$ 24 mil para uma das mulheres e repartiria o "prêmio" do bilhete com a outra. O gerente chamou a Polícia Militar, que, já sabendo as características físicas das suspeitas e o tipo de roupa que usavam, deteve duas mulheres, uma delas também idosa, de 64 anos, que esperavam a senhora na porta do banco. Com elas foram apreendidos o falso bilhete premiado, moedas estrangeiras (10 mil ienes e US$ 134) e R$ 245. As duas foram autuadas em flagrante por estelionato e levadas para uma carceragem feminina, à disposição da Justiça.
Fonte: site da Rádio Araguaia 970AM

          Se até o motoboy que matou a namorada adolescente – após monstruosas atrocidades transmitidas pelos meios de comunicação - conseguiu advogado para chamá-lo, carinhosamente, de menino, acredito que essas duas – com alguns trocados que tinham no bolso – não terão dificuldades para encontrarem um defensor na porta da cadeia que até possa chamar uma das meliantes de “simpática vovozinha”.

          Penso, ainda, que enquanto tivermos suaves leis para punir bandidos e magistrados arrogantes deixando esse tipo de gente convivendo com a sociedade – e aprontando um golpe atrás de outro – estimularemos o crescimento de vidas marginais. As únicas certezas que os marginais – e candidatos a marginais – tem hoje é que passarão pouco tempo em uma carceragem e que no tempo em que estiverem presos poderão desfrutar do dinheiro público sem precisar trabalhar.

         Como estamos em tempo de festa, vamos ouvir "Festa na Roça", de Tonico e Nadir, com Tonico & Tinoco.

 

Um forte abraço e até o próximo encontro!