sexta-feira, 13 de abril de 2012

FOGÃO DE LENHA – TRACALHICE, COSTELA E PIRÃO


Nenhum mentiroso tem uma memória suficientemente boa
para ser um mentiroso de êxito.
(Abraham Lincoln)




Amigas e Amigos,

  
Não tomados os devidos cuidados com conduta e imagem de seus integrantes, poderá o principal partido brasileiro de situação deixar de ser lembrado como dos trabalhadores para ser associado à tracalhice. A bravata mais recente foi o jeitinho que tentaram os seus representantes na hora de instalar a CPI do DEM(óstenes), preocupados em não retornar ao mensalão – que as principais cortes jurídicas buscam tornar caduco por decurso de prazo.

Não fosse uma CPI – cujos finais nem sempre conseguem ser superados pelas conclusões das telenovelas brasileiras – e as eminências pardas – que fizeram parte do jogo de cena onde o afastamento simulado de partido não impediu que essas “autoridades” continuassem como manda-chuvas – estariam a demonstrar alguma preocupação.

Juntem-se ao jeitinho da CPI, as entrevistas do governador do DF sobre a completa falta de conexão entre ele e o contraventor Cachoeira. Claro que essa informação foi acompanhada da fanfarrice sobre o escândalo que, segundo o governador Agnelo, “é do DEM e do PSDB. Não é nem de Brasília, nem do PT. É especificamente de Goiás. Há uma tentativa, que eu chamaria desesperada, porque pega fatos soltos, frágeis, contraditórios e inconsistentes. Tentam fazer uma ligação com o meu governo. Mas o Governo do DF não tem ninguém indicado por esse grupo”.

O governador, que nunca tinha encontrado o bicheiro, lembrou de um encontro lá pelos idos de 2009, ou 2010. O governo que não tem nada a ver com a crise já perdeu dois representantes. E se descobrirem que é o “zero-um” ou o “magrão”... Independente disso, seria interessante ver esse governo trabalhar um pouco, pois consegue boa parte da dinheirama que é retirada de forma impositiva de seus cidadãos sem que apareça qualquer investimento (ou o campo de futebol vai solucionar todos os problemas).

Os cidadãos da capital federal dispõem hoje de uma polícia fazendo greve branca (segundo algumas informações, incentivada por representante do legislativo distrital), de hospitais públicos matando até crianças e de uma rede de educação completamente abandonada, mesmo com uma longa de greve de professores cujos direitos foram execrados pelo patrão.



Na proximidade de mais um fim-de-semana, onde não só em Brasília conviveremos com todos esses problemas, restará testarmos uma receita que nos faça, pelo menos na hora da refeição, esquecer de poderes e lembrar só prazeres. A sugestão de hoje é uma costela com batatas e agrião, acompanhada de pirão que pode ser servida, ainda, com arroz branco e um bom pão francês.


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COSTELA COM PIRÃO

Ingredientes:
1 e ½ kg de costela bovina (cortada em pedaços pequenos)
4 colher(sopa) de massa de tomate
3 colheres(sopa) de óleo
½  xícara(chá) de vinagre
1 kg de batatas descascadas e cortadas em 4
1 pimentão vermelho picado
4 dentes de alho amassados
1 cebola grande bem picada
2 folhas de louro
1 maço de agrião picado
4 tomates picados
1 litro de água (aproximadamente)
Sal, pimenta do reino e cheiro verde a gosto

Ingredientes para o pirão:
Caldo do preparo da costela (aproximadamente ½ litro)
2 xícaras(chá) de farinha de mandioca crua


Modo de preparar:

Lavar bem a costela.
Temperar com alho, sal, vinagre, pimenta do reino e louro.
Na panela de pressão, adicionar o óleo.
Dourar os pedaços de costela por 10 min. (aprox.).
Acrescentar a cebola e dourar ligeiramente.
Adicionar a água e tampar a panela.
Cozinhar na pressão, por 30/40 minutos.
Tirar a pressão e abrir a panela.
Colocar batatas, tomates, pimentão, massa de tomate.
Se necessário, acrescentar mais água.
Mexer bem, tampar a panela.
Cozinhar, em fogo brando, por cerca de 10 min.
Retirar do fogo e abrir a panela, novamente.
Separar a costela e as batatas em uma travessa.
Acrescentar o agrião ao caldo quente na panela.
Retirar o agrião e colocá-lo na travessa.
Despeje um pouco de caldo por sobre os ingredientes.
Polvilhe com parte do cheiro verde.

Preparo do pirão:

Levar o caldo que ficou na panela ao fogo brando.
Acrescentar o cheiro verde.
Colocar a farinha de mandioca aos poucos.
Mexer devagar até consistência cremosa (de 3 a 5 min.).

Sugestão: servir a carne com o pirão, acompanhados de arroz branco.


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         A música para este Fogão de Lenha é “Juntando os Gravetos”, de Mauro Moraes, interpretada pelo saudoso José Cláudio Machado em dupla com Luiz Marenco.

  

       Um grande abraço, bom apetite e até o próximo encontro,


GALERIA SERTANEJA – CACHOEIRA, PIZZA E IMBRÓGLIO (CPI)



Muitos ensinam o que adquiriram com o estudo, não com a conduta,
e assim o que pregam com a palavra destroem com o seu modo de vida.
(S. Gregório Magno)



Amigas e Amigos,

Depois de uma comissão de notáveis ter proposto a regulamentação das casas de prostituição para que policiais corruptos não se aproveitem dos distintos donos desses estabelecimentos, fica a possibilidade de encontrarmos daqui a pouco uma proposta de regulamentação do jogo de bicho para que os empresários da sorte zoólatra não sejam, também, perturbados.

         Notícia do portal G1 diz que houve mudança no texto para criação de uma comissão mista para averiguar o envolvimento de “agentes privados” com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A matéria no referido portal informa que:
Parlamentares iniciaram nesta quinta-feira (12) a coleta de assinaturas para a criação da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigará as relações de políticos com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso em fevereiro durante a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, sob a acusação de comandar um esquema de jogo ilegal em Goiás. [...]  PSDB, DEM e PMDB protestaram contra a versão inicial e pediram ainda que a CPMI também investigasse fatos relacionados à Operação Vegas, feita pela PF em 2009, que também apurou negócios ilegais comandados por Cachoeira. Após uma reunião no gabinete do líder do PMDB na noite de quarta (11), foi construída a versão final do texto. A redação afirma que a comissão será destinada a “investigar num prazo de 180 dias, práticas criminosas desvendadas pelas operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, com o envolvimento do senhor Carlos Augusto Ramos, conhecido vulgarmente como Carlinhos Cachoeira, e agentes públicos e privados.” [...] De acordo com o requerimento, a CPMI será formada por 15 deputados e 15 senadores titulares, e o mesmo número de suplentes. A maioria é absoluta do governo: somente 6 dos 30 titulares pertencerão a partidos de oposição. O requerimento prevê o funcionamento da comissão por 180 dias. O limite para despesas da CPI será de R$ 200 mil. A previsão dos líderes é de que o requerimento só seja protocolado na próxima terça-feira (17), já que o Congresso fica esvaziado a partir das quintas-feiras e isso poderia prejudicar a coleta de assinaturas.

         A forte vontade que motivou o início do movimento pela CPI parece estar ensombrecida pelo novo rumo, pois, mesmo mantendo o foco no suposto envolvimento do senador Demóstenes com jogos de azar no estado de Goiás, adquiriu um escopo maior, abarcando outras investigações. Esse novo texto pode levar a investigação do envolvimento de personalidades do governo federal anterior, que poderão aparecer muito “ligadas” ao empresário zoômano.

Fonte: Humor Político. Charge de Alecrim.

         Como sempre, se o envolvimento de “amigos” for maior do que a “fritura” previamente combinada para dar idéia de moralidade na esplanada, os representantes do povo não hesitarão em encomendar mais uma pizza, final previsível para o decurso dos 180 dias que retirarão, sem muitas dúvidas, mais R$ 200 mil dos cofres públicos (não vislumbro dúvidas de que a comissão saberá consumi-los). Até lá, senadores e deputados que trabalham de terça a quinta-feira – desde que a semana não tenha feriados – terão na falta de quorum um bom motivo para trabalhar menos e viajar mais para “acompanhar as bases”.

         A notícia relacionada a essa CPI que mais me surpreendeu hoje foi a negativa, no STJ, do pedido de liberdade para Carlinhos Cachoeira, preso em penitenciária de segurança máxima em Mossoró-RN. A alegação da defesa é que o contraventor (que ou quem é autor de uma contravenção, que infringe leis ou regulamentos) não tem antecedentes como criminoso (que ou quem comete alguma falta, não necessariamente punível, porém condenável por uma ou mais pessoas ou pela sociedade).

         A música escolhida para esta Galeria com viés zoológico é "Liga dos Bichos", de Capitão Furtado, Alvarenga e Ranchinho.

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LIGA DOS BICHOS
                                             Cap. Furtado, Alvarenga e Ranchinho


Já formaro a sociedade
Protetor dos animais
Enquanto os bichos forgueti
A gente anda pa trás
Esse mundo tá virado
Tem coisa que não se atura
A gente passa apertado
E os bicho passa fartura

Os bicho tem sociedade
Adonde tem protetor
Na família do seu Galo
Tem muito Pinto doutor
Já vi Leitão professor
Vi Aranha de talento
Mas o que me deixou besta
Foi ver Cavalo Sargento

Também vi Coeio fardado
Oficiar de longo curso
E na crasse dos artistas
Tenho visto muito Urso
Pra chegar a capitão
A gente quase se mata
E os bicho sobe na vida
Tem até major Barata

Da maneira que vai indo
Tô vendo que não demora
Os burro monta na gente
E ainda chama na espora
Vou se embora pro sertão
Não vorto aqui nunca mais
Que lá num tem sociedade
Protetor dos animais

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         Nessa Galeria, a interpretação hoje é da saudosa dupla Alvarenga & Ranchinho. 



         Um grande abraço e até a próxima!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA – GIGOLÔS DE CARTEIRINHA


A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes,
mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade.
(Emmanuel Kant)



Amigas e Amigos,

Após alguns dias de intensa “maratona” por estradas gaúchas durante o período de preparação para a grande festa da ressurreição do Senhor, revendo parentes e degustando uma quantidade de churrascos que enrubesceriam nutricionistas e vegetarianos, estou de volta a este Blog. Confesso que a alegria e intensidade das visitas, sempre acompanhadas de um bom chimarrão de esmerado preparo onde ervas-mate brasileiras e uruguaias se revezavam, tomaram meu tempo ao longo desse período de tal forma que aproveitei pequenos intervalos entre a madrugada e o amanhecer para dormir na expectativa de uma recuperação física que somente agora penso ter alcançado.

Volto com uma Tertúlia Nativa e com mais uma tentativa de fazer alguma coisa propiciada por nossos extraordinariamente bem remunerados senadores. Dessa vez, além da busca de uma CPI para preparar uma cascata (ou cachoeira) de pizza, surge uma proposta de uma comissão para legalizar casa de prostituição como caminho para regulamentação da prostituição no país. A edição de ontem, dia 10/04, da Folha de São Paulo – que informa sobre o preparo, pelo relator-geral da referida comissão, de um anteprojeto para submeter a seus pares – diz que:
Pela legislação em vigor, quem mantém casas de prostituição está sujeito a pena de reclusão de 2 a 5 anos mais multa. Já a prostituição em si não é criminalizada, tampouco é regulamentada no país. Se aprovada no Congresso, a mudança abrirá caminho para a regulamentação da profissão. Isso porque será possível estabelecer vínculos trabalhistas entre o empregado do prostíbulo e o empregador, como já ocorre em países como Alemanha e Holanda. "É uma reivindicação histórica do movimento de prostitutas", afirma Roberto Domingues, presidente da ONG Davida e assessor jurídico da Rede Brasileira de Prostitutas. O empresário Oscar Maroni Filho, 61, que foi condenado em primeira instância por explorar a prostituição em um hotel de São Paulo, defende a reforma. "Já sofri muito com isso. Alguns desses processos que tenho ocorreram porque eu não quis pagar pau para a polícia", afirma ele. Pela proposta, que deve ser enviada para a apreciação do Senado no final de maio, os trabalhadores terão de estar no prostíbulo de forma espontânea e, claro, não poderão ter menos de 18 anos. Se o dono da casa obrigar a pessoa a se prostituir, incluindo casos em que há dívidas envolvidas, estará sujeito a penas de 5 a 9 anos. A proposta de reforma do Código Penal também endurece as penas por exploração sexual de menores de 18 anos. Pelo texto já estabelecido pela comissão, a pena para quem explorar a prostituição de crianças e ou de adolescentes passará de 4 para 10 anos de reclusão. A pena atinge quem praticar o ato e, novidade, o dono do prostíbulo. Hoje, segundo o relator da comissão, praticamente não existe punição para quem faz sexo com uma prostituta adolescente com mais de 14 anos. No que se refere ao sexo com crianças com menos de 14 anos, a atual legislação, alterada nesse aspecto em agosto de 2009, já estabelece penas muitos duras, pois o ato passou a ser considerado estupro de vulnerável. Já com a reforma, se a criança estiver num prostíbulo, o dono também será incriminado.

         Tenho grande dificuldade em perceber magnanimidade na maioria das propostas advindas de qualquer casa dos que deveriam representar os cidadãos brasileiros. Essa proposta me parece preocupada muito mais com os “empresários do sexo” do que propriamente com quem se prostitui. Não é difícil perceber que tal regulamentação, além de livrar tais senhores de determinados desconfortos, provocará significativo aumento na arrecadação de impostos – tão necessários para garantir absurdos salários e inchaços de órgãos públicos para “acomodar” parentes e amigos de nossas autoridades constituídas.



         Se existisse, de fato, alguma preocupação com quem se prostitui à margem da lei, o foco dos legisladores poderia ser a regulamentação do exercício da atividade dessas pessoas como profissionais autônomos e não com a criação de um possível vínculo profissional da pessoa que exerce a prostituição com um “empresário” através de uma carteira de trabalho, o que simplesmente faria aparecer a figura de um “gigolô de carteirinha”, com todas as desvantagens proporcionadas pela gigolotagem.

         Em outro trecho da reportagem, pode-se ler uma esdrúxula justificativa para a proposta onde “a ideia dos especialistas em direito que compõem a comissão é acabar com o que chamam de "cinismo" moral da atual legislação. Na prática, dizem eles, a proibição dos prostíbulos só serve para que policiais corruptos possam extorquir os donos dessas casas”. Essa argumentação poderá servir, dependendo de interesses de outras eventuais comissões, para regularizar o jogo do bicho, o comércio de cocaína, o câmbio clandestino, a venda de órgãos humanos roubados, o tráfico de crianças, etc. Será que no momento em que tudo isso fosse regulamentado, os citados especialistas festejariam, aliviados, o fim do “cinismo moral”?

         Como o Superior Tribunal de Justiça já considerou que crianças com idade inferior a 14 anos podem ser classificadas como prostitutas, conforme decisão recente, os “gigolôs de carteirinha” já devem estar pensando em ofertar mais opções para seus potenciais clientes, sem considerar qualquer hipótese de criminalização de seu “trabalho”.
        
Agora, esquecendo um pouco de Senado e Tribunal, voltamos para a Tertúlia de hoje. Já falei do Apparício Silva Rillo aqui no Blog (“Tertúlia Nativa – O começo da briga”, de 27/10/2010) e é dele o causo escolhido para hoje, que fala do “segredo” de um casamento bem sucedido, conforme transcrevo abaixo.

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UM, DOIS, TRÊS
                                         Apparício Silva Rillo


Dentre outros causos de mesma fonte, este me foi contado pelo Elton Benício Escobar Saldanha, conhecido compositor nativista do Estado, cria do Itaqui. Rose Escobar - um seu parente -, a despeito do nome, de que não gostava, era homem de se medir a palmo largo. Morava no rincão da Pata, na estrada do Silvestre, antes da barca do rio Ibicuí.

Havendo contratado casamento com uma mocita da cidade, visitava-a com alguma regularidade. Os noivos, entretanto, não chegaram a conhecer-se mais de perto. Sempre, na sala, a mãe da noiva e dois irmãos menores. Pelas nove da noite a velha servia um cafezinho, quente como la gran puta, senha para o noivo retirar-se. Rose saía dali pro chinaredo.

Casaram-se. Houve uma bonita festa, reuniu-se a parentada, pela primeira vez o Rose conseguia, pelo menos, segurar a mão da noiva. Após o almoço os noivos retiraram-se para a lua-de-mel, viajando num carro coberto puxado por um cavalo de boa estampa. A primeira noite - como as demais que viriam - seria passada no rancho novo que o Rose mandara construir no rincão da Pata.

Ao cruzar o carro pelo quartel soou um clarim. O cavalo assustou-se, o carro bamboleou, Rose arrancou o revólver da cintura, deu um tiro para cima e murmurou:

– Um...

Mais adiante, na passagem dos trilhos, quando as rodas barulharam sobre os ferros, mais um susto do cavalo, uma sacudida forte do carro. Rose puxou uma vez o revólver. Deu um tiro rente às orelhas do animal e resmungou:

– Dois...

Nesta altura a noiva já se encolhera num dos cantos do banco. O noivo não lhe dera uma palavra, até então. Só quebrara o silêncio com os dois tiros e com os resmungos de um... dois...

Já se avistava o rancho novo. Ao cruzar o carro por uma taipa de açúde que lhe ficava próximo, um bando de gansos atravessou-se por entre as patas do cavalo. Este, alarmado, empinou-se, quase que rebenta as tiradeiras, Rose dominou-o com algum esforço.

Fez a noiva baixar do carro, tirou o revólver do coldre, a moça escutou ele dizer:

– Três! – e , imediatamente, um estampido. Atingido no pé do ouvido o cavalo ficou paleteando. A moça, entre o desespero e a irritação, chamou o Rose de bruto, bandido, onde se viu matar um pobre animal por tão pouca coisa, bem que ela não o conhecia, jamais imaginara que...

          Rose escutou em silêncio. Quando a noiva acabou de desabafar, sacou do revólver e resmungou:

– Um...

A moça arregalou os olhos. E como para bom entendedor meia palavra basta, saiu na sombra do marido no rumo do rancho novo.



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         No fecho desta Tertúlia, deixo a música "As coisas do meu rincão", do saudoso José Mendes, interpretada pelo próprio autor.



         Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 30 de março de 2012

FOGÃO DE LENHA – CHARQUE ACEBOLADO E SENADOR ESCALDADO



Um dos maiores travões aos delitos não é a crueldade das penas, mas a sua infalibilidade (...)
A certeza de um castigo, mesmo moderado, causará sempre impressão mais intensa
 que o temor de outro mais severo, aliado à esperança de impunidade.
(Cesare Beccaria)



Amigas e Amigos,

         O senador Demóstenes Torres, que já atuou como promotor de justiça e secretário de segurança em Goiás, há muitos anos desempenha o - talvez para ele difícil - papel de guardião da ética política (?) e forte opositor do governo. Pois no início deste mês de março, caiu a máscara de bom moço (nem tão moço) com o aparecimento de denúncias sobre o envolvimento do senador com o bicheiro Carlinhos "Cachoeira". 


          E parece que a cachoeira é bem maior do que as evidências surgidas recentemente. Essa águas estão rolando desde, pelo menos, 2006 quando, segundo notícias que tentam abafar, a Polícia Federal já teria colhido evidências de que Demóstenes estaria envolvido com o esquema de jogo de bicho em Goiás, beneficiado com alto faturamento. Dizem, ainda, que quando tomou conhecimento das denúncias, o senador teria "comprado" até delegado da PF. 

           Na página de Notícias do UOL,  em 29/03, foi noticiado que:
O STF (Supremo Tribunal Federal) abriu nesta quinta-feira (29) um inquérito para investigar elos entre o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e o empresário do jogo do bicho conhecido como Carlinhos Cachoeira. O processo foi enviado pela Procuradoria-Geral da República na terça-feira (28) e deixa o parlamentar como suspeito de integrar uma quadrilha que opera jogo ilegal em Goiás. A pedido do ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso, a corte também pediu a quebra do sigilo bancário do parlamentar e uma relação de emendas ao orçamento apresentadas por ele no Senado. [...] A suspeita é de que o senador transmitia informações a Cachoeira em troca de presentes. Ele nega as acusações. 
Além de Demóstenes, há outros possíveis envolvidos no esquema criminoso: os deputados por Goiás Rubens Otoni (PT), Carlos Alberto Leréia (PSDB) e Sandes Júnior (PP). Na terça-feira, em um acontecimento raro, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, recebeu parlamentares da Frente Mista de Combate à Corrupção e sinalizou "indícios robustos" para uma investigação, segundo o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). 
A pressão no DEM só aumenta para que Demóstenes deixe o partido. A situação dele se agravou depois de o Jornal Nacional, da TV Globo, relatou gravações da Polícia Federal em que Cachoeira -- preso em Goiás no início do mês durante a Operação Monte Carlo -- cita o senador seis vezes. Segundo a reportagem, as gravações foram feitas pela PF há um ano. Nas conversas, que duram cerca de cinco minutos, eles falam sobre dinheiro e contas do esquema ilegal de exploração de jogos de azar. [...] 
A assessoria de Demóstenes informou à Agência Brasil que ele já recebeu da Procuradoria-Geral da República os autos contendo dados das investigações que o envolvem. Se o DEM decidir abrir um processo contra o senador, será designado um relator para o caso e definido prazo de menos de um mês para a defesa. Há informações, veiculadas em vários veículos da imprensa, de que Demóstenes mantinha ligações com Carlinhos Cachoeira, preso por envolvimento com máquinas de caça-níqueis em Goiás. A suspeita é que o senador transmitia informações para o empresário, mantinha negócios com ele e recebia presentes. O parlamentar confirmou que ganhou de casamento um fogão e uma geladeira importados, no valor de R$ 30 mil, de Cachoeira.


        Não resta dúvida de que o currículo do senador é bem "marcante" para um paladino da moral e dos bons costumes, conforme ele mesmo dá ideia em seu blog de propaganda pessoal. 

         O portal Folha.com, hoje enriquece um pouco mais a folha corrida de Demóstenes, informando que:
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) utilizou o seu mandato para beneficiar os negócios do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, revelam gravações feitas pela Polícia Federal. De acordo com as escutas, divulgadas nesta sexta-feira (30) pelo jornal "O Globo", o senador acertou com o empresário ajuda em processo judicial e em projeto de legalização de jogos de azar em tramitação no Congresso. O empresário foi preso pela Polícia Federal no dia 29 de fevereiro, durante a Operação Monte Carlo. Nas gravações divulgadas pelo jornal, Demóstenes também fala com Cachoeira de negócios com a Infraero na época que ele era relator da CPI do Apagão Aéreo. Os grampos, segundo o jornal "O Globo", foram gravados durante a Operação Vegas. Em um diálogo gravado em 22 de abril de 2009, o empresário pede ao senador que faça um levantamento sobre o projeto de lei 7.228, que trata de jogos de azar. [...] Ele também pede a Demóstenes que fale com o então presidente da Câmara dos Deputados e agora vice-presidente, Michel Temer. O senador diz que vai tentar fazer com que o plenário da Câmara vote a proposta, o que não aconteceu. Em outra conversa, Demóstenes afirma que o texto do projeto, na verdade, prejudica Cachoeira. [...] Reportagem de "O Globo", publicada semana passada, com gravações da mesma operação já haviam mostrado que Demóstenes pediu dinheiro a Cachoeira para pagar despesas com táxi-aéreo, no valor de R$ 3.000. Na conversa, ao dizer que iria pagar, o empresário aproveita para pedir ao senador que o ajude em um processo judicial. [...] Outra conversa, gravada em 4 de abril de 2009, mostra também que os dois poderiam estar de olho em um milionário "negócio" em andamento da Infraero.[...] Investigações da PF também apontam que Cachoeira repassou informações sobre apurações contra o seu grupo a Demóstenes. A Folha obteve 12 mil páginas do inquérito da PF que culminou na Operação Monte Carlo. Ela investigou Cachoeira e mais 80 pessoas, todos denunciados neste mês pelo Ministério de Público Federal sob acusação de explorar máquinas caça-níquel e corromper agentes públicos para manter o negócio. No inquérito a que a Folha teve acesso, o nome de Demóstenes aparece, por exemplo, num relatório da PF sobre um diálogo gravado com autorização judicial no dia 13 de março do ano passado, às 15h37. Nele, conversam Carlinhos Cachoeira e o sargento aposentado da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá --apontado pela Procuradoria como o principal araponga da quadrilha. Ambos estão presos. [...] Questionado sobre as gravações da Polícia Federal na Operação Monte Carlo, o advogado de Demóstenes Torres, Antonio Carlos de Almeida Castro, afirmou que elas não têm valor jurídico e são totalmente nulas. Isso porque o senador só poderia ser investigado com autorização do STF. O advogado afirmou não ter tido acesso à íntegra de todos os diálogos interceptados pela PF, mas critica a atuação da polícia.

         Considerando apenas os pequenos resumos publicados, dá para imaginar que a "ficha" do senador está "mais suja do que pau de galinheiro". Pois com tudo isso, ainda aparece um advogado para dizer que as provas não têm valor jurídico e que são totalmente nulas porque, provavelmente, um juiz autorizou as escutas e somente o Supremo teria essa prerrogativa. 


        A falta de bom senso leva, muito seguidamente, a declarações estapafúrdias. Se quem estava sendo investigado era um bicheiro - claro que cheio de influente "amiguinhos" - para que alguém iria ao Supremo? Quem imaginaria que o probo senador apareceria em todas as gravações, na maior intimidade? 

         Como acho que as perguntas acima são de difícil resposta, acredito que o escárnio sobre valor jurídico e provas nulas em nada amenizam os embutes promovidos pelo senador. Mas parece que teríamos uma situação em que o advogado começa a preparar os ingredientes para mais uma pizza na Esplanada dos Ministérios.

         Deixando a pizza para as "comissões" das casas representativas do povo brasileiro, a receita deste Fogão de Lenha é “Charque Acebolado”, que pode ser servido como entrada (acompanhado de um bom pão francês) ou como prato principal (com arroz branco e uma salada).



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CHARQUE ACEBOLADO

Ingredientes:

500 g de charque, cortado em cubos grandes
2 cebolas, cortadas ao meio e fatiadas
2 ou 3 colheres de azeite de oliva
1 colher de sopa de molho de soja (ou aceto balsâmico)
100  gramas de bacon picado
Pimenta-do-reino a gosto
Sal (se necessário) a gosto
Cheiro verde picado


Modo de preparar:

Lavar bem os pedaços de charque.

Colocar os pedaços em uma panela com água.

Deixe ferver por aproximadamente 10 minutos.

Escorra a água.

Lave, novamente, os pedaços de charque p/retirar o sal.

Coloque água novamente na panela e cozinhe o charque.

Quando estiver macio, retire os pedaços da água e deixe esfriar.

Desfie os pedaços, grosseiramente.

Colocar o bacon em uma frigideira grande com o azeite.

Quando o bacon estiver dourado, acrescente a cebola.

Frite, ligeiramente, a cebola.

Junte o charque desfiado e refogue um pouco mais.

Se necessário, acerte o sal.

Tempere com a pimenta-do-reino.

Acrescente o molho ou o aceto e misture bem.

Salpicar com cheiro verde e servir imediatamente.


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         A música para acompanhar a receita acima é "Pampa na Garupa", de Iedo Silva, com Iedo Silva e o grupo "Os Farrapos". 


 

         Um abraço e um abençoado fim de semana!

quinta-feira, 29 de março de 2012

GALERIA SERTANEJA – MEMÓRIA CADA VEZ MAIS CURTA


'Fui eu que o fiz', diz a minha memória.
'Não posso ter feito isso', - diz o meu orgulho e mantém-se inflexível.
Por fim - é a memória que cede.
(Friedrich Wilhelm Nietzsche)




Amigas e Amigos,

Em tempos de eleições é comum ouvir que o brasileiro tem memória curta. Normalmente, a afirmativa é associada a quantidade de candidatos (às vezes, eleitos) com passado ligado a corrupção. Por isso, é fácil imaginar que essa “memória” teria uma vida útil de pouco mais do que um ano, em boa parte das situações.  

         Parece, entretanto, que esse tempo está diminuindo – e de forma extremamente acelerada – migrando para algo em torno de pouco mais do que 20 dias. O fato que pode comprovar esse novo tempo para lembranças recentes está ligado a pendenga entre o governo brasileiro e a Fifa, por conta das declarações do secretário-geral da entidade (Jérôme Valcke), que sugeriu impulso enérgico com o pé na região glútea de “altas figuras” do governo e de seus comitês. 


 Fonte: http://www.matutando.com   
    
       O site “Portal da Copa” (http://copa2014.gov.br), no dia 3 de março, informava que o Ministro Aldo Rebelo teria rebatido a crítica do dia anterior feita por Valcke e vetado o secretário-geral da FIFA como interlocutor da Copa. O site disse que:
Em entrevista coletiva concedida na manhã deste sábado (03.03), em São Paulo, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, anunciou que o governo federal vai comunicar oficialmente à FIFA que a entidade terá de eleger um novo interlocutor para tratar da organização da Copa do Mundo com o Brasil. [...]Na opinião do ministro, o secretário-geral da entidade, ao tecer críticas à organização do Mundial no país, fez uso de expressões consideradas "inaceitáveis", "descuidadas" e que "não correspondem aos fatos". [...]"O governo não pode ter mais o secretário-geral como interlocutor. A interlocução não pode ser através de quem emite declarações descuidadas, intempestivas, declarações dessa natureza. Vou comunicar oficialmente ao presidente da FIFA, Joseph Blatter, essa decisão. Precisamos de um interlocutor que tenha condições de entender o nível das responsabilidades e entendimentos necessários para esse tipo de relação. O governo tem se esforçado e continuará apoiando do jeito que é possível a realização da Copa do Mundo. Mas, no plano de todo o governo, o secretário-geral não pode ser mais o nosso interlocutor", afirmou Rebelo.

         Já no dia 5 deste mês, o ministro do Esporte cumpria sua promessa e encaminhava para a Fifa uma carta vetando a presença de Valcke como negociador (foi noticiado que o endereço do encaminhamento estava errado e o comunicado teria parado na sede do Comitê Olímpico Internacional, em Lausanne, ao invés de ir para a Fifa, em Zurique). As duas cidades ficam na Suiça, mas uma entidade não tem nada a ver com a outra. Na carta assinada pelo ministro, constava que “o Governo Brasileiro não pode mais aceitar, nas suas tratativas com a Fifa, o Senhor Jérôme Valcke como interlocutor durante a preparação desse mundial”.

         No próprio dia 5, Valcke encaminha um pedido de desculpas pelas declarações, dizendo que teria sido mal traduzido, pois só queria falar que havia necessidade de acelerar o ritmo das obras e da aprovação dos compromissos. Em minha opinião, as traduções estão bem feitas e como o secretário-geral não retirou o que disse, acredito que os proprietários dos traseiros governamentais devem continuar preocupados.

         Decorridos menos de 30 dias desde a indignação do ministro e de diversos integrantes do governo, parece que tudo foi esquecido e o que se viu hoje foi que Valcke não foi – e nem será – afastado da interlocução como negociador com o governo brasileiro. No portal “Terra”, hoje tem matéria dizendo que:
Em Zurique, a Fifa deixou claro mais uma vez que não tem a menor intenção de procurar um novo interlocutor para lidar com o gabinete da presidente Dilma Rousseff. A mensagem foi entendida e repercutida pelos representantes do futebol brasileiro que estão na Suíça participando das reuniões na sede da entidade máxima do futebol. [...] Jérôme Valcke participou da reunião nesta quarta-feira na sede da Fifa para discutir o andamento das obras para o Mundial de 2014. No encontro, o Brasil voltou a ser criticado pelos atrasos constantes. A situação da Arena de Recife foi considerada a mais preocupante e a cidade corre o risco de ser descartada da Copa das Confederações em 2013.

         Pelo exposto acima, pode-se constatar que nossa brasileira memória está com prazo de validade inferior a um mês. Em meio a essa baixaria propiciada por frases ofensivas sem propósitos, bravatas desproporcionais e sem grandes convicções, desculpas esfarrapadas, documentos de "fachada" lembrei de uma música, de Castilhos e Moacir, cujo título é "Que homens são esses". Inicialmente, fica a letra publicada abaixo.

  
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QUE HOMENS SÃO ESSES
                                           Francisco Castilhos e Carlos Moacir

Que homens são esses
Que fogem a luta
Será que não sabem as glórias do pago
Que homens são esses que nada respondem,
Que calam verdades, que reprimem afagos
Que homens são esses que trazem nas mãos o freio,
O cabresto, a rédea e o buçal
Que homens são esses que tem o dever de fazer o bem,
Mas só fazem o mal

Eu quero ser gente igual aos avós
Eu quero ser gente igual aos meus pais
Eu quero ser homem sem mágoas no peito
Eu quero respeito e direitos iguais
Eu quero este pampa semeando bondade
Eu quero sonhar com homens irmãos
Eu quero meu filho sem ódio, nem guerra
Eu quero esta terra ao alcance das mãos

Que sejam mais justos os homens de agora
Que cantem cantigas, antigas e puras
Relembrem figuras sem nada temer

Procurem um mundo de paz na planura
E encontrem na luta, na força e na raça
Um novo caminho no alvorecer

Desperta meu povo do ventre de outrora
Onde marcas presentes não são cicatrizes
Desperta meu povo, liberta teu grito
Num brado mais forte que as próprias raizes

Eu quero ser gente igual aos avós
Eu quero ser gente igual aos meus pais
Eu quero ser homem sem mágoas no peito
Eu quero respeito e direitos iguais
Eu quero este pampa semeando bondade
Eu quero sonhar com homens irmãos
Eu quero meu filho sem ódio nem guerra
Eu quero esta terra ao alcance das mãos.



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         Nessa Galeria, a interpretação do saudoso César Passarinho para "Que homens são esses".

 


         Um grande abraço e até a próxima!



TERTÚLIA NATIVA – CULTURA BRASILEIRA: FORTALECIDA, APESAR DA SAUDADE

O último refúgio do oprimido é a ironia,
e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapa a ela.
O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura.
A mordaça aumenta a mordacidade.
(Millôr Fernandes)




Amigas e Amigos,

A cultura brasileira é impactada pelas perdas de Chico Anysio e João Mineiro (para os quais já dediquei postagens aqui no blog), além de Ademilde Fonseca – a Rainha do Choro – e Millôr Fernandes – destacada figura da imprensa brasileira do século XX. Ademilde e Millôr morreram ontem, ambos no Rio de Janeiro.

         Neste mesmo momento em que ocorrem essas perdas, nosso país surpreende o mundo precisamente no contexto cultural. Segundo o portal “BBC Brasil” (http://www.bbc.co.uk/portuguese), três das dez exposições de arte de 2011 no mundo – considerando maior média diária de público – foram realizadas no Brasil, considerando um trabalho publicado pela revista americana The Art Newspaper.


Litografia “Répteis” (1943), de Escher, que integrou a mostra no CCBB.


         A matéria, do dia 23 último, no referido portal informa que:
A exposição O Mundo Mágico de Escher, que ficou de janeiro a março no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, foi a de maior média diária de público no mundo em 2011, com 9.677 visitantes ao dia. As obras do artista holandês M.C. Escher atraíram um total de 573.691 pessoas. O centro carioca teve outras duas exposições entre as dez mais do ano – Oneness, da artista japonesa Mariko Mori, sétima com a maior média de público, com 6.991 visitantes diários entre abril e julho, e Eu em Tu, da americana Laurie Anderson, que atraiu uma média de 6.934 visitantes diários, na nona posição da lista. [...] A Art Newspaper destaca a surpresa de ter uma exposição no Brasil como a de maior média de público no ano. "Em vez de uma instituição americana, europeia ou japonesa, uma brasileira, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, aparece na frente", observa a revista. "A antiga sede de banco no centro da cidade abrigou nada menos que três exposições entre as dez mais." Para a publicação, "o apetite brasileiro pela arte contemporânea é notável". A revista cita como um exemplo dessa fome de arte pelos brasileiros o fato de que o Instituto Inhotim, fundado pelo bilionário Bernardo Paz em um parque remoto no interior de Minas Gerais, atraiu um total de 770 mil pessoas ao longo do ano. Na lista de museus mais visitados também publicada pela revista, o Inhotim aparece na 70ª posição. Entre os cem museus mais visitados do mundo relacionados pela publicação, aparecem apenas mais três instituições: as sedes do CCBB no Rio (17º lugar, com 2,3 milhões de visitantes), em Brasília (45º, com 1,2 milhão) e em São Paulo (50º, com 1,1 milhão).
        Acredito que existam brasileiros, bem melhores esclarecidos culturalmente do que eu, que não se tenham surpreendido pela matéria da “BBC Brasil”. Mas, confesso que minha surpresa foi semelhante a da revista americana – semelhante porque a diferença está, talvez, no orgulho que senti por fazer parte dessa população e por ser funcionário deste Banco.
        
Continuando esta Tertúlia, uma pequena homenagem a este cartunista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor carioca, que nos deixou neste dia 27, aos 88 anos. Millôr Fernandes (que foi registrado como Milton Viola Fernandes), um dos fundadores do Pasquim, marcou época nas publicações O Cruzeiro, Veja e Jornal do Brasil, entre outras. Em 1964, Millôr publicou Fábulas Fabulosas, de onde foi retirada a história abaixo para enriquecer esta publicação.

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O REI DOS ANIMAIS
                             Millôr Fernandes


Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".

Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".

Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz de estentor -eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.

Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".

MORAL: CADA UM TIRA DOS ACONTECIMENTOS A CONCLUSÃO QUE BEM ENTENDE.

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         Na parte musical, abro espaço neste Blog para outra homenagem: agora para a Rainha do Choro. Ademilde Fonseca, esta potiguar que acabara de completar 91 anos neste março, também nos deixou dia 27. As interpretações de Ademilde a consagraram como a maior intérprete do choro. Para fechar a Tertúlia, fica o baião "Delicado", de Waldir Azevedo e Ari Vieira, gravado por Ademilde Fonseca em 1951.

 

         Um grande abraço  –  com saudade de Ademilde e de Millôr  –  e até a próxima!