sábado, 21 de abril de 2012

GALERIA SERTANEJA - DA TERRA NASCERAM GRITOS



O mundo tornou-se perigoso,
porque os homens aprenderam a dominar a natureza
antes de se dominarem a si mesmos.
(Albert Schweitzer)



Amigas e Amigos,

A esperança nessa longa novela associada ao Código Florestal é de que alguns dos envolvidos pensem efetivamente no meio ambiente acima de quaisquer outros interesses, mesmo entendendo que apoios para eleições e a atração por cargos públicos possam influenciar alguns dos responsáveis pelo assunto.

No portal Terra, ontem, podia-se ler que o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto, disse que relatório do Código Florestal é “retrocesso”, o que poderia levar seu partido a obstrui a votação do relatório substitutivo ao novo Código Florestal, marcado para a próxima terça-feira. A matéria do referido portal informa que Tatto teria dito que:
"O PT não vai aceitar. Vamos manter a posição de votar o projeto do Senado, que permite a recuperação de áreas degradadas e tem política para garantir a produção agrícola", observou. Segundo o deputado, outra possibilidade seria votar separadamente todas as modificações feitas por Piau em relação ao texto que veio do Senado e garantir, dessa forma, a votação da proposta como havia sido acordada pelo governo e pelos partidos da base aliada. O PT deverá se reunir na própria terça-feira para decidir como agir. Tatto disse que o partido poderá votar contrariamente ao texto, cabendo à presidente Dilma Rousseff a decisão de vetar ou não pontos da proposta. Apresentado na quinta-feira, o substitutivo de Piau elimina a definição das faixas de áreas de preservação permanente (APP) com atividades produtivas a serem recuperadas para todos os tamanhos de rios. Tanto o texto aprovado na Câmara quanto no Senado estipulam que, para cursos d'água com até 10 m de largura, os produtores rurais devem recompor 15 m de vegetação nativa. No total, Piau fez 21 alterações no texto vindo do Senado. Como já havia anunciado anteriormente, o relator também suprimiu do projeto a definição de APPs em áreas urbanas, incluídas pelo Senado. Pelo texto aprovado pelos senadores, as áreas de expansão urbana deveriam prever 20 m² de vegetação por habitante.

         O portal Terra já havia informado no dia 19 de abril sobre a retirada de parte polêmica do texto do Código Florestal, dizendo que:
Em seu parecer divulgado nesta quinta-feira, o relator do Código Florestal, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), decidiu deixar a polêmica regularização de ocupações em áreas de preservação ambiental em margens de rios para posterior regulamentação dos Executivos federal e estaduais. Ao falar sobre o relatório, o deputado reconheceu que não conta com o apoio do governo, que defende o texto aprovado no ano passado no Senado. A questão mais controversa do código trata da chamada consolidação de Área de Preservação Permanente (APP) - regiões de proteção ambiental ao longo de cursos d'água, encostas e topos de morro. Ruralistas defendem a regularização de áreas desmatadas antes de 2008, enquanto ambientalistas não admitem flexibilização nas regras de proteção. As divergências em torno desse ponto resultaram na retirada de todas as referências à consolidação de APPs em margens de rios do texto. Fica para o Executivo a tarefa de definir as regras de regularização nessas áreas, por meio de um Programa de Regularização Ambiental (PRA), cujas diretrizes gerais serão determinadas pelo governo federal, enquanto as especificidades ficarão a cargo dos Executivos locais. [...] O relator ressaltou que a ausência de exigências nas margens de cursos d'água refere-se apenas às propriedades que precisam ser regularizadas. Para as propriedades consideradas regulares, no entanto, fica valendo a exigência da APP, que varia de 30 m a 500 m, dependendo da largura do rio. Piau também rejeitou o primeiro artigo do projeto, redigido por senadores, que define princípios da nova lei mais voltados à questão ambiental, o que provocou o temor de parlamentares ligados ao agronegócio de que poderia embasar interpretações jurídicas restritas. Para o relator, a manutenção do artigo do Senado poderia causar "uma insegurança jurídica, uma interpretação para o futuro que não é conveniente". O Planalto defendia que o texto produzido no Senado passasse pela Câmara sem ser alterado. Segundo Piau, também não há acordo entre os deputados, o que irá causar uma "batalha" no plenário. [...] A atualização das regras ambientais está em discussão há mais de uma década. Em maio do ano passado, a Câmara aprovou o projeto do novo Código Ambiental e o enviou ao Senado. Em dezembro, os senadores aprovaram um novo texto, após intensas negociações com o governo. Resta aos deputados chancelar ou negar as modificações produzidas pelos senadores, antes que a matéria siga à sanção presidencial. A presidente Dilma Rousseff já afirmou que vetará qualquer ponto que considerar prejudicial ao ambiente.

         Em meio a toda confusão, fica a expectativa de que a presidente considere o meio ambiente acima de qualquer conchavo ou de interesses pessoais de alguns políticos. O que é mais difícil de entender é como um assunto tão importante para o Brasil e para os brasileiros circula pelos corredores do poder há mais de 10 anos.



          Para completar essa reflexão ecológica, a música escolhida para esta Galeria Sertaneja é “Da Terra Nasceram Gritos”, de Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, cuja letra está publicada logo abaixo.

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DA TERRA NASCERAM GRITOS
                                       Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun

Mataram meus infinitos
E me expulsaram dos campos;
Da terra nasceram gritos,
Dos gritos brotaram cantos!


E me fiz canto de tropeiros e ervateiros
Rasgando sulcos, com arado e saraquá;
Nas alpargatas dos "quileiros" e "chibeiros",
Andei as léguas de Corrientes e Aceguá!


Meu canto é rio, meu canto é sol, meu canto é vento.
Eu tenho berço, eu tenho pátria, eu tenho glória.
Eu só não tenho terra própria porque a história
Que eu escrevi, me deserdou no testamento!


Entretanto – bem ou mal – não  me emociono,
Com os que combatem as verdades do meu canto;
Sem ter direito de comer nem o que planto,
Só não entendo é tanta terra e pouco dono!


Mas mesmo assim, tenho pra dar um outro tanto,
Se precisarem do meu sangue noutra guerra;
Mesmo sem terra, hei de voltar grito de terra,
Pelo milagre das espigas do meu canto!



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A interpretação de hoje para “Da Terra Nasceram Gritos” é de Cenair Maicá.

 



Um grande abraço e até um próximo encontro!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA - DOM LOBO E O DIPLOMATA


O que o povo chama vício é eterno;
o que chama virtude, é apenas moda.
(George Bernard Shaw)




Amigas e Amigos,

O ministro das Relações Exteriores, Patriota, disse ontem que o Brasil pedirá esclarecimentos à Embaixada do Irã sobre a suspeita do abuso de crianças realizado por um diplomata daquele país. Com essa “ameaça” toda, a Embaixada do Irã demonstra estar “preocupadíssima” com a anunciada interpelação, pois, segundo já está sendo falado, o diplomata suspeito de pedofilia (ou seria o pedófilo suspeito de diplomacia) já nem está mais em território brasileiro.

         Além disso, no melhor estilo corporativista e inspirado em políticos brasileiros acusados de corrupção, a Embaixada Islâmica referida já disse que tudo é um mal entendido e que a culpa é da Imprensa. E enviou uma declaração à Imprensa com seguinte texto:
Em virtude da difusão de algumas inverdades levantadas sobre atitude de um diplomata da República Islâmica do Irã relacionada às algumas cidadãs brasileiras e em seguida polemizá-la com um tratamento intencional por parte de alguns veículos de comunicação, são necessários os seguintes esclarecimentos para a opinião publica brasileira: Uma das causas mais importantes é a falta de conhecimentos sobre as virtudes e as diferenças entre as culturas e o mal entendimento e as suas consequências decorrentes que isso pode causar. Sendo nas demais sociedades estas virtudes e valores relativos, podem provocar dificuldades e uma séria de incompreensão para as pessoas que estão vivendo num ambiente alienígena as suas características culturais. Paralelamente a este tópico, o papel e uma reação midiática não propicia e provocante, pode ajudar ainda a criação do cinismo na sociedade brasileira que possui identidades culturais diferentes, introduzindo uma polêmica gratuita, sobretudo quanto fosse tendencioso politicamente. Estimular a sensação pública, por sua vez irá desviar a atenção para que possa procurar a veracidade dos fatos e causa uma desinformação ainda maior. Essa Missão Diplomática declara que a acusação levantada contra o diplomata iraniano é exclusivamente um mal entendimento decorrente das diferenças nos comportamentos culturais. Nesse sentido também expressamos energicamente o nosso protesto e indignação relativo ao tratamento e na maneira de como a mídia geralmente tendenciosa sobre as coisas relativas a alguns países entre eles o Irã, tem encarado com a cobertura dessa noticia, afirmando ainda que a transmissão do assunto, se demonstra nitidamente um comportamento intencional, propositado e imparcial.

         Penso que se um brasileiro em território iraniano falasse o monte de asneira contra qualquer classe daquele país, como as impropriedades escritas pela missão diplomática conforme acima, o sujeito já seria uma peneira ou teria explodido na forma de bomba humana. Mas por aqui, tudo é permitido, até dizer que não entender um tarado que “bolina” crianças (o que é, segundo eles, uma “virtude”) só pode ser desconhecimento de diferenças de identidades culturais. Desconhecimento, mesmo, é o que a nota, se de fato foi escrita como divulgada, demonstra em relação à língua portuguesa.

         A notícia, que a referida missão diplomática classificou como tendenciosa, foi – segundo o portal G1 – sobre o comportamento de um diplomata iraniano no último sábado. Disse o portal que:
Um diplomata é suspeito de ter abusado sexualmente de crianças e adolescentes no Distrito Federal. Ele teria abordado meninas de 9 a 14 anos em um clube na Asa Sul. O conselheiro de missão diplomática do Irã, em Brasília, tem 51 anos e vive no Brasil desde fevereiro de 2010. A Embaixada do Irã não quis se pronunciar sobre o caso.Testemunhas relataram que o suspeito nadava em uma piscina do clube, na tarde do último sábado (14), quando teria acariciado as partes íntimas das vítimas. Cerca de dez meninas estavam na piscina quando foram abordadas pelo diplomata. As crianças ficaram assustadas e denunciaram o abuso para o salva-vidas, em seguida para os familiares. O pai de uma das meninas, de 11 anos, contou que a filha ficou desorientada, sem saber o que fazer. “Ele mergulhava e passava a mão no peito de uma, nas nádegas de outra, na genitália. E ai elas saíram pra chamar a gente”, disse o pai de uma das vítimas, que não quis se identificar. Um outro pai, de uma adolescente de 14 anos, afirma que o homem só parou de mexer com as meninas depois que a filha começou a gritar. “Estou revoltado. Como um homem mexe com meninas de 9 a 14 anos, que estão se formando, que não tem malícia”, protestou um pai, que também pediu para não ser identificado. O caso foi parar na delegacia. Os pais das crianças registraram um boletim de ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia, mas o conselheiro da embaixada do Irã não pôde ser ouvido e acabou liberado. O delegado Sérgio Ricardo Mattos explicou que o suspeito tem imunidade diplomática.

         Espero que, nesse caso, a justiça não se deite sobre sua injustificada morosidade e busque, com a celeridade exigida, uma definição pela gravidade da situação. Em se comprovando os fatos relatados pelas crianças e por seus pais, além do empolgado diplomata, todos os seus “defensores” que não pensaram muito para publicar a indignada nota “elucidativa” deveriam ser banidos – definitivamente – do país, pois canalhas estão na lista de coisas que não necessitamos “importar”. E o que ministro Patriota continue demonstrando sua preocupação com esse desagradável incidente.



         No folclore brasileiro, também encontramos figuras que se julgam capazes de ignorar os costumes dos lugares em que vivem, pensando ser superiores a tudo e a todos. É o caso de Dom Lobo, personagem de um conto recolhido pelo saudoso folclorista, historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (Natal-RN, 1898 – Natal-RN, 1986). Câmara Cascudo, no livro “Contos Tradicionais do Brasil” (de 1946), diz que esta história lhe foi contada por uma empregada natural de Oeiras-PI,  da qual ele só lembrava o nome – Antônia. Transcrevo abaixo o conto retirado das páginas 306-307, da 18ª edição (Ediouro, 2003).

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AS PERGUNTAS DE DOM LOBO

         Um moço trabalhador e direito morava com sua mãe, labutando pela vida com muita dificuldade. Uma feita disse:

– Minha mãe! Não podemos passar o resto da vida nesta miséria, quase sem ter o que comer. Fique minha mãe com o roçado, as cabeças de ovelhas, e bote sua benção que vou pelo mundo ver o que posso fazer.

A mãe abençoou-o e o rapaz foi-se embora  pelo mundo. Onde chegava, trabalhava uma semana e ia para diante. Tempos depois chegou a um reinado bonito mas sem gente. As ruas limpas de povo, as casas fechadas, tudo calado, sem um choro de menino ou voz de homem, parecia um descampado. O rapaz procurou a casinha de um velho e pediu agasalho. O velho recebeu-o muito bem e deu de cear. Quando estavam comendo o rapaz perguntou por que o reinado era assim triste. O velho explicou que, por mal dos pecados do povo, aparecera ali um homem encantado, de nome Dom Lobo, dono de um palácio, que botara para obrigação comer o coração de uma pessoa todo dia. Pega a criatura e faz três perguntas. Se a criatura responder, pode fazer outras três a Dom Lobo, mas não nasceu ainda esse cristão para adivinhar as perguntas de Dom Lobo. Não responde e Dom Lobo mata e come o coração dos pobres. Por isso é que toda a gente vivia escondida e tremendo de medo.

O rapaz dormiu e na manhã do outro dia saiu para a rua perguntando onde era o palácio de Dom Lobo. O povo ficava espantado com o atrevimento dele mas ensinava. O moço chegou perto de umas pedras grandes e lá em cima estava o palácio que era um monarca de grande, por um portão de ferro. O rapaz tocou-se para o palácio com coragem. Chegou, bateu, e as portas se abriram por si mesmo. O moço enfiou-se por dentro, sobe aqui, desce ali, até que chegou num salão que era uma beleza. Aí apareceu Dom Lobo, um homem alto, forte como um touro, todo cabeludo, com olhos de gato e uns dentes de onça-tigre. Quando viu o rapaz deu uma gargalhada de estrondar o mundo. Falou, com voz grossa de bicho encantado, mandando o rapaz sentar. Depois perguntou:

– Que é que tanto mais velho mais forte fica?

– É o vinho, respondeu o moço.

– Que é que tanto se tira mais fica?

– Água do mar!

– Qual é o lugar onde todos vão e ninguém quer ir?

– O cemitério!

– Acertou, cabra danado! Faça as três perguntas que quiser!

– Quem é que nasceu de uma virgem, batizou-se num rio e morreu numa cruz?

O homão rangeu os dentes como um desesperado porque não podia dizer o santo nome de Jesus Cristo. Deu um estouro que estremeceu tudo e subiu aquela bola de fumaça cobrindo o mundo. Quando clareou, o rapaz estava em cima das pedras. O palácio e Dom Lobo tinham se sumido. O povo estava todo reunido batendo palmas e levou o moço em charola para o rei. Deram uma casa com todos os preparos, fazenda de gado, muito dinheiro. O rapaz mandou uma carrugem buscar sua mãe e viveu muito bem e satisfeito.

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A música escolhida para hoje é de Dalvan, interpretada pela dupla Duduca & Dalvan, com o título "A pequitita", para refletirmos sobre quem este tipo de diplomata molesta.


 


Um grande abraço e até um próximo encontro!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ABRINDO A PORTEIRA – NO DELTA DO PAC TEM CACHOEIRA


 
Todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa.
(Francis Bacon)



Amigas e Amigos,

         Os vários braços do leito de um rio em sua foz formam o que se chama de delta (pelo formato semelhante à letra grega que tem a forma de um triângulo), comum em rios de planícies, onde o acúmulo de areia é mais comum.
        
         Contrariando a definição geográfica, o delta do PAC parece não percorrer os caminhos tranqüilos de uma planície ao permitir aparecer vestígios de cachoeira.

Fonte: Portal AZ; Charge de Izânio

         Segundo o Jornal do Brasil, em sua edição deste domingo, a Delta Construções, que abriu seus cofres em R$ 8,5 milhões para o grupo de Carlinhos Cachoeira – tido como uma espécie de “sócio oculto” da empresa – que, por meio de uma empresa “fantasma”, chamada Alberto e Pantoja Construções e Transportes Ltda, de Brasília, teria encaminhado esse dinheiro diretamente para campanhas eleitorais – caixa dois – segundo a Polícia Federal.

         A empresa Delta Construções, após os “mimos” aos candidatos, conforme matéria do JB:
viu seus negócios florescerem no Rio de Janeiro, onde acumula R$ 1,5 bilhão em obras desde o começo dos anos 2000. O rápido crescimento da empresa no estado gerou suspeitas, sobretudo após a revelação dos laços estreitos com o governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ). Em 2011, a queda de um helicóptero em Trancoso (BA) explicitou a relação íntima do político com o dono da Delta, Fernando Cavendish. No entanto, a força da empreiteira não está restrita ao Rio. Graças ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Delta garimpou um aumento de 2.000%, saindo dos R$ 35 milhões em 2003 para R$ 862 milhões em 2011.

         Pelo menos para a Delta, o programa governamental atinge plenamente seu objetivo de acelerador do crescimento (e que aceleração), fato que poderia levar a uma associação bem orquestrada da Delta com o PAC. E como dizem que o empresário presidiário Carlinhos Cachoeira é uma eminência parda da Delta, poderíamos considerar que, de fato, o Delta do PAC tem Cachoeira.

         Até que tudo comece a ser elucidado, receberemos muitas notícias sobre as pizzas recebidas nas casas do legislativo. E se você acha – como eu – que nada vai acontecer, parece que não estamos sós, pois o senador Pedro Simon, ao se dizer otimista com as averiguações das denúncias contra seu par Demóstenes Torres, afirmou que: “Não esperem nada do Congresso”. Com isso, podemos dormir tranqüilos...

         A música que lembrei para esta Tertúlia é de Jaime Sandoval e José Homero, gravada em 1981 por Carlos Cezar & Cristiano, com o título "Cachoeira".



Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

FOGÃO DE LENHA – TRACALHICE, COSTELA E PIRÃO


Nenhum mentiroso tem uma memória suficientemente boa
para ser um mentiroso de êxito.
(Abraham Lincoln)




Amigas e Amigos,

  
Não tomados os devidos cuidados com conduta e imagem de seus integrantes, poderá o principal partido brasileiro de situação deixar de ser lembrado como dos trabalhadores para ser associado à tracalhice. A bravata mais recente foi o jeitinho que tentaram os seus representantes na hora de instalar a CPI do DEM(óstenes), preocupados em não retornar ao mensalão – que as principais cortes jurídicas buscam tornar caduco por decurso de prazo.

Não fosse uma CPI – cujos finais nem sempre conseguem ser superados pelas conclusões das telenovelas brasileiras – e as eminências pardas – que fizeram parte do jogo de cena onde o afastamento simulado de partido não impediu que essas “autoridades” continuassem como manda-chuvas – estariam a demonstrar alguma preocupação.

Juntem-se ao jeitinho da CPI, as entrevistas do governador do DF sobre a completa falta de conexão entre ele e o contraventor Cachoeira. Claro que essa informação foi acompanhada da fanfarrice sobre o escândalo que, segundo o governador Agnelo, “é do DEM e do PSDB. Não é nem de Brasília, nem do PT. É especificamente de Goiás. Há uma tentativa, que eu chamaria desesperada, porque pega fatos soltos, frágeis, contraditórios e inconsistentes. Tentam fazer uma ligação com o meu governo. Mas o Governo do DF não tem ninguém indicado por esse grupo”.

O governador, que nunca tinha encontrado o bicheiro, lembrou de um encontro lá pelos idos de 2009, ou 2010. O governo que não tem nada a ver com a crise já perdeu dois representantes. E se descobrirem que é o “zero-um” ou o “magrão”... Independente disso, seria interessante ver esse governo trabalhar um pouco, pois consegue boa parte da dinheirama que é retirada de forma impositiva de seus cidadãos sem que apareça qualquer investimento (ou o campo de futebol vai solucionar todos os problemas).

Os cidadãos da capital federal dispõem hoje de uma polícia fazendo greve branca (segundo algumas informações, incentivada por representante do legislativo distrital), de hospitais públicos matando até crianças e de uma rede de educação completamente abandonada, mesmo com uma longa de greve de professores cujos direitos foram execrados pelo patrão.



Na proximidade de mais um fim-de-semana, onde não só em Brasília conviveremos com todos esses problemas, restará testarmos uma receita que nos faça, pelo menos na hora da refeição, esquecer de poderes e lembrar só prazeres. A sugestão de hoje é uma costela com batatas e agrião, acompanhada de pirão que pode ser servida, ainda, com arroz branco e um bom pão francês.


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COSTELA COM PIRÃO

Ingredientes:
1 e ½ kg de costela bovina (cortada em pedaços pequenos)
4 colher(sopa) de massa de tomate
3 colheres(sopa) de óleo
½  xícara(chá) de vinagre
1 kg de batatas descascadas e cortadas em 4
1 pimentão vermelho picado
4 dentes de alho amassados
1 cebola grande bem picada
2 folhas de louro
1 maço de agrião picado
4 tomates picados
1 litro de água (aproximadamente)
Sal, pimenta do reino e cheiro verde a gosto

Ingredientes para o pirão:
Caldo do preparo da costela (aproximadamente ½ litro)
2 xícaras(chá) de farinha de mandioca crua


Modo de preparar:

Lavar bem a costela.
Temperar com alho, sal, vinagre, pimenta do reino e louro.
Na panela de pressão, adicionar o óleo.
Dourar os pedaços de costela por 10 min. (aprox.).
Acrescentar a cebola e dourar ligeiramente.
Adicionar a água e tampar a panela.
Cozinhar na pressão, por 30/40 minutos.
Tirar a pressão e abrir a panela.
Colocar batatas, tomates, pimentão, massa de tomate.
Se necessário, acrescentar mais água.
Mexer bem, tampar a panela.
Cozinhar, em fogo brando, por cerca de 10 min.
Retirar do fogo e abrir a panela, novamente.
Separar a costela e as batatas em uma travessa.
Acrescentar o agrião ao caldo quente na panela.
Retirar o agrião e colocá-lo na travessa.
Despeje um pouco de caldo por sobre os ingredientes.
Polvilhe com parte do cheiro verde.

Preparo do pirão:

Levar o caldo que ficou na panela ao fogo brando.
Acrescentar o cheiro verde.
Colocar a farinha de mandioca aos poucos.
Mexer devagar até consistência cremosa (de 3 a 5 min.).

Sugestão: servir a carne com o pirão, acompanhados de arroz branco.


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         A música para este Fogão de Lenha é “Juntando os Gravetos”, de Mauro Moraes, interpretada pelo saudoso José Cláudio Machado em dupla com Luiz Marenco.

  

       Um grande abraço, bom apetite e até o próximo encontro,


GALERIA SERTANEJA – CACHOEIRA, PIZZA E IMBRÓGLIO (CPI)



Muitos ensinam o que adquiriram com o estudo, não com a conduta,
e assim o que pregam com a palavra destroem com o seu modo de vida.
(S. Gregório Magno)



Amigas e Amigos,

Depois de uma comissão de notáveis ter proposto a regulamentação das casas de prostituição para que policiais corruptos não se aproveitem dos distintos donos desses estabelecimentos, fica a possibilidade de encontrarmos daqui a pouco uma proposta de regulamentação do jogo de bicho para que os empresários da sorte zoólatra não sejam, também, perturbados.

         Notícia do portal G1 diz que houve mudança no texto para criação de uma comissão mista para averiguar o envolvimento de “agentes privados” com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A matéria no referido portal informa que:
Parlamentares iniciaram nesta quinta-feira (12) a coleta de assinaturas para a criação da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigará as relações de políticos com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso em fevereiro durante a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, sob a acusação de comandar um esquema de jogo ilegal em Goiás. [...]  PSDB, DEM e PMDB protestaram contra a versão inicial e pediram ainda que a CPMI também investigasse fatos relacionados à Operação Vegas, feita pela PF em 2009, que também apurou negócios ilegais comandados por Cachoeira. Após uma reunião no gabinete do líder do PMDB na noite de quarta (11), foi construída a versão final do texto. A redação afirma que a comissão será destinada a “investigar num prazo de 180 dias, práticas criminosas desvendadas pelas operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, com o envolvimento do senhor Carlos Augusto Ramos, conhecido vulgarmente como Carlinhos Cachoeira, e agentes públicos e privados.” [...] De acordo com o requerimento, a CPMI será formada por 15 deputados e 15 senadores titulares, e o mesmo número de suplentes. A maioria é absoluta do governo: somente 6 dos 30 titulares pertencerão a partidos de oposição. O requerimento prevê o funcionamento da comissão por 180 dias. O limite para despesas da CPI será de R$ 200 mil. A previsão dos líderes é de que o requerimento só seja protocolado na próxima terça-feira (17), já que o Congresso fica esvaziado a partir das quintas-feiras e isso poderia prejudicar a coleta de assinaturas.

         A forte vontade que motivou o início do movimento pela CPI parece estar ensombrecida pelo novo rumo, pois, mesmo mantendo o foco no suposto envolvimento do senador Demóstenes com jogos de azar no estado de Goiás, adquiriu um escopo maior, abarcando outras investigações. Esse novo texto pode levar a investigação do envolvimento de personalidades do governo federal anterior, que poderão aparecer muito “ligadas” ao empresário zoômano.

Fonte: Humor Político. Charge de Alecrim.

         Como sempre, se o envolvimento de “amigos” for maior do que a “fritura” previamente combinada para dar idéia de moralidade na esplanada, os representantes do povo não hesitarão em encomendar mais uma pizza, final previsível para o decurso dos 180 dias que retirarão, sem muitas dúvidas, mais R$ 200 mil dos cofres públicos (não vislumbro dúvidas de que a comissão saberá consumi-los). Até lá, senadores e deputados que trabalham de terça a quinta-feira – desde que a semana não tenha feriados – terão na falta de quorum um bom motivo para trabalhar menos e viajar mais para “acompanhar as bases”.

         A notícia relacionada a essa CPI que mais me surpreendeu hoje foi a negativa, no STJ, do pedido de liberdade para Carlinhos Cachoeira, preso em penitenciária de segurança máxima em Mossoró-RN. A alegação da defesa é que o contraventor (que ou quem é autor de uma contravenção, que infringe leis ou regulamentos) não tem antecedentes como criminoso (que ou quem comete alguma falta, não necessariamente punível, porém condenável por uma ou mais pessoas ou pela sociedade).

         A música escolhida para esta Galeria com viés zoológico é "Liga dos Bichos", de Capitão Furtado, Alvarenga e Ranchinho.

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LIGA DOS BICHOS
                                             Cap. Furtado, Alvarenga e Ranchinho


Já formaro a sociedade
Protetor dos animais
Enquanto os bichos forgueti
A gente anda pa trás
Esse mundo tá virado
Tem coisa que não se atura
A gente passa apertado
E os bicho passa fartura

Os bicho tem sociedade
Adonde tem protetor
Na família do seu Galo
Tem muito Pinto doutor
Já vi Leitão professor
Vi Aranha de talento
Mas o que me deixou besta
Foi ver Cavalo Sargento

Também vi Coeio fardado
Oficiar de longo curso
E na crasse dos artistas
Tenho visto muito Urso
Pra chegar a capitão
A gente quase se mata
E os bicho sobe na vida
Tem até major Barata

Da maneira que vai indo
Tô vendo que não demora
Os burro monta na gente
E ainda chama na espora
Vou se embora pro sertão
Não vorto aqui nunca mais
Que lá num tem sociedade
Protetor dos animais

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         Nessa Galeria, a interpretação hoje é da saudosa dupla Alvarenga & Ranchinho. 



         Um grande abraço e até a próxima!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA – GIGOLÔS DE CARTEIRINHA


A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes,
mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade.
(Emmanuel Kant)



Amigas e Amigos,

Após alguns dias de intensa “maratona” por estradas gaúchas durante o período de preparação para a grande festa da ressurreição do Senhor, revendo parentes e degustando uma quantidade de churrascos que enrubesceriam nutricionistas e vegetarianos, estou de volta a este Blog. Confesso que a alegria e intensidade das visitas, sempre acompanhadas de um bom chimarrão de esmerado preparo onde ervas-mate brasileiras e uruguaias se revezavam, tomaram meu tempo ao longo desse período de tal forma que aproveitei pequenos intervalos entre a madrugada e o amanhecer para dormir na expectativa de uma recuperação física que somente agora penso ter alcançado.

Volto com uma Tertúlia Nativa e com mais uma tentativa de fazer alguma coisa propiciada por nossos extraordinariamente bem remunerados senadores. Dessa vez, além da busca de uma CPI para preparar uma cascata (ou cachoeira) de pizza, surge uma proposta de uma comissão para legalizar casa de prostituição como caminho para regulamentação da prostituição no país. A edição de ontem, dia 10/04, da Folha de São Paulo – que informa sobre o preparo, pelo relator-geral da referida comissão, de um anteprojeto para submeter a seus pares – diz que:
Pela legislação em vigor, quem mantém casas de prostituição está sujeito a pena de reclusão de 2 a 5 anos mais multa. Já a prostituição em si não é criminalizada, tampouco é regulamentada no país. Se aprovada no Congresso, a mudança abrirá caminho para a regulamentação da profissão. Isso porque será possível estabelecer vínculos trabalhistas entre o empregado do prostíbulo e o empregador, como já ocorre em países como Alemanha e Holanda. "É uma reivindicação histórica do movimento de prostitutas", afirma Roberto Domingues, presidente da ONG Davida e assessor jurídico da Rede Brasileira de Prostitutas. O empresário Oscar Maroni Filho, 61, que foi condenado em primeira instância por explorar a prostituição em um hotel de São Paulo, defende a reforma. "Já sofri muito com isso. Alguns desses processos que tenho ocorreram porque eu não quis pagar pau para a polícia", afirma ele. Pela proposta, que deve ser enviada para a apreciação do Senado no final de maio, os trabalhadores terão de estar no prostíbulo de forma espontânea e, claro, não poderão ter menos de 18 anos. Se o dono da casa obrigar a pessoa a se prostituir, incluindo casos em que há dívidas envolvidas, estará sujeito a penas de 5 a 9 anos. A proposta de reforma do Código Penal também endurece as penas por exploração sexual de menores de 18 anos. Pelo texto já estabelecido pela comissão, a pena para quem explorar a prostituição de crianças e ou de adolescentes passará de 4 para 10 anos de reclusão. A pena atinge quem praticar o ato e, novidade, o dono do prostíbulo. Hoje, segundo o relator da comissão, praticamente não existe punição para quem faz sexo com uma prostituta adolescente com mais de 14 anos. No que se refere ao sexo com crianças com menos de 14 anos, a atual legislação, alterada nesse aspecto em agosto de 2009, já estabelece penas muitos duras, pois o ato passou a ser considerado estupro de vulnerável. Já com a reforma, se a criança estiver num prostíbulo, o dono também será incriminado.

         Tenho grande dificuldade em perceber magnanimidade na maioria das propostas advindas de qualquer casa dos que deveriam representar os cidadãos brasileiros. Essa proposta me parece preocupada muito mais com os “empresários do sexo” do que propriamente com quem se prostitui. Não é difícil perceber que tal regulamentação, além de livrar tais senhores de determinados desconfortos, provocará significativo aumento na arrecadação de impostos – tão necessários para garantir absurdos salários e inchaços de órgãos públicos para “acomodar” parentes e amigos de nossas autoridades constituídas.



         Se existisse, de fato, alguma preocupação com quem se prostitui à margem da lei, o foco dos legisladores poderia ser a regulamentação do exercício da atividade dessas pessoas como profissionais autônomos e não com a criação de um possível vínculo profissional da pessoa que exerce a prostituição com um “empresário” através de uma carteira de trabalho, o que simplesmente faria aparecer a figura de um “gigolô de carteirinha”, com todas as desvantagens proporcionadas pela gigolotagem.

         Em outro trecho da reportagem, pode-se ler uma esdrúxula justificativa para a proposta onde “a ideia dos especialistas em direito que compõem a comissão é acabar com o que chamam de "cinismo" moral da atual legislação. Na prática, dizem eles, a proibição dos prostíbulos só serve para que policiais corruptos possam extorquir os donos dessas casas”. Essa argumentação poderá servir, dependendo de interesses de outras eventuais comissões, para regularizar o jogo do bicho, o comércio de cocaína, o câmbio clandestino, a venda de órgãos humanos roubados, o tráfico de crianças, etc. Será que no momento em que tudo isso fosse regulamentado, os citados especialistas festejariam, aliviados, o fim do “cinismo moral”?

         Como o Superior Tribunal de Justiça já considerou que crianças com idade inferior a 14 anos podem ser classificadas como prostitutas, conforme decisão recente, os “gigolôs de carteirinha” já devem estar pensando em ofertar mais opções para seus potenciais clientes, sem considerar qualquer hipótese de criminalização de seu “trabalho”.
        
Agora, esquecendo um pouco de Senado e Tribunal, voltamos para a Tertúlia de hoje. Já falei do Apparício Silva Rillo aqui no Blog (“Tertúlia Nativa – O começo da briga”, de 27/10/2010) e é dele o causo escolhido para hoje, que fala do “segredo” de um casamento bem sucedido, conforme transcrevo abaixo.

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UM, DOIS, TRÊS
                                         Apparício Silva Rillo


Dentre outros causos de mesma fonte, este me foi contado pelo Elton Benício Escobar Saldanha, conhecido compositor nativista do Estado, cria do Itaqui. Rose Escobar - um seu parente -, a despeito do nome, de que não gostava, era homem de se medir a palmo largo. Morava no rincão da Pata, na estrada do Silvestre, antes da barca do rio Ibicuí.

Havendo contratado casamento com uma mocita da cidade, visitava-a com alguma regularidade. Os noivos, entretanto, não chegaram a conhecer-se mais de perto. Sempre, na sala, a mãe da noiva e dois irmãos menores. Pelas nove da noite a velha servia um cafezinho, quente como la gran puta, senha para o noivo retirar-se. Rose saía dali pro chinaredo.

Casaram-se. Houve uma bonita festa, reuniu-se a parentada, pela primeira vez o Rose conseguia, pelo menos, segurar a mão da noiva. Após o almoço os noivos retiraram-se para a lua-de-mel, viajando num carro coberto puxado por um cavalo de boa estampa. A primeira noite - como as demais que viriam - seria passada no rancho novo que o Rose mandara construir no rincão da Pata.

Ao cruzar o carro pelo quartel soou um clarim. O cavalo assustou-se, o carro bamboleou, Rose arrancou o revólver da cintura, deu um tiro para cima e murmurou:

– Um...

Mais adiante, na passagem dos trilhos, quando as rodas barulharam sobre os ferros, mais um susto do cavalo, uma sacudida forte do carro. Rose puxou uma vez o revólver. Deu um tiro rente às orelhas do animal e resmungou:

– Dois...

Nesta altura a noiva já se encolhera num dos cantos do banco. O noivo não lhe dera uma palavra, até então. Só quebrara o silêncio com os dois tiros e com os resmungos de um... dois...

Já se avistava o rancho novo. Ao cruzar o carro por uma taipa de açúde que lhe ficava próximo, um bando de gansos atravessou-se por entre as patas do cavalo. Este, alarmado, empinou-se, quase que rebenta as tiradeiras, Rose dominou-o com algum esforço.

Fez a noiva baixar do carro, tirou o revólver do coldre, a moça escutou ele dizer:

– Três! – e , imediatamente, um estampido. Atingido no pé do ouvido o cavalo ficou paleteando. A moça, entre o desespero e a irritação, chamou o Rose de bruto, bandido, onde se viu matar um pobre animal por tão pouca coisa, bem que ela não o conhecia, jamais imaginara que...

          Rose escutou em silêncio. Quando a noiva acabou de desabafar, sacou do revólver e resmungou:

– Um...

A moça arregalou os olhos. E como para bom entendedor meia palavra basta, saiu na sombra do marido no rumo do rancho novo.



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         No fecho desta Tertúlia, deixo a música "As coisas do meu rincão", do saudoso José Mendes, interpretada pelo próprio autor.



         Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 30 de março de 2012

FOGÃO DE LENHA – CHARQUE ACEBOLADO E SENADOR ESCALDADO



Um dos maiores travões aos delitos não é a crueldade das penas, mas a sua infalibilidade (...)
A certeza de um castigo, mesmo moderado, causará sempre impressão mais intensa
 que o temor de outro mais severo, aliado à esperança de impunidade.
(Cesare Beccaria)



Amigas e Amigos,

         O senador Demóstenes Torres, que já atuou como promotor de justiça e secretário de segurança em Goiás, há muitos anos desempenha o - talvez para ele difícil - papel de guardião da ética política (?) e forte opositor do governo. Pois no início deste mês de março, caiu a máscara de bom moço (nem tão moço) com o aparecimento de denúncias sobre o envolvimento do senador com o bicheiro Carlinhos "Cachoeira". 


          E parece que a cachoeira é bem maior do que as evidências surgidas recentemente. Essa águas estão rolando desde, pelo menos, 2006 quando, segundo notícias que tentam abafar, a Polícia Federal já teria colhido evidências de que Demóstenes estaria envolvido com o esquema de jogo de bicho em Goiás, beneficiado com alto faturamento. Dizem, ainda, que quando tomou conhecimento das denúncias, o senador teria "comprado" até delegado da PF. 

           Na página de Notícias do UOL,  em 29/03, foi noticiado que:
O STF (Supremo Tribunal Federal) abriu nesta quinta-feira (29) um inquérito para investigar elos entre o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) e o empresário do jogo do bicho conhecido como Carlinhos Cachoeira. O processo foi enviado pela Procuradoria-Geral da República na terça-feira (28) e deixa o parlamentar como suspeito de integrar uma quadrilha que opera jogo ilegal em Goiás. A pedido do ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso, a corte também pediu a quebra do sigilo bancário do parlamentar e uma relação de emendas ao orçamento apresentadas por ele no Senado. [...] A suspeita é de que o senador transmitia informações a Cachoeira em troca de presentes. Ele nega as acusações. 
Além de Demóstenes, há outros possíveis envolvidos no esquema criminoso: os deputados por Goiás Rubens Otoni (PT), Carlos Alberto Leréia (PSDB) e Sandes Júnior (PP). Na terça-feira, em um acontecimento raro, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, recebeu parlamentares da Frente Mista de Combate à Corrupção e sinalizou "indícios robustos" para uma investigação, segundo o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). 
A pressão no DEM só aumenta para que Demóstenes deixe o partido. A situação dele se agravou depois de o Jornal Nacional, da TV Globo, relatou gravações da Polícia Federal em que Cachoeira -- preso em Goiás no início do mês durante a Operação Monte Carlo -- cita o senador seis vezes. Segundo a reportagem, as gravações foram feitas pela PF há um ano. Nas conversas, que duram cerca de cinco minutos, eles falam sobre dinheiro e contas do esquema ilegal de exploração de jogos de azar. [...] 
A assessoria de Demóstenes informou à Agência Brasil que ele já recebeu da Procuradoria-Geral da República os autos contendo dados das investigações que o envolvem. Se o DEM decidir abrir um processo contra o senador, será designado um relator para o caso e definido prazo de menos de um mês para a defesa. Há informações, veiculadas em vários veículos da imprensa, de que Demóstenes mantinha ligações com Carlinhos Cachoeira, preso por envolvimento com máquinas de caça-níqueis em Goiás. A suspeita é que o senador transmitia informações para o empresário, mantinha negócios com ele e recebia presentes. O parlamentar confirmou que ganhou de casamento um fogão e uma geladeira importados, no valor de R$ 30 mil, de Cachoeira.


        Não resta dúvida de que o currículo do senador é bem "marcante" para um paladino da moral e dos bons costumes, conforme ele mesmo dá ideia em seu blog de propaganda pessoal. 

         O portal Folha.com, hoje enriquece um pouco mais a folha corrida de Demóstenes, informando que:
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) utilizou o seu mandato para beneficiar os negócios do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, revelam gravações feitas pela Polícia Federal. De acordo com as escutas, divulgadas nesta sexta-feira (30) pelo jornal "O Globo", o senador acertou com o empresário ajuda em processo judicial e em projeto de legalização de jogos de azar em tramitação no Congresso. O empresário foi preso pela Polícia Federal no dia 29 de fevereiro, durante a Operação Monte Carlo. Nas gravações divulgadas pelo jornal, Demóstenes também fala com Cachoeira de negócios com a Infraero na época que ele era relator da CPI do Apagão Aéreo. Os grampos, segundo o jornal "O Globo", foram gravados durante a Operação Vegas. Em um diálogo gravado em 22 de abril de 2009, o empresário pede ao senador que faça um levantamento sobre o projeto de lei 7.228, que trata de jogos de azar. [...] Ele também pede a Demóstenes que fale com o então presidente da Câmara dos Deputados e agora vice-presidente, Michel Temer. O senador diz que vai tentar fazer com que o plenário da Câmara vote a proposta, o que não aconteceu. Em outra conversa, Demóstenes afirma que o texto do projeto, na verdade, prejudica Cachoeira. [...] Reportagem de "O Globo", publicada semana passada, com gravações da mesma operação já haviam mostrado que Demóstenes pediu dinheiro a Cachoeira para pagar despesas com táxi-aéreo, no valor de R$ 3.000. Na conversa, ao dizer que iria pagar, o empresário aproveita para pedir ao senador que o ajude em um processo judicial. [...] Outra conversa, gravada em 4 de abril de 2009, mostra também que os dois poderiam estar de olho em um milionário "negócio" em andamento da Infraero.[...] Investigações da PF também apontam que Cachoeira repassou informações sobre apurações contra o seu grupo a Demóstenes. A Folha obteve 12 mil páginas do inquérito da PF que culminou na Operação Monte Carlo. Ela investigou Cachoeira e mais 80 pessoas, todos denunciados neste mês pelo Ministério de Público Federal sob acusação de explorar máquinas caça-níquel e corromper agentes públicos para manter o negócio. No inquérito a que a Folha teve acesso, o nome de Demóstenes aparece, por exemplo, num relatório da PF sobre um diálogo gravado com autorização judicial no dia 13 de março do ano passado, às 15h37. Nele, conversam Carlinhos Cachoeira e o sargento aposentado da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá --apontado pela Procuradoria como o principal araponga da quadrilha. Ambos estão presos. [...] Questionado sobre as gravações da Polícia Federal na Operação Monte Carlo, o advogado de Demóstenes Torres, Antonio Carlos de Almeida Castro, afirmou que elas não têm valor jurídico e são totalmente nulas. Isso porque o senador só poderia ser investigado com autorização do STF. O advogado afirmou não ter tido acesso à íntegra de todos os diálogos interceptados pela PF, mas critica a atuação da polícia.

         Considerando apenas os pequenos resumos publicados, dá para imaginar que a "ficha" do senador está "mais suja do que pau de galinheiro". Pois com tudo isso, ainda aparece um advogado para dizer que as provas não têm valor jurídico e que são totalmente nulas porque, provavelmente, um juiz autorizou as escutas e somente o Supremo teria essa prerrogativa. 


        A falta de bom senso leva, muito seguidamente, a declarações estapafúrdias. Se quem estava sendo investigado era um bicheiro - claro que cheio de influente "amiguinhos" - para que alguém iria ao Supremo? Quem imaginaria que o probo senador apareceria em todas as gravações, na maior intimidade? 

         Como acho que as perguntas acima são de difícil resposta, acredito que o escárnio sobre valor jurídico e provas nulas em nada amenizam os embutes promovidos pelo senador. Mas parece que teríamos uma situação em que o advogado começa a preparar os ingredientes para mais uma pizza na Esplanada dos Ministérios.

         Deixando a pizza para as "comissões" das casas representativas do povo brasileiro, a receita deste Fogão de Lenha é “Charque Acebolado”, que pode ser servido como entrada (acompanhado de um bom pão francês) ou como prato principal (com arroz branco e uma salada).



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CHARQUE ACEBOLADO

Ingredientes:

500 g de charque, cortado em cubos grandes
2 cebolas, cortadas ao meio e fatiadas
2 ou 3 colheres de azeite de oliva
1 colher de sopa de molho de soja (ou aceto balsâmico)
100  gramas de bacon picado
Pimenta-do-reino a gosto
Sal (se necessário) a gosto
Cheiro verde picado


Modo de preparar:

Lavar bem os pedaços de charque.

Colocar os pedaços em uma panela com água.

Deixe ferver por aproximadamente 10 minutos.

Escorra a água.

Lave, novamente, os pedaços de charque p/retirar o sal.

Coloque água novamente na panela e cozinhe o charque.

Quando estiver macio, retire os pedaços da água e deixe esfriar.

Desfie os pedaços, grosseiramente.

Colocar o bacon em uma frigideira grande com o azeite.

Quando o bacon estiver dourado, acrescente a cebola.

Frite, ligeiramente, a cebola.

Junte o charque desfiado e refogue um pouco mais.

Se necessário, acerte o sal.

Tempere com a pimenta-do-reino.

Acrescente o molho ou o aceto e misture bem.

Salpicar com cheiro verde e servir imediatamente.


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         A música para acompanhar a receita acima é "Pampa na Garupa", de Iedo Silva, com Iedo Silva e o grupo "Os Farrapos". 


 

         Um abraço e um abençoado fim de semana!