quinta-feira, 7 de abril de 2011

GALERIA SERTANEJA - CORAGEM, REALENGO

Amigas e Amigos,

                   Nesta Galeria Sertaneja, por mais que eu procure falar de qualquer outro assunto, não tem como deixar de comentar a tragédia ocorrida, hoje, em uma escola no Rio de Janeiro-RJ. Até o momento em que estou escrevendo, foram constatadas 12 mortes de adolescentes com idades entre 12 e 15 anos, baleados por um transtornado jovem assassino de 24 anos, na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio.



                   A notícia se espalhou pelo mundo, por não ser o Brasil um país onde esse tipo de crime em colégios apresentasse registros anteriores. A violência contra menores por aqui acontece escondida dentro das próprias residências, mas – como racismo, homofobia e outras vergonhas que carregamos – preferimos “fazer de conta” que está tudo bem por aqui.

                   O momento não é de buscarmos culpados – o criminoso está morto – mas de refletirmos sobre o que pode ser feito para diminuir esses desatinos. O sofrimento dos familiares e amigos dessas crianças não pode ser em vão. A presença de armas em escolas é muito comum, mas servem, na maioria das vezes para uma ameaça ou alguma outra demonstração de “poder”, tolerada pela sociedade – por nós –, acreditando que está muito distante de nossas vidas.

                   Se pensarmos nas leis de nosso país, não conseguiremos, provavelmente, imaginar como uma arma poderia parar na mão do responsável pelo massacre de Realengo (e ele tinha dois revólveres). Um potencial desequilibrado (segundo depoimento de parentes) armado e sabe-se lá desde quando. Necessitamos, cada vez mais, desarmar a população. Mas necessitamos, e muito, de um judiciário que troque declarações rebuscadas e enroladas por práticas que garantam bandidos em cadeias e cidadãos circulando sem tanto medo. Penas leves e diminuídas – com indultos dos mais diversos – incentivam, e muito, a violência pela certeza de impunidade.

                   Para externar a nossa solidariedade a todos os familiares das pequenas vítimas da chacina de Realengo, fui buscar no cancioneiro gaúcho das Califórnias da Canção, de Uruguaiana, a música de João Batista Machado e Júlio Machado da Silva Neto, na interpretação do saudoso Cezar Passarinho, “Guri”.

==================================================

GURI

                                                                 Composição: J.B.Machado e J.M.S.Neto
                                             Intérprete: Cezar Passarinho

Das roupas velhas do pai queria que a mãe fizesse

Uma mala de garupa e uma bombacha e me desse

Queria boinas e alpargatas e um cachorro companheiro

Pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço sogueiro


Hei de ter uma tabuada e o meu livro "Queres Ler"

Vou aprender a fazer contas e algum bilhete escrever

Pra que a filha do seu Bento saiba que ela é meu bem querer

E se não for por escrito eu não me animo a dizer


Quero gaita de oito baixos pra ver o ronco que sai

Botas feitio do Alegrete e esporas do Ibirocai

Lenço vermelho e guaiaca compradas lá no Uruguai

Pra que digam quando eu passe saiu igualzito ao pai


E se Deus não achar muito tanta coisa que eu pedi

Não deixe que eu me separe deste rancho onde nasci

Nem me desperte tão cedo do meu sonho de guri

E de lambuja permita que eu nunca saia daqui

==================================================

                   Abaixo, uma interpretação do Cezar Passarinho, acompanhado pelo Borghettinho, no programa Galpão Crioulo, na RBS, de Porto Alegre-RS.


                   Um grande abraço e até a próxima!

Wilmar Machado

terça-feira, 5 de abril de 2011

ORATÓRIO CAMPEIRO - EMBROMANDO A EDUCAÇÃO

Amigas e Amigos!

                No próximo dia 7 de abril, é celebrado São João Batista de La Salle, que nasceu na França (em Reims), no ano de 1651. Era doutor em Teologia e fundou a Congregação Irmãos das Escolas Cristãs, que se estabeleceu no Brasil em 1907, inicialmente no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. São J.B. de La Salle morreu em uma Sexta-feira Santa em 1719 e foi proclamado, posteriormente, “Padroeiro celeste de todos os educadores”.



                Hoje, no caderno “Eu, estudante”, do Correio Braziliense (www.correioweb.com.br), foi publicado que a população brasileira poderá ser consultada sobre um possível – mas não muito provável – aumento de verba para a educação, com base em informação da Agência Câmara, onde se lê que:
A Câmara analisa o Projeto de Decreto Legislativo 11/11, do deputado Ivan Valente (Psol-SP), que prevê a realização de plebiscito em 2012 para saber se os brasileiros são favoráveis ou não à obrigatoriedade de aplicação do percentual de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação, por parte da União, de estados e de municípios. Em 2009, o investimento público em educação foi de 5,7% em relação ao PIB (1,2% da União, 2,4% dos estados e 2,2% dos municípios), de acordo com dados do Inep/MEC. Ivan Valente afirma que a ampliação dos recursos para a educação é uma medida urgente e necessária para elevar a qualidade do ensino e garantir a todos os brasileiros o direito à educação. Ele lembra que essa é uma reivindicação da Conferência Nacional de Educação (Conae), mas “parece não sensibilizar” o Poder Executivo. 

                Enquanto o “mico da educação” vai pulando de um ombro para outro, nada se resolve e vai ficando “tudo como antes no quartel d’Abrantes”. Se tudo correr (muito) bem, em 2012 responderemos o óbvio em um plebiscito (ou alguém no Psol ou em qualquer outro partido tem alguma dúvida) sobre a utilização de 10% do PIB, em vez dos míseros 5,7% atuais que faz a educação estar nos níveis em que se encontra. Não está pior (como se esperaria dado o descaso com que é tratada nos meios públicos) pela abnegada dedicação dos professores, tantas vezes achincalhados tanto pelas autoridades quanto por seus representantes, não raras vezes à serviço dessas mesmas autoridades.


                Depois da consulta popular, nossos ilustríssimos representantes – como sói acontecer –, com a agilidade dos que produzem trabalhando apenas de terças às quintas-feiras, redigirão, corrigirão e, novamente, redigirão o texto do projeto – até que o executivo sinalize que podem continuar – e, com requintes de crueldade, encaminharão para aprovação algo que, provavelmente, nos fará perguntar – sem esperar qualquer resposta – para que foi feito o plebiscito.

                São João Batista de La Salle, que vê na categoria dos seus afilhados tanta dedicação, possivelmente, contempla a expressão envergonhada de São Thomas More com os seus. Proponho, esta semana, dedicarmos nossa oração a São João Batista de La Salle, com a sugestão abaixo.

=======================================
ORAÇÃO A SÃO JOÃO BATISTA DE LA SALLE

Ó Deus,

Que escolhestes São João Batista de La Salle

Para a educação cristã dos jovens,

Suscitai na vossa Igreja

Educadores que se consagrem inteiramente

A formação humana e cristã da juventude.

Amém.
=======================================


                A música deste Oratório Campeiro, para homenagearmos os professores, é “A professora e a palmatória”, de Rita de Cássia, com o grupo Rabo de Saia.


                Um grande abraço e que a Paz de Cristo permaneça conosco!

Wilmar Machado

segunda-feira, 4 de abril de 2011

ABRINDO A PORTEIRA - BOM LADRÃO PARA QUEM?

Amigas e Amigos!

                 Para iniciar esta primeira semana após adquirir mais experiência no último sábado, encontrei uma notícia que, acredito, poderá ser incluída no bizarro mundo de escândalos promovidos pelos poderes constituídos em nosso país.



                 Em matéria publicada hoje, no portal G1 (http://g1.globo.com), pode-se acompanhar, por mais estranho que pareça, que os paroquianos da Igreja de São Gonçalo do Retiro, da comunidade de São Dimas, em Salvador-BA, celebraram a festa do padroeiro em um circo (Circo Maravilha), com a presença de Dom Geraldo Magella, que compareceu ontem para apoiar a comunidade. Diz a matéria que:
A celebração da missa em homenagem ao dia do padroeiro da Igreja de São Dimas, na Baixinha de Santo Antônio, em Salvador, foi realizada dentro de um circo neste domingo (3). A construção de um motel ao lado colocou em risco a sustentação da igreja, demolida há um ano. O caso está na Justiça e os fiés reclamam solução. “Em 2007, autorizaram a construção do motel, que abalou profundamente a estrutura da igreja. A Codesal veio, deu um parecer técnico e disse que tinha ameaça de desabamento eminente. Por motivos de segurança, fomos obrigados a demolir a igreja, o centro social e também a creche”, explica o pároco Maurício Abel. A creche que funcionava na igreja atendia pelo menos 35 crianças.  [...] O técnico contábil Antônio Moreira protestou contra a situação. “Estamos protestando contra a morosidade da Justiça. A igreja está no chão e o motel, infelizmente, de pé”, diz. 
                 Apesar dessa preocupação do técnico contábil contra “a morosidade da Justiça”, aparentemente, a Justiça não é a única responsável pelo pagamento dessa conta. O caso parece envolver também a máquina administrativa, dados o tempo de enrolação e a omissão de autoridades constituídas. Para se ter uma idéia do tempo proporcionado por quem deveria buscar soluções, e não embromações, no dia 7 de abril de 2009, no telejornal “Bahia Meio Dia” (disponível em http://ibahia.globo.com/batv/materias_texto.asp?modulo=2912&codigo=202999), foi questionado o porquê de uma obra embargada pela Defesa Civil em novembro de 2007 não ter sido suspensa até aquela data, pois:
O povo diz que o dono do hotel tem muito dinheiro e muitos amigos na Sucom. Agora, a justiça embargou a obra, mas o embargo não foi respeitado e o dono continuou a sua construção até escondido de noite.  [...] mesmo com a obra embargada, o hotel foi concluído. [... ] Já a assessoria da Sucom - Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo informou que o hotel foi notificado, autuado e embargado, mas não disse porquê, mesmo com tudo isso, as obras foram concluídas e a recuperação dos prédios vizinhos ainda não aconteceu.
                 Para corroborar a idéia de que é possível se trabalhar neste país sem gerar qualquer resultado (mas sem jamais esquecer de receber, e muito, por isso), encontrei no Correio, de Salvador, (http://correio24horas.globo.com), do dia 15 de julho de 2009, que:
O juiz da 7ª Vara de Relação de Consumo determinou a demolição de um hotel da Baixinha de Santo Antônio e também que o dono do imóvel, Manoel Borges da Silva Júnior, mande recuperar os prédios da Igreja de São Dimas e da creche do bairro que foram fechados com sérios problemas na estrutura por causa da construção do hotel. A prefeitura embargou a obra, que continuou mesmo sem permissão.
                 A única explicação que vislumbro para esse verdadeiro “jogo de empurra” na aparente tentativa de “esconder o jogo” está associada ao próprio padroeiro da comunidade: São Dimas. São Dimas – apesar de dúvidas quando ao seu verdadeiro nome – foi o Bom Ladrão, que na cruz, ao lado de Jesus, confessou a própria culpa e professou a fé em Cristo. Ora, parece que vivemos em um tempo onde a delação premiada abala toda e qualquer estrutura de poder deste Brasil, onde a situação de “ter o rabo preso” se generaliza propiciando cada vez mais situações em que os responsáveis por decisões e ações prefiram “meter o rabo entre as pernas” e “sair de fininho”.

                 Para deixar a porteira aberta para mais uma semana, vamos ouvir uma música que pode se associada ao comentário de hoje. De Prado Júnior e João Armando Perrupat, com as Gargantas de Ouro do Brasil, a dupla Milionário & José Rico, a composição "Inversão de Valores".


                 Um grande abraço e até a próxima!

Wilmar Machado

quinta-feira, 31 de março de 2011

GALERIA SERTANEJA - UMA NOVA CATEDRAL GAÚCHA

 Amigas e Amigos!

              Essa Galeria Sertaneja presta uma homenagem especial a um conterrâneo que, fazendo o que mais gosta e o que os gaúchos gostam que ele faça, foi agraciado com o troféu “Jorge Camargo” (das mãos de Pedro Ortaça) de melhor intérprete do 4º Canto Missioneiro da Música Nativa, na cidade de Santo Ângelo-RS.

              Os parabéns são para o cantor Joca Martins (“Aí que eu me refiro!" – como diria o próprio Joca), que defendeu no citado festival a música “Catedral” – segunda colocada –, criada por Lisandro Amaral e Guilherme Collares, premiados com o troféu “Tio Queiroz” pelo melhor arranjo.



              Transcrevo, abaixo, parte da matéria publicada hoje no espaço de cultura do Diário Popular (www.diariopopular.com.br), de Pelotas-RS, que diz:
A final do evento movimentou a cidade de Santo Ângelo no último domingo e o público que acompanhou a execução da música Catedral aplaudiu os músicos em pé. "Difícil explicar tudo que aconteceu. Era emoção na ponta dos dedos dos guris e da minha garganta", confessou Joca Martins. A letra foi criada por Lisandro Amaral e Guilherme Collares que presentearam Joca Martins em uma tarde na Rainha da Fronteira, Bagé. Segundo Joca, eles estavam tomando chimarrão e conversando sobre os projetos no estúdio do Guilherme quando conheceu a música e ficou impressionado. Além da letra comovente e do arranjo premiado, a canção tem uma história. [...] Tudo começou quando Lisandro Amaral retornava de um espetáculo em Santo Cristo e ao chegar no trevo que leva até as ruinas de São Miguel resolveu que seria o momento de conhecer o local. [...] aproveitou a paz do local para buscar inspiração e escrever uma música. Em poucos minutos, a letra estava completa e recheada de emoção. Como a música nasceu nas missões, resolveram gravar para inscrever no Canto Missioneiro. Conseguiram a classificação.
               Mas só a classificação era pouco para essa turma que, segundo o próprio Diário, mostrou uma sintonia capaz de obter o reconhecimento dos jurados. Na matéria, Joca Martins ainda afirmou que "Essa música faz parte do momento mais importante da minha história musical e diria que um dos momentos mais emocionantes da minha vida".

              Juliana Spanevello, em seu blog (http://www.julianaspanevello.blogspot.com), conta da surpresa que fez para o Joca, viajando, de Faxinal do Soturno-RS, sem avisar, para assistir a última noite do festival, em Santo Ângelo, onde chegou depois das 8h da noite (as apresentações começaram as 7h da noite). Sobre o momento da apresentação, Juliana afirma com uma carga de emoção indisfarçável que:
Queria ter fotografado a cara do Joca!!! Nos divertimos com a reação dele... pasmou!!! Bueno... mas melhor que toda esta história... foi a emoção que senti, lá no meio do público! A cada estrofe que iniciava, o povo emocionado aplaudia!!! Era uma atenção só! E a canção, infinitamente tocante, emocionante! Momentos que a gente não presencia por aí, a qualquer hora... um momento definitivamente único e especial! Público se colocou em pé para apaludir a CATEDRAL, com Lisandro Amaral, Guilherme Collares, Silvério Barcellos, Ricardo Comasseto, Negrinho Martins, e o Joca! A emoção de cada um no palco podia ser notada claramente... visível e transparente emoção dos olhos do Lisandro e do Guilherme... e da concentração do Silvério, do Comasseto, e do tio Negrinho. E especialmente, a emoção do Joca quase em lágrimas... Confesso! Nunca havia presenciado um momento assim!
              Se você quiser entender um pouco melhor esse emocionante momento do festival, sugiro um passeio pelas últimas postagens do blog da Ju Spanevello. Abaixo, publico a letra de Catedral, que carrega, de fato, toda a emoção, passada pelo Joca e pelo grupo.

===================================

CATEDRAL

Letra: Lisandro Amaral
Melodia: Lisandro Amaral e Guilherme Collares
Intérprete: Joca Martins



Também de pedra meu cantar não se termina...

caído ao solo - beijo a terra e escrevo a sina.

Terra vermelha é minha cor no arrebol

pois tenho sol no sangue em paz que me ilumina.



Também de bronze, estou de joelhos Catedral.

No pedestal que cala os sinos, faço prece...

quem não merece – a terra em si – terá perdão,

pois gratidão a vida tem mas nunca esquece!



Dormem aqui: ruínas índias e horizontes...

bebendo a fonte do silêncio natural...

senti teu cheiro - mãe divina - em berço livre...

hoje o que eu tive foi tua benção Catedral.



Seguem aqui - hoje emplumados - Guaranis

no bem-te-vi, no João Barreiro e entre os guardiões

querendo sempre querer mais que o quero-quero

sei o que espero, e busco aqui, muitos perdões...



Também de vento estou soprando - em ti – templário.

No pedestal que fala o tempo, a crosta esquece...

ouvindo os prantos que derramam tua imagem

achei coragem e sou guardião com pena em prece.


Hoje o que eu tive foi tua benção CATEDRAL!!!

===================================

              E para você já ir se acostumando com esse novo sucesso da música gaúcha, segue abaixo a interpretaçao do Joca Martins para "Catedral".


              Um grande abraço e até a próxima Galeria Sertaneja aqui no Canto da Terra!

Wilmar Machado 

TERTÚLIA NATIVA - UM POLÍTICO COM ÉTICA

Amigas e Amigos!

                O Brasil perdeu, ontem, um (dos poucos) político honesto e ético – José Alencar Gomes da Silva –, responsável pelo grupo Coteminas S.A., um dos mais importantes de nosso País. José Alencar padeceu anos, lutando bravamente contra uma doença que se alastrava por seu corpo e que não conseguia derrotá-lo, nem experimentou o prazer de vê-lo se entregar. E deve ter padecido muito, dada sua índole, ao ver a classe política da qual fez parte se envolver em “mensalões” e acobertar fortes indícios de corrupção.


 
                Na Tertúlia Nativa de hoje, lembrando que o ex-Vice-Presidente começou o grande grupo econômico que hoje é administrado por sua família com uma loja em Caratinga, fui buscar no livro “Rapa de Tacho 2” (p. 39-41), do poeta, escritor e pesquisador Apparício Silva Rillo, a história de um bolicheiro (dono de armazém que comercializa quase tudo que se imagine), contada de forma muito engraçada.

===========================================

SEU ATAÍDE, O BOM PAPO

                                                                           Apparício Silva Rillo

                Na São Borja de trinta e alguns anos atrás, o mulato Ataíde estabeleceu-se com bolicho próximo ao cemitério, na saída para os rincões do Magrulho e de Santana. Anos após, com uns trocos juntados, transferiu sua casa de negócios – agora misto de bar e armazém – para ponto mais central da cidade.

                A gauchada do interior mostrava decidida preferência por seu bolichão. O ponto mudara, mas a freguesia não. Sortiam os fregueses suas malas de garupa, tomavam canha não batizada e, sobretudo, encantavam-se com a maneira característica de falar do bolicheiro que, estranhamente, sabia ler soletrado mas não escrevia nada mais além do nome e dos números nas cadernetas dos clientes mais antigos. Seu Ataíde “bolava as trocas” no seu linguajar. Era um Cícero às avessas.

                – E aí, Seu Ataíde, tudo bem com sua saúde?

                – Negativamente, “conspico” amigo. Semana passada me deu uma “hemorróide” nos dentes que quase me leva à breca. Sangue, barbaridade. Me receitaram umas injeção mas eu refuguei no partidor. Tenho “energia” por injeção. Por sorte que com duas dúzias de “esprimidos” a “hemorróide” transitou em julgado, com lá dizem os “bacharelos”...

.o.O.o.

                Tarde de após Gre-Nal. O bolicho cheio. Seu Ataíde, colorado doente, amargava a derrota do seu clube para o Grêmio.

                – Ganho o Grêmio, seu Ataíde?

                – E como não haverá de ganhar, excelência? Puseram um gato felino de “refer” e ele marcou uns “pênis” contra nós no último minuto.

.o.O.o.

                Chega um guri no bolicho:

                – Tem ovo, seu Ataíde?

                – Menino, não diga ovo, diga ovos. Aprenda a falar a língua brasileira.

                – Bueno, seu Ataíde. Então me dê um ovos.

.o.O.o.

                O povinho apelidou de caminhão os primeiros ônibus que faziam a linha cidade-interior. Seu Ataíde se rebelava contra essa afronta ao “vernácul”.

                Aparece um gurizote da campanha em seu bolicho. Viera fazer compras na cidade e levava duas malas de garupa gordas como barriga de prenha.

                – O caminhão para o Mangrulho já passou, seu Ataíde?

                – Passa logo, logo. Mas aprenda a falar, mocinho. Não diga caminhão, que está errado. Veículo que carrega gente se chama “ônis”...

.o.O.o.

                Um seu amigo abatera a tiros um desafeto, na “casa da Morena”. Constava que arranjara uns pilas com seu Ataíde e se mandara rolar.

                – E o Pulchério, seu Ataíde? Que fim levou o índio?

                – Acabou servindo de “bode respiratório” numa briga onde entrou para apartar a cachorrada. Segundo “resumo”, matou na boa lei. Mas pra se livrar do “flamejante policial” bandeou o rio Uruguai um dia desses. Tá “forrageado” na Argentina.

===========================================

                A música desta Tertúlia é "Bolicho", de Cenair Maicá e Gilberto Carvalho, na interpretação de Cenair Maicá.
 
 
                Um grande abraço e até a próxima Tertúlia!
 
Wilmar Machado

quarta-feira, 30 de março de 2011

ORATÓRIO CAMPEIRO - SÃO FRANCISCO, O DE PAULA

Amigas e Amigos!

            No Oratório Campeiro de hoje, lembro São Francisco de Paula, o santo do próximo sábado – 2 de abril de 2011. Esta data, além de marcar meu aniversário e o da minha filha, é também lembrada pela morte do Papa João Paulo II, em um domingo de 2005, quando eu e Léo Peter chegamos aos estúdios para apresentação do Canto da Terra (naquele tempo começava às 8h da manhã) e fomos consultados pela Ir. Patrícia, Diretora de Produção e Programação das Rádios Nova Aliança, sobre a possibilidade de entrarmos no ar, em rede – AM e FM – para noticiar o fato. A participação dos ouvintes foi tão intensa que a manhã e o início da tarde de meu aniversário foram passados no ar, recebendo ligações e ouvindo os mais diversos e emocionados testemunhos sobre as passagens de João Paulo II por Brasília e outras experiências relacionadas aquele Papa.

            São Francisco de Paula foi-me apresentado por meus pais, Wilmar e Leda, antes mesmo de minha preparação para a 1ª Eucaristia, pois me lembro, sempre que alguma oportunidade se oferecia, de visitar a Catedral de Pelotas e orar por meu Santo protetor.

            Pelotas tem uma relação muito forte com São Francisco de Paula desde antes de ser vila, pois surgiu como uma freguesia – Freguesia de São Francisco de Paula –, em 7 de julho de 1812 e a homenagem ao santo foi feita porque em 2 de abril de 1776 os espanhóis tinham sido expulsos da Vila de Rio Grande (região administrativa da qual fazia parte a nova freguesia). Em outubro de 1912, Padre Felício (Joaquim da Costa Pereira) foi nomeado vigário da nova freguesia e encarregado de construir a Igreja-sede.

            São Francisco de Paula, fundou a Ordem dos Mínimos que se faz presente no Brasil em mosteiros no Rio de Janeiro-RJ, em São Paulo-SP e em Guarapuava-PR, e sobre ele diz o portal das Paulinas (http://www.paulinas.org.br/):
Aos onze anos, Francisco foi viver no convento dos franciscanos de Paula, dois anos depois vestiu o hábito, mas teve de retornar para a família [...]Nessa viagem, Francisco recebeu a intuição de tornar-se um eremita. Assim, aos treze anos foi dedicar-se à oração contemplativa e à penitência nas montanhas da região. Viveu por cinco anos alimentando-se de ervas silvestres e água, dormindo no chão, tendo como travesseiro uma pedra. Foi encontrado por um caçador, que teve seu ferimento curado ao toque das mãos de Francisco, que o acolheu ao vê-lo ferido. [...]Francisco de Paula teve a felicidade de ver a Ordem dos Irmãos Mínimos aprovada pela Santa Sé em 1506. Ele morreu aos noventa e um anos de idade, no dia 2 de abril de 1507, na cidade francesa de Plessis-les-Tours, onde havia fundado outro mosteiro. A fama de sua santidade só fez aumentar, tanto que doze anos depois, em 1519, o papa Leão X autorizou o culto de são Francisco de Paula, cuja festa litúrgica ocorre no dia de sua morte.
            E São Francisco de Paula – que é padroeiro de São Francisco de Itabapoana-RJ, dá nome a uma cidade serrana do Rio Grande do Sul, a Igrejas no Largo de São Francisco e na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro-RJ, em Lavras e em Ouro Preto-MG, em Curitiba-PR, na praia de Canasvieiras, em Florianópolis-SC, em Poço Fundo-MG (onde também é o padroeiro da cidade), e a mais recente, fundada no último dia 6 de março, em Cerro Negro-SC – foi criando uma relação muito forte com o povo pelotense, que passou a homenageá-lo com uma diversidade de lembranças, conforme pode-se constatar em algumas denominações que recordo:

a. A Avenida São Francisco de Paula, conhecida durante muito tempo como o “Corredor das Tropas”, por onde os tropeiros levavam o gado da Tablada, região de comercialização e onde hoje existe o bairro da Cohab, para as charqueadas nas margens do arroio Pelotas e do canal São Gonçalo.

b. O Seminário Diocesano São Francisco de Paula, no bairro das Três Vendas, que comemora 72 anos no próximo dia 31 de maio, responsável pela formação de sacerdotes para as Dioceses de Pelotas, Bagé e Rio Grande. Foi fundado pelo segundo Bispo da Diocese, Dom Joaquim (Ferreira de Melo).

c. O Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, localizado na Av. Duque de Caxias, no bairro Fragata.

d. O Hospital Universitário São Francisco de Paula, vinculado ao curso de Medicina da Universidade Católica de Pelotas e localizado na rua Marechal Deodoro, entre a Av. Bento Gonçalves e a CohabPel.

e. A Casa da Criança São Francisco de Paula, inaugura em 1936 como Creche S. Francisco de Paula e desde 1957 adotou a atual denominação. Desde 1996, a Casa atende turmas de Berçário, Maternal de Pré-Escolar. Está localizada na Rua Uruguai.



f. A Catedral de São Francisco de Paula, importante templo religioso por seu tamanho, por sua beleza e pelas obras de arte que abriga. A história da Catedral tem seu início com a construção da Capela, 1813, pelo Pe. Felício. A imagem de São Francisco, encontrada no interior da Catedral, de autor desconhecido, é originária da Colônia do Sacramento (e consta que estaria em Mostardas, antes de ir para Pelotas). Os afrescos no teto e nas paredes da Catedral foram pintados pelo italiano Aldo Locatelli, que foi para Pelotas a convite de D. Antônio Záttera, 3º bispo da Diocese.

            Deixo claro que, assim como não esgotei a quantidade de homenagens, no Brasil, a São Francisco de Paula (sei que existem capelas dedicadas a esse Santo), também podem existir outras homenagens no município de Pelotas ao seu padroeiro pela forte relação existente entre a população e o Santo que a acompanha desde antes de sua fundação.

            Convido, esta semana, a orarmos pela intercessão de S. Francisco de Paula pela felicidade em cada novo dia. Eu particularmente estarei agradecendo pela minha vida e pela vida de minha filha, pois desde o nascimento estamos sob a proteção desse Santo.


===================================

ORAÇÃO A SÃO FRANCISCO DE PAULA



Ó glorioso São Francisco de Paula

Que tanto vos aprofundastes na humildade,

Único alicerce de todas as virtudes,

Alcançando através dela

Um grande prestígio junto de Deus,

A tal ponto de jamais lhe terdes pedido graça alguma

Que prontamente não vos fosse concedida.

Aqui venho aos vossos pés para suplicar-vos

Extingais do meu coração

Todo afeto de soberba e vaidade

E em seu lugar floresçam

Os Preciosos frutos da humildade

Para que possa ser verdadeiro devoto e imitador vosso

E merecer o grande patrocínio

Que de vossa eficaz intercessão espero

E rogo me Alcanceis de Deus

A graça de que tanto necessito

Não sendo contra a vontade do Altíssimo.

Amém!


===================================

            A música de hoje - São Francisco é Terra Boa - é de autoria de Adelar e Honeyde Bertussi e a interpretação é do grupo Os Tiranos, de São Francisco de Paula.
 
 
 
             Por aqui, encerro o Oratório desta semana. Um grande abraço e que a Paz de Cristo permaneça conosco!
 
Wilmar Machado

segunda-feira, 28 de março de 2011

PROSA DE DOMINGO - ELIS ALÉM DO TEMPO

Amigas e Amigos,

            Para quem, como eu, acredita que nossa cultura, tão pouco valorizada ou incentivada por nossos governantes e políticos, é de interesse da maioria dos brasileiros, o portal ClicRbs (http://www.clicrbs.com.br), no caderno Donna, traz uma auspiciosa notícia. A material desperta a atenção dos ouvintes para o redescobrimento, no Brasil, da obra de Elis Regina.


 
            Inicialmente, a matéria diz que não se trata de uma iniciativa “amarrada”, mas de um conjunto de iniciativas isoladas que se aproximam, dando idéia de fazerem parte de uma estratégia orquestrada. Sobre a primeira iniciativa, diz a matéria que:
Em conversas com João Marcello Bôscoli, produtor musical e um dos filhos da cantora, a gravadora Universal já tem acertado para 2012 o relançamento dos 21 álbuns que Elis gravou pela companhia. Eles sairão em CDs individuais remasterizados e em duas caixas de luxo, com mais um CD de raridades cada.

 
            A referência feita na matéria a segunda iniciativa, traz o seguinte conteúdo:
Uma 'operação Elis', com um documentário de seis horas de duração, exposição, biografia e shows da filha de Elis, Maria Rita, por cinco cidades do País, compõem um projeto maior, chamado "Redescobrindo Elis". Uma captação aprovada pelo Ministério da Cultura permite a João Marcello captar até R$ 5,8 milhões com patrocinadores para as investidas, programadas para o segundo semestre de 2012.

 
            Em seguida, a matéria destaca que:
O fotógrafo Paulo Kawall, 'apadrinhado' por Elis aos 21 anos e que se tornou uma espécie de retratista oficial da cantora, anda por São Paulo com dois livros pesados em busca de patrocínio. São fotos exclusivas que Paulo tirou da artista, muitas vezes a pedido da própria, entre 1976 e 1982, em formatos gigantes para os padrões de livros assim - 30 cm por 40 cm.

 
            E, nessas iniciativas que parecem combinadas entre si, a matéria ainda traz mais uma iniciativa:
O mergulho mais profundo de "Redescobrindo" Elis está nas mãos do paulista Allen Guimarães, 44 anos. Em 2005, o então estudante de cinema em Uberlândia passou a seguir os rastros de quem quer que tivesse algo interessante a dizer sobre Elis Regina. Entrevistou quase 50 pessoas, dentre elas Gal Costa, Gilberto Gil, Marília Pera, André Midani, Milton Nascimento, Nelson Motta e Jair Rodrigues. Uma cena retirada daqui, uma fala a menos ali, e restaram ainda seis horas de imagens, [...] sua exibição será apenas durante a exposição de Elis, em local ainda não definido. Dividido em seis partes de uma hora cada, o documentário não faz buscas na vida particular de Elis, a não ser nos momentos citados pelos próprios entrevistados. Mas uma das 'Elises' que ele traz é surpreendente.
            Elis foi, e é, maravilhosa para a Música Brasileira. Essa homenagem, praticamente coordenada pelo João Marcelo, é uma forma de dizermos obrigado por tudo que a “pimentinha” fez pela música com tanta paixão. Acima de tudo, pode-se afirmar que os grandes beneficiados pelas iniciativas que acontecerão seremos nós mesmos, tendo à disposição uma obra com conteúdo riquíssimo.

            Uma das músicas mais tocada no programa Canto da Terra é Romaria, que mereceu tantas regravações, mas hoje, aqui, nós vamos ouvir a primeira gravação, que foi feita por Elis Regina.


             Um grande abraço para todos!

Wilmar Machado