sexta-feira, 27 de abril de 2012

GALERIA SERTANEJA – UMA LAMBANÇA E A ÚLTIMA LEMBRANÇA



Não existe outra via para a solidariedade humana

senão a procura e o respeito da dignidade individual.

(Pierre Lecomte Du Nouy)





Amigas e Amigos,


A bandidagem começa a ultrapassar todos os limites imagináveis. Ou talvez a máxima de que ladrão não rouba ladrão esteja sendo respeitada em toda sua amplitude, pois como entre os ricos está cada vez mais difícil identificar quem não esteja envolvido em algum “esquema”, os bandidos, na dúvida, estão buscando vítimas entre os mais pobres.


A matéria do portal G1 sobre um assalto a garis, no horário de trabalho, na Bahia é, no mínimo, chocante. Diz a notícia que:
Três garis que faziam a coleta de lixo na noite de quinta-feira (26) na cidade de Feira de Santana, a cerca de 100 km de Salvador, foram roubados por homens armados que cercaram o caminhão de lixo. Os suspeitos levaram dinheiro e pertences dos garis e do motorista do caminhão. O assalto ocorreu no Conjunto Feira Nove. De acordo com testemunhas, seis homens armados cercaram o caminhão de lixo e saquearam os garis. “Quando o condutor estava parado e os coletores estavam coletando o lixo, apareceram os bandidos do nada, eram seis bandidos fortemente armados, tinha um com escopeta, dois com um 38 [revólver], tinham dois com pistola”, afirmou uma testemunha que prefere não ser identificada. Segundo o delegado Ricardo Brito, chefe da Polícia Civil em Feira de Santana, o caso foi registrado na Delegacia de Furtos e Roubos da cidade. Por causa do assalto, parte da coleta não pôde ser feita na quinta-feira. O gerente operacional da empresa de coleta disse nesta sexta-feira (27) que os funcionários estão receosos de trabalhar nos bairros onde a violência é maior, e que já pediu providências à prefeitura da cidade. “Pra gente acionar toda vez que for necessário, a Guarda Municipal e a Polícia Militar para proteger os nossos funcionários”, disse Rodrigo Lopes, gerente da empresa de coleta de lixo de Feira de Santana. Segundo a Secretaria de Serviços Públicos do município, esta não foi a primeira vez que uma equipe de agentes de limpeza foi agredida. Em 2012, outras quatro situações de violência já foram registradas contra agentes durante o trabalho. A comunidade ficou assustada. “Eu acho um absurdo, nem os garis mais estão se livrando”, afirma a manicure Sandra Silva.



         Fico imaginando como os seis marginais repartiram a “féria” arrecadada junto a três empregados encarregados da coleta de lixo em Feira de Santana. Faz-se cada vez mais urgente uma resposta de quando este país deixará de tratar bandidos com tantas regalias, pois para esses tipos a grande motivação para o crime está na impunidade ou na certeza de que, mesmo recebendo pena máxima, passarão pouco tempo detidos, e, nesses períodos, serão sustentados pelos exagerados impostos cobrados de cada cidadão brasileiro.

          Como essa postagem é de Galeria Sertaneja, é necessário que, mesmo pensando nas “facilidades” oferecidas para a bandidagem, se separe um momento para um bom momento poético e musical. Para isso, a música escolhida hoje é de Luiz Meneses – poeta, autor, radialista, produtor e apresentador de TV, que nasceu em Quaraí-RS e morreu em 2005 – e tem por título “Última Lembrança”, com a letra logo abaixo.


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ÚLTIMA LEMBRANÇA

                                  Luiz Meneses


Eu hei de amar-te sempre, sempre além da vida


Eu hei de amar-te muito além do nosso adeus


Eu hei de amar-te com a esperança já extinguida


De que meus lábios possam ter os lábios teus.



Quando eu morrer permita deus que nesta hora


Ouças ao longe o cantar da cotovia


Será minh'alma que num canto triste chora


E nessa mágoa o teu nome pronuncia.



Eu viverei eternamente nos cantares


Dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho


Eu viverei para a glória dos pesares


Onde quase sucumbi nos teus carinhos.



Eu viverei no violão que a noite tomba


Ante a janela da silente madrugada


Eu viverei como uma sombra em tua sombra


Como poesia em teu caminho derramada.



Eu viverei eternamente nos cantares


Dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho


Eu viverei para a glória dos pesares


Onde quase sucumbi nos teus carinhos.



Nem mesmo o tempo apagará nossos amores


Que floresceram de uma ilusão febril e mansa


Eu viverei como uma sombra em tua sombra


Mas te levando em minha última lembrança.



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Nessa Galeria, a interpretação dessa valsa de Luiz Meneses é do grupo Os Fagundes, com destaques para as vozes de Neto Fagundes e Ernesto Fagundes.



         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA – O BEM, O MAL E O BAR DE FRUTAL



Arrogância: 

tendência para dominar os outros
para além dos próprios e legítimos direitos e méritos.
(João Paulo II)




Amigas e Amigos,


         No portal Folha.com encontrei uma matéria sobre o arquivamento de um processo que poderia averiguar indícios de corrupção envolvendo a prefeitura de Frutal-MG. Nada sei sobre a postura ética dos envolvidos nos supostos esquemas, mas me chamaram a atenção alguns aspectos – aparentemente exagerados – sobre a forma como os suspeitos e seus simpatizantes reagiram a notícias de rejeição da proposta de instaurar uma Comissão Processante.



        A matéria da Folha informou que:
Depois de a Câmara de Frutal (600 km de Belo Horizonte) arquivar na segunda-feira (23) dois pedidos de investigação de supostos esquemas de corrupção na área da saúde, o secretário responsável pela pasta, José Plínio dos Reis, chegou ao bar onde a decisão era comemorada de modo pouco tradicional: dirigindo uma ambulância. A Folha teve acesso a uma foto feita a partir de um telefone celular, que mostra o secretário no bar, de braços erguidos, com uma ambulância ao fundo. O fato foi confirmado à Folha pelo próprio secretário, que afirmou ter parado no local para "cumprimentar o pessoal". No início de abril, uma CEI (Comissão Especial de Investigação) denunciou um suposto esquema de desvio de dinheiro público envolvendo a prefeitura e duas fundações ligadas à área da saúde. Segundo a denúncia, a prefeita Maria Cecília Marchi Borges (PR) tinha conhecimento do caso. A prefeita também é acusada, desta vez pelo Ministério Público de Minas Gerais, de ter prevaricado ao não dar andamento regular aos processos movidos pelo município de Frutal contra seu marido e ex-prefeito, Luiz Antônio Zanto. Os dois pedidos de instauração de Comissão Processante não conseguiram maioria absoluta, em votação ocorrida na Câmara nesta segunda-feira (23), tendo sido arquivados. O secretário José Plínio dos Reis afirmou que dirigiu a ambulância anteontem de Belo Horizonte até Frutal e que a estacionou em frente ao bar, localizado ao lado da prefeitura, apenas por alguns instantes. "Na hora em que eu cheguei, estacionei, cumprimentei o pessoal e disse: 'eu vim trazer esta ambulância de Belo Horizonte'", afirmou. Segundo ele, que qualificou o encontro como "uma coincidência", a ambulância ficou em frente ao bar por poucos instantes. "Foi só o tempo de descer do carro e cumprimentar as pessoas. Logo em seguida, eu a estacionei dentro da prefeitura", afirmou o secretário, segundo quem a foto foi feita por pessoas "da oposição".


A denúncia de uma quantidade considerável de ilícitos deveria ser motivo para que os envolvidos como suspeitos de tais práticas buscassem formas de elucidar os cidadãos daquele município para dirimir todas as dúvidas sobre irregularidades no exercício de funções públicas. No lugar disso, o que se viu foi uma comemoração ostensiva, onde uma ambulância participa da “festa” como a demonstrar falta de preocupação com opiniões contrárias.

As declarações publicadas na matéria também dão idéia de que poderia estar sendo caracterizado um eventual desprezo para com a inteligência dos próprios eleitores daquele município. Esta hipótese esta associada, ainda, a publicação feita pelo jornalista Rodrigo Portari, de Frutal, que escreveu em seu site um comentário sobre o que chamou de “espetáculo armado na Câmara de Frutal, mais parecido com um verdadeiro circo” dizendo:
o que mais me preocupou nesse contexto, foi a cena que vi ontem em frente ao Bar do Gato. Pessoas ligadas à administração (inclusive médicos que viram seus nomes envolvidos na CEI) “comemoravam” o arquivamento das Processantes e, ao lado, uma mesa formada por jornalistas e pessoas de oposição. Em dado momento, uma ambulância, tocando sirene em “alto e bom som” chega até ao Bar do Gato, encosta ao lado da mesa e, dela, desce um médico também comemorando os arquivamentos. Essa foi a cena que gerou, pelo menos nesse articulista, um mal-estar enorme, digno de embrulhar o estômago. Cada um tem o direito de comemorar, mas utilizar uma ambulância para esse fim… é passar dos limites. Só me resta rezar para que o final do ano não seja marcado por extravasos como este que vi ontem. Sob pena de toda a cidade ser seriamente castigada.

         Esse acontecimento em Frutal-MG pode servir para que se pense sobre os relacionamentos entre os poderes constituídos, em todos os seus níveis – municipal, federal e estadual – que cada vez mais se revestem de arrogância como se estivessem acima da lei ou da avaliação dos cidadãos que representam. Como atos reprováveis tornam-se cada vez mais corriqueiros, acordos escusos passam a freqüentar com desenvoltura essas rodas de “negociações”.

         No decorrer da reflexão que possa surgir a partir dessas notícias, recomendo a leitura de outro conto recolhido por Câmara Cascudo (que fez parte da Tertúlia Nativa da última semana) sobre como pagar bem-feitos e malfeitos. No livro “Contos Tradicionais do Brasil”, C. Cascudo diz ter ouvido esse conto quando ainda era menino, em Natal-RN, e novamente lhe foi repetido no Recife-PE, quando estudava Direito.

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O BEM SE PAGA COM O BEM

                                                                  Luís da Câmara Cascudo


A onça caiu numa armadilha preparada pelos caçadores e, por mais que tentasse escapar, ficou prisioneira. Resignara-se a morrer, quando viu passar um homem. Chamou-o e lhe pediu que a libertasse.


— Deus me livre — disse o transeunte. Se você ficar solta, devorar-me-á.


A onça jurou que seria eternamente agradecida, então o homem desatou as cordas que seguravam a tampa do alçapão e ajudou a onça a deixar a cova. Logo que esta se encontrou livre; agarrou seu salvador por um braço, dizendo:


— Agora você é o meu jantar.


Debalde o homem pediu e rogou. A onça, finalmente decidiu:


— Vamos combinar uma coisa. Ouvirei a sentença de três animais. Se a maioria for favorável ao meu desejo, comê-lo-ei.


O homem aceitou e saíram os dois. Encontraram um cavalo, velho, doente, abandonado. A onça narrou o caso. O cavalo disse:


— Quando eu era moço e forte trabalhei e ajudei o homem a enriquecer. Qual foi o meu pagamento? Largaram-me aqui para morrer, sem um auxílio. O bem só se paga com o mal.


Adiante depararam com um boi. Consultado, opinou pela razão da onça. Contou sua vida de serviços ao homem e, quando julgava que ia ser recompensado, soube que fora vendido para ser morto e retalhado pelo açougueiro. O bem só se paga com o mal.


O homem, triste, acompanhava a onça que lambia o beiço, quando viram um macaco. Chamaram o macaco e pediram o seu parecer. O macaco começou a rir. A onça ia-se zangando:


— Por que tanta risada, camarada macaco?


— Não é fazendo pouco, — explicou o macaco — é que eu não acredito que o homem caísse na armadilha que ele mesmo preparou.


— Ela não caiu. Quem caiu foi eu, — contava a onça.


— Foi você? Então como é que esse homem fraquinho pôde libertar um bicho tão grande e forte como a camarada onça?


A onça, despeitada pelo macaco julgá-la mentirosa, foi até o alçapão e saltou para o fundo do fosso, gritando lá de baixo:


— Está vendo? Foi assim!


Mais que depressa o macaco empurrou o engradado de varas pesadas que fazia de tampa e a onça tornou a ficar prisioneira.


— Camarada onça - sentenciou o macaco — o bem só paga com o bem. E como você fez o mal, receba o mal.


E se foi embora com o homem, deixando a onça para morrer de fome na armadilha.



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         A música escolhida para esta Tertúlia é "A Palavra Ladrão", do saudoso compositor, de Itápolis-SP, José Fortuna, com a dupla de irmãos Zé Fortuna (José Fortuna) e Pitangueira (Euclides Fortuna).


 



Um grande abraço e até a próxima!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

ORATÓRIO CAMPEIRO – O EVANGELISTA E A COMISSÃO DE JURISTAS



Entraram em Cafarnaum.
No sábado, Jesus foi à sinagoga e pôs-se a ensinar.
Todos ficaram admirados com seu ensinamento,
pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas.
(Marcos 1,21-22)




Amigas e Amigos,

         Por tudo que leio e escuto sobre a prática de ilícitos em nosso país, tenho cada vez mais clara a opinião de que não nos faltam leis, mas aplicação de leis. A possibilidade de pequenas penas ou a certeza de impunidade levam a um crescimento da desobediência a  leis como a observada nos noticiários de cada dia.
        
         A Folha de São Paulo noticiou em seu portal na última segunda-feira que:
A comissão de juristas que prepara anteprojeto da reforma do Código Penal no Senado aprovou nesta segunda-feira (23) a criminalização do enriquecimento ilícito. Significa que devem responder na Justiça os servidores, juízes ou políticos, por exemplo, que não puderem comprovar a origem de valores ou bens, sejam eles móveis ou imóveis. A previsão de pena varia de 1 a 5 anos. Além disso, o bem deverá ser confiscado. Para o relator da reforma, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, trata-se de 'um momento histórico na luta contra a corrupção no Brasil'. "Criminalizamos a conduta do funcionário público que enriquece sem que saiba como. Aquele que entra pobre e sai rico", afirmou. Segundo Gonçalves, não há qualquer previsão desta natureza hoje no Código. "O país está descumprindo tratados internacionais contra corrupção, que determinam a criminalização. Estamos levando essa proposta para o Senado e os representantes do povo vão discuti-la", completou. O texto prevê ainda que a punição seja aumentada em metade ou dois terços caso a propriedade ou posse seja atribuída a terceiros. Caso se prove também o crime que deu origem ao enriquecimento, como corrupção ou sonegação, por exemplo, o réu deixa de responder por enriquecimento ilícito e passa a responder pelo outro crime, que, em geral, tem a pena mais alta. A mudança do anteprojeto de reforma do Código Penal deve ser entregue até o fim de maio para votação do Senado. Em seguida, as modificações serão apreciadas pela Câmara dos Deputados.

         Com esse “momento histórico na luta contra a corrupção no Brasil” (conforme a matéria), vislumbro como grande mudança nas atitudes dos infratores a possibilidade de uma nova preocupação para seus advogados, que lhes poderão exigir maior remuneração por conta das novas penas estipuladas. Como o “enriquecimento” favorece o pagamento, o problema para o relacionamento dos meliantes com seus defensores estará praticamente resolvido.

         Se a infração for praticada por um parlamentar, a situação será simplificada, pois não haverá necessidade da contratação de defensores. Nesses casos, uma CPI se arrastará por longo tempo até concluir que não tem qualquer conclusão e o caso será encerrado.

         Pelo exposto, pode-se concluir que “o momento histórico” marca a criação de mais uma lei. E só! Veio-me ao pensamento que Deus precisou de apenas 10 leis para dar origem a um grande número de religiões que até hoje se submetem a essas mesmas leis e fiquei imaginando o que poderia ter acontecido se Ele tivesse solicitado a uma comissão de apóstolos juristas a criação de leis para os homens – talvez, continuassem criando leis até hoje sem qualquer resultado prático.

         Neste dia 25 de abril, celebra-se a Festa de São Marcos, o evangelista responsável pelo chamado segundo evangelho – apesar de ser o primeiro a ser escrito –, o mais curto e com uma abordagem especial da paixão de Jesus. Marcos, ou João Marcos, escreve para mostrar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, a Boa Nova que Deus encaminha para todos nós.

São Marcos

         Como sugestão para esta semana, pode-se invocar a intercessão de São Marcos pelos que criam e aplicam leis neste nosso Brasil para que verdadeiramente tenhamos leis que nos permitam – como cidadãos – uma vida com qualidade.
        
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ORAÇÃO A SÃO MARCOS EVANGELISTA

Ó Deus,

Que concedestes a São Marcos,

Vosso evangelista,

A glória de proclamar a Boa Nova,

Dai-nos assimilar de tal modo seus ensinamentos,

Que sigamos fielmente os caminhos do Cristo,

Que convosco vive e reina

Na unidade do Espírito Santo.

Amém!

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         A música escolhida para este Oratório Campeiro é de Zé Vicente, interpretada pelo próprio Zé Vicente, "Pão em Todas as Mesas", nos chamando a uma reflexão sobre o tempo Pascal que estamos experimentando.


 


Um grande abraço e até a próxima!


sábado, 21 de abril de 2012

GALERIA SERTANEJA - DA TERRA NASCERAM GRITOS



O mundo tornou-se perigoso,
porque os homens aprenderam a dominar a natureza
antes de se dominarem a si mesmos.
(Albert Schweitzer)



Amigas e Amigos,

A esperança nessa longa novela associada ao Código Florestal é de que alguns dos envolvidos pensem efetivamente no meio ambiente acima de quaisquer outros interesses, mesmo entendendo que apoios para eleições e a atração por cargos públicos possam influenciar alguns dos responsáveis pelo assunto.

No portal Terra, ontem, podia-se ler que o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto, disse que relatório do Código Florestal é “retrocesso”, o que poderia levar seu partido a obstrui a votação do relatório substitutivo ao novo Código Florestal, marcado para a próxima terça-feira. A matéria do referido portal informa que Tatto teria dito que:
"O PT não vai aceitar. Vamos manter a posição de votar o projeto do Senado, que permite a recuperação de áreas degradadas e tem política para garantir a produção agrícola", observou. Segundo o deputado, outra possibilidade seria votar separadamente todas as modificações feitas por Piau em relação ao texto que veio do Senado e garantir, dessa forma, a votação da proposta como havia sido acordada pelo governo e pelos partidos da base aliada. O PT deverá se reunir na própria terça-feira para decidir como agir. Tatto disse que o partido poderá votar contrariamente ao texto, cabendo à presidente Dilma Rousseff a decisão de vetar ou não pontos da proposta. Apresentado na quinta-feira, o substitutivo de Piau elimina a definição das faixas de áreas de preservação permanente (APP) com atividades produtivas a serem recuperadas para todos os tamanhos de rios. Tanto o texto aprovado na Câmara quanto no Senado estipulam que, para cursos d'água com até 10 m de largura, os produtores rurais devem recompor 15 m de vegetação nativa. No total, Piau fez 21 alterações no texto vindo do Senado. Como já havia anunciado anteriormente, o relator também suprimiu do projeto a definição de APPs em áreas urbanas, incluídas pelo Senado. Pelo texto aprovado pelos senadores, as áreas de expansão urbana deveriam prever 20 m² de vegetação por habitante.

         O portal Terra já havia informado no dia 19 de abril sobre a retirada de parte polêmica do texto do Código Florestal, dizendo que:
Em seu parecer divulgado nesta quinta-feira, o relator do Código Florestal, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), decidiu deixar a polêmica regularização de ocupações em áreas de preservação ambiental em margens de rios para posterior regulamentação dos Executivos federal e estaduais. Ao falar sobre o relatório, o deputado reconheceu que não conta com o apoio do governo, que defende o texto aprovado no ano passado no Senado. A questão mais controversa do código trata da chamada consolidação de Área de Preservação Permanente (APP) - regiões de proteção ambiental ao longo de cursos d'água, encostas e topos de morro. Ruralistas defendem a regularização de áreas desmatadas antes de 2008, enquanto ambientalistas não admitem flexibilização nas regras de proteção. As divergências em torno desse ponto resultaram na retirada de todas as referências à consolidação de APPs em margens de rios do texto. Fica para o Executivo a tarefa de definir as regras de regularização nessas áreas, por meio de um Programa de Regularização Ambiental (PRA), cujas diretrizes gerais serão determinadas pelo governo federal, enquanto as especificidades ficarão a cargo dos Executivos locais. [...] O relator ressaltou que a ausência de exigências nas margens de cursos d'água refere-se apenas às propriedades que precisam ser regularizadas. Para as propriedades consideradas regulares, no entanto, fica valendo a exigência da APP, que varia de 30 m a 500 m, dependendo da largura do rio. Piau também rejeitou o primeiro artigo do projeto, redigido por senadores, que define princípios da nova lei mais voltados à questão ambiental, o que provocou o temor de parlamentares ligados ao agronegócio de que poderia embasar interpretações jurídicas restritas. Para o relator, a manutenção do artigo do Senado poderia causar "uma insegurança jurídica, uma interpretação para o futuro que não é conveniente". O Planalto defendia que o texto produzido no Senado passasse pela Câmara sem ser alterado. Segundo Piau, também não há acordo entre os deputados, o que irá causar uma "batalha" no plenário. [...] A atualização das regras ambientais está em discussão há mais de uma década. Em maio do ano passado, a Câmara aprovou o projeto do novo Código Ambiental e o enviou ao Senado. Em dezembro, os senadores aprovaram um novo texto, após intensas negociações com o governo. Resta aos deputados chancelar ou negar as modificações produzidas pelos senadores, antes que a matéria siga à sanção presidencial. A presidente Dilma Rousseff já afirmou que vetará qualquer ponto que considerar prejudicial ao ambiente.

         Em meio a toda confusão, fica a expectativa de que a presidente considere o meio ambiente acima de qualquer conchavo ou de interesses pessoais de alguns políticos. O que é mais difícil de entender é como um assunto tão importante para o Brasil e para os brasileiros circula pelos corredores do poder há mais de 10 anos.



          Para completar essa reflexão ecológica, a música escolhida para esta Galeria Sertaneja é “Da Terra Nasceram Gritos”, de Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, cuja letra está publicada logo abaixo.

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DA TERRA NASCERAM GRITOS
                                       Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun

Mataram meus infinitos
E me expulsaram dos campos;
Da terra nasceram gritos,
Dos gritos brotaram cantos!


E me fiz canto de tropeiros e ervateiros
Rasgando sulcos, com arado e saraquá;
Nas alpargatas dos "quileiros" e "chibeiros",
Andei as léguas de Corrientes e Aceguá!


Meu canto é rio, meu canto é sol, meu canto é vento.
Eu tenho berço, eu tenho pátria, eu tenho glória.
Eu só não tenho terra própria porque a história
Que eu escrevi, me deserdou no testamento!


Entretanto – bem ou mal – não  me emociono,
Com os que combatem as verdades do meu canto;
Sem ter direito de comer nem o que planto,
Só não entendo é tanta terra e pouco dono!


Mas mesmo assim, tenho pra dar um outro tanto,
Se precisarem do meu sangue noutra guerra;
Mesmo sem terra, hei de voltar grito de terra,
Pelo milagre das espigas do meu canto!



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A interpretação de hoje para “Da Terra Nasceram Gritos” é de Cenair Maicá.

 



Um grande abraço e até um próximo encontro!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA - DOM LOBO E O DIPLOMATA


O que o povo chama vício é eterno;
o que chama virtude, é apenas moda.
(George Bernard Shaw)




Amigas e Amigos,

O ministro das Relações Exteriores, Patriota, disse ontem que o Brasil pedirá esclarecimentos à Embaixada do Irã sobre a suspeita do abuso de crianças realizado por um diplomata daquele país. Com essa “ameaça” toda, a Embaixada do Irã demonstra estar “preocupadíssima” com a anunciada interpelação, pois, segundo já está sendo falado, o diplomata suspeito de pedofilia (ou seria o pedófilo suspeito de diplomacia) já nem está mais em território brasileiro.

         Além disso, no melhor estilo corporativista e inspirado em políticos brasileiros acusados de corrupção, a Embaixada Islâmica referida já disse que tudo é um mal entendido e que a culpa é da Imprensa. E enviou uma declaração à Imprensa com seguinte texto:
Em virtude da difusão de algumas inverdades levantadas sobre atitude de um diplomata da República Islâmica do Irã relacionada às algumas cidadãs brasileiras e em seguida polemizá-la com um tratamento intencional por parte de alguns veículos de comunicação, são necessários os seguintes esclarecimentos para a opinião publica brasileira: Uma das causas mais importantes é a falta de conhecimentos sobre as virtudes e as diferenças entre as culturas e o mal entendimento e as suas consequências decorrentes que isso pode causar. Sendo nas demais sociedades estas virtudes e valores relativos, podem provocar dificuldades e uma séria de incompreensão para as pessoas que estão vivendo num ambiente alienígena as suas características culturais. Paralelamente a este tópico, o papel e uma reação midiática não propicia e provocante, pode ajudar ainda a criação do cinismo na sociedade brasileira que possui identidades culturais diferentes, introduzindo uma polêmica gratuita, sobretudo quanto fosse tendencioso politicamente. Estimular a sensação pública, por sua vez irá desviar a atenção para que possa procurar a veracidade dos fatos e causa uma desinformação ainda maior. Essa Missão Diplomática declara que a acusação levantada contra o diplomata iraniano é exclusivamente um mal entendimento decorrente das diferenças nos comportamentos culturais. Nesse sentido também expressamos energicamente o nosso protesto e indignação relativo ao tratamento e na maneira de como a mídia geralmente tendenciosa sobre as coisas relativas a alguns países entre eles o Irã, tem encarado com a cobertura dessa noticia, afirmando ainda que a transmissão do assunto, se demonstra nitidamente um comportamento intencional, propositado e imparcial.

         Penso que se um brasileiro em território iraniano falasse o monte de asneira contra qualquer classe daquele país, como as impropriedades escritas pela missão diplomática conforme acima, o sujeito já seria uma peneira ou teria explodido na forma de bomba humana. Mas por aqui, tudo é permitido, até dizer que não entender um tarado que “bolina” crianças (o que é, segundo eles, uma “virtude”) só pode ser desconhecimento de diferenças de identidades culturais. Desconhecimento, mesmo, é o que a nota, se de fato foi escrita como divulgada, demonstra em relação à língua portuguesa.

         A notícia, que a referida missão diplomática classificou como tendenciosa, foi – segundo o portal G1 – sobre o comportamento de um diplomata iraniano no último sábado. Disse o portal que:
Um diplomata é suspeito de ter abusado sexualmente de crianças e adolescentes no Distrito Federal. Ele teria abordado meninas de 9 a 14 anos em um clube na Asa Sul. O conselheiro de missão diplomática do Irã, em Brasília, tem 51 anos e vive no Brasil desde fevereiro de 2010. A Embaixada do Irã não quis se pronunciar sobre o caso.Testemunhas relataram que o suspeito nadava em uma piscina do clube, na tarde do último sábado (14), quando teria acariciado as partes íntimas das vítimas. Cerca de dez meninas estavam na piscina quando foram abordadas pelo diplomata. As crianças ficaram assustadas e denunciaram o abuso para o salva-vidas, em seguida para os familiares. O pai de uma das meninas, de 11 anos, contou que a filha ficou desorientada, sem saber o que fazer. “Ele mergulhava e passava a mão no peito de uma, nas nádegas de outra, na genitália. E ai elas saíram pra chamar a gente”, disse o pai de uma das vítimas, que não quis se identificar. Um outro pai, de uma adolescente de 14 anos, afirma que o homem só parou de mexer com as meninas depois que a filha começou a gritar. “Estou revoltado. Como um homem mexe com meninas de 9 a 14 anos, que estão se formando, que não tem malícia”, protestou um pai, que também pediu para não ser identificado. O caso foi parar na delegacia. Os pais das crianças registraram um boletim de ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia, mas o conselheiro da embaixada do Irã não pôde ser ouvido e acabou liberado. O delegado Sérgio Ricardo Mattos explicou que o suspeito tem imunidade diplomática.

         Espero que, nesse caso, a justiça não se deite sobre sua injustificada morosidade e busque, com a celeridade exigida, uma definição pela gravidade da situação. Em se comprovando os fatos relatados pelas crianças e por seus pais, além do empolgado diplomata, todos os seus “defensores” que não pensaram muito para publicar a indignada nota “elucidativa” deveriam ser banidos – definitivamente – do país, pois canalhas estão na lista de coisas que não necessitamos “importar”. E o que ministro Patriota continue demonstrando sua preocupação com esse desagradável incidente.



         No folclore brasileiro, também encontramos figuras que se julgam capazes de ignorar os costumes dos lugares em que vivem, pensando ser superiores a tudo e a todos. É o caso de Dom Lobo, personagem de um conto recolhido pelo saudoso folclorista, historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (Natal-RN, 1898 – Natal-RN, 1986). Câmara Cascudo, no livro “Contos Tradicionais do Brasil” (de 1946), diz que esta história lhe foi contada por uma empregada natural de Oeiras-PI,  da qual ele só lembrava o nome – Antônia. Transcrevo abaixo o conto retirado das páginas 306-307, da 18ª edição (Ediouro, 2003).

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AS PERGUNTAS DE DOM LOBO

         Um moço trabalhador e direito morava com sua mãe, labutando pela vida com muita dificuldade. Uma feita disse:

– Minha mãe! Não podemos passar o resto da vida nesta miséria, quase sem ter o que comer. Fique minha mãe com o roçado, as cabeças de ovelhas, e bote sua benção que vou pelo mundo ver o que posso fazer.

A mãe abençoou-o e o rapaz foi-se embora  pelo mundo. Onde chegava, trabalhava uma semana e ia para diante. Tempos depois chegou a um reinado bonito mas sem gente. As ruas limpas de povo, as casas fechadas, tudo calado, sem um choro de menino ou voz de homem, parecia um descampado. O rapaz procurou a casinha de um velho e pediu agasalho. O velho recebeu-o muito bem e deu de cear. Quando estavam comendo o rapaz perguntou por que o reinado era assim triste. O velho explicou que, por mal dos pecados do povo, aparecera ali um homem encantado, de nome Dom Lobo, dono de um palácio, que botara para obrigação comer o coração de uma pessoa todo dia. Pega a criatura e faz três perguntas. Se a criatura responder, pode fazer outras três a Dom Lobo, mas não nasceu ainda esse cristão para adivinhar as perguntas de Dom Lobo. Não responde e Dom Lobo mata e come o coração dos pobres. Por isso é que toda a gente vivia escondida e tremendo de medo.

O rapaz dormiu e na manhã do outro dia saiu para a rua perguntando onde era o palácio de Dom Lobo. O povo ficava espantado com o atrevimento dele mas ensinava. O moço chegou perto de umas pedras grandes e lá em cima estava o palácio que era um monarca de grande, por um portão de ferro. O rapaz tocou-se para o palácio com coragem. Chegou, bateu, e as portas se abriram por si mesmo. O moço enfiou-se por dentro, sobe aqui, desce ali, até que chegou num salão que era uma beleza. Aí apareceu Dom Lobo, um homem alto, forte como um touro, todo cabeludo, com olhos de gato e uns dentes de onça-tigre. Quando viu o rapaz deu uma gargalhada de estrondar o mundo. Falou, com voz grossa de bicho encantado, mandando o rapaz sentar. Depois perguntou:

– Que é que tanto mais velho mais forte fica?

– É o vinho, respondeu o moço.

– Que é que tanto se tira mais fica?

– Água do mar!

– Qual é o lugar onde todos vão e ninguém quer ir?

– O cemitério!

– Acertou, cabra danado! Faça as três perguntas que quiser!

– Quem é que nasceu de uma virgem, batizou-se num rio e morreu numa cruz?

O homão rangeu os dentes como um desesperado porque não podia dizer o santo nome de Jesus Cristo. Deu um estouro que estremeceu tudo e subiu aquela bola de fumaça cobrindo o mundo. Quando clareou, o rapaz estava em cima das pedras. O palácio e Dom Lobo tinham se sumido. O povo estava todo reunido batendo palmas e levou o moço em charola para o rei. Deram uma casa com todos os preparos, fazenda de gado, muito dinheiro. O rapaz mandou uma carrugem buscar sua mãe e viveu muito bem e satisfeito.

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A música escolhida para hoje é de Dalvan, interpretada pela dupla Duduca & Dalvan, com o título "A pequitita", para refletirmos sobre quem este tipo de diplomata molesta.


 


Um grande abraço e até um próximo encontro!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ABRINDO A PORTEIRA – NO DELTA DO PAC TEM CACHOEIRA


 
Todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa.
(Francis Bacon)



Amigas e Amigos,

         Os vários braços do leito de um rio em sua foz formam o que se chama de delta (pelo formato semelhante à letra grega que tem a forma de um triângulo), comum em rios de planícies, onde o acúmulo de areia é mais comum.
        
         Contrariando a definição geográfica, o delta do PAC parece não percorrer os caminhos tranqüilos de uma planície ao permitir aparecer vestígios de cachoeira.

Fonte: Portal AZ; Charge de Izânio

         Segundo o Jornal do Brasil, em sua edição deste domingo, a Delta Construções, que abriu seus cofres em R$ 8,5 milhões para o grupo de Carlinhos Cachoeira – tido como uma espécie de “sócio oculto” da empresa – que, por meio de uma empresa “fantasma”, chamada Alberto e Pantoja Construções e Transportes Ltda, de Brasília, teria encaminhado esse dinheiro diretamente para campanhas eleitorais – caixa dois – segundo a Polícia Federal.

         A empresa Delta Construções, após os “mimos” aos candidatos, conforme matéria do JB:
viu seus negócios florescerem no Rio de Janeiro, onde acumula R$ 1,5 bilhão em obras desde o começo dos anos 2000. O rápido crescimento da empresa no estado gerou suspeitas, sobretudo após a revelação dos laços estreitos com o governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ). Em 2011, a queda de um helicóptero em Trancoso (BA) explicitou a relação íntima do político com o dono da Delta, Fernando Cavendish. No entanto, a força da empreiteira não está restrita ao Rio. Graças ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Delta garimpou um aumento de 2.000%, saindo dos R$ 35 milhões em 2003 para R$ 862 milhões em 2011.

         Pelo menos para a Delta, o programa governamental atinge plenamente seu objetivo de acelerador do crescimento (e que aceleração), fato que poderia levar a uma associação bem orquestrada da Delta com o PAC. E como dizem que o empresário presidiário Carlinhos Cachoeira é uma eminência parda da Delta, poderíamos considerar que, de fato, o Delta do PAC tem Cachoeira.

         Até que tudo comece a ser elucidado, receberemos muitas notícias sobre as pizzas recebidas nas casas do legislativo. E se você acha – como eu – que nada vai acontecer, parece que não estamos sós, pois o senador Pedro Simon, ao se dizer otimista com as averiguações das denúncias contra seu par Demóstenes Torres, afirmou que: “Não esperem nada do Congresso”. Com isso, podemos dormir tranqüilos...

         A música que lembrei para esta Tertúlia é de Jaime Sandoval e José Homero, gravada em 1981 por Carlos Cezar & Cristiano, com o título "Cachoeira".



Um grande abraço e até a próxima!