segunda-feira, 14 de maio de 2012

ABRINDO A PORTEIRA – AMANHÃ PODE NÃO SER LEGAL


Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal.
(Millôr Fernandes)





Amigas e Amigos,

Ao começar o dia hoje, preparado para abrir a porteira para mais uma semana neste mês de maio – das mães e de Maria –, deparo-me, no portal G1, com uma notícia procedente do Triângulo Mineiro sobre um projeto aprovado pela Câmara de Uberaba-MG, ainda não regulamentado, que poderá provocar o fechamento de locais que vendam produtos roubados.



Antes de qualquer comentário, reproduzo a matéria do G1 com o seguinte teor:
Os estabelecimentos comerciais em Uberaba, no Triângulo Mineiro, que forem flagrados vendendo produtos roubados ou até mesmo drogas podem ser fechados. A 'lei da receptação', como é chamada, foi proposta pela Prefeitura e aprovada pela Câmara Municipal por 11 votos a um na última sexta-feira (11), mas ainda depende da regulamentação da Prefeitura, que tem 90 dias. Serão punidos todos os tipos de estabelecimentos que forem flagrados incentivando a atividade ilícita. Se constatada a irregularidade pela fiscalização municipal, um relatório deverá ser encaminhado ao Órgão de Segurança Pública para apuração. A proposta prevê um prazo mínimo de 90 dias de interdição. O secretário do Conselho Municipal de Segurança, Wellington Cardoso, afirmou que será aberto um processo administrativo para cassação do alvará de funcionamento e haverá possibilidade de defesa. "A ideia é realmente dificultar a comercialização de produtos furtados porque obviamente tudo que é furtado volta para o mercado, a menos que seja algo de consumo imediato, e também evitar o tráfico de drogas", explicou o secretário. O secretário também reconheceu que faltam fiscais. Hoje são apenas 32. Wellington disse que conta com o apoio da Polícia Militar e da população para chegar a esse comércio ilegal. "Muitos estabelecimentos funcionam sem o alvará, mas a partir do momento em que se constatar uma irregularidade, que seja caracterizada como crime, é mais um motivo para a Prefeitura agir de imediato para o fechamento do local", contou Wellington. O trabalho da Polícia Militar praticamente não vai mudar. A partir da regulamentação da lei, o comércio que for envolvido em uma em ação criminosa terá o caso investigado pela Prefeitura. "Será feito um atendimento da ocorrência e o encaminhamento para os demais órgãos. Vai nos dar uma segurança maior visto que esse comércio provavelmente não voltará a funcionar", disse o tenente da PM, Ricardo Dolenski. O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Fúlvio Ferreira, aprovou a nova lei. Mas para ele, o projeto só vai funcionar se houver fiscalização. "Acreditamos que quando a lei for cumprida aí sim teremos mais segurança, tanto para os comerciantes que cumprem todas as obrigações quanto para os clientes que vão ter mais segurança ao comprar".

Alguém poderia estar pensando, agora, o que eu poderia ter contra uma proposta para acabar – ou diminuir – a quantidade de locais onde possam ser desovados produtos furtados. E a minha resposta é: “Nada”. Não tenho nada contra a intenção dessa lei que tramita entre os poderes de Uberaba.

Ainda que, conforme afirmei acima, não tenha qualquer objeção às intenções do projeto aprovado em Uberaba, fico preocupado, como cidadão brasileiro, com as demais localidades desse nosso continental país, pois os estabelecimentos comerciais que vendem objetos furtados ou drogas fora de Uberaba permanecerão abertos ao público.

Será esse tipo de ilícito permitido no Brasil pelo Código Penal? Há jurisprudência que permita punir estabelecimentos que se dediquem a atividades ilegais como as previstas no projeto uberabense?

Se as respostas para as duas questões acima forem “sim” e “não” respectivamente, então os poderes da citada cidade do Triângulo Mineiro estarão de parabéns pela iniciativa. Qualquer resposta diferente para alguma das questões poderá ocasionar uma reflexão sobre desperdício de dinheiro público.

De qualquer forma, a motivação para a criação da lei é, conforme a matéria do G1, “dificultar a comercialização de produtos furtados” e “evitar o tráfico de drogas”. Para isso, bastaria que fosse aplicada a legislação vigente, que prevê punições no Código Penal para as duas situações. Pode parecer, então, que por não serem cumpridas as leis – por motivos que podem ser apenas os citados na matéria – esteja sendo criada mais uma lei que, dado os antecedentes, também não deverá ser cumprida.

Será o pensamento do Millôr, na abertura deste post, é mais real do que se poderia imaginar? Com essa dúvida,  vamos ouvir a música escolhida para esta semana que tem por título "Roubaram meu Frischtick", de Bruno Neher, com o grupo "Os Três Xirús".



Um grande abraço e até a próxima!

sábado, 12 de maio de 2012

GALERIA SERTANEJA – RIO DE LÁGRIMAS... E VERBAS PERDIDAS


É mais fácil encontrar quem chore com as nossas tristezas
que quem rejubile com as nossas alegrias.
(Jacinto Benavente y Martinez)






Amigas e Amigos,

Já havia escolhido a música – “Rio de Lágrimas” – para esta Galeria Sertaneja, quando escutei na rádio CBN que o deputado Acelino Popó Freitas usou o seu gabinete político para promoção de um evento pessoal. Fica a impressão de que o mau uso da máquina pública transborda mais do que o rio de Piracicaba.

Esse – talvez não raro – uso indevido do gabinete ficou patente no e-mail oficial do deputado, convidando para a luta de sua  despedida do pugilismo, que acontecerá no cassino Conrad, em Punta Del Este (Uruguai), no próximo dia 2 de junho.




Na página de CBN, na Internet, foi publicado o e-mail enviado às 16h33, do ontem, pelo ex-pugilista e deputado, com o seguinte título: “Dep. POPÓ convida para sua Luta de Despedida”. Abaixo, segue a transcrição do teor do convite (que foi encaminhado com o cartaz do evento):
Olá Amigo,Tenho o prazer de encaminhar o CONVITE ESPECIAL para minha luta de despedida do boxe. Muito me honraria a sua presença.Informo que o meu gabinete estará dando suporte para os interessados em participar do evento. Peço a gentileza de entrar em contato com Wendell ou Alessandra pelos ramais 52576/51576.Gostaria de destacar que à empresa All in Tour é a única responsável pelas hospedagens dentro do próprio CONRAD e estará devidamente preparada para lhe atender.

Acredito que o uso indevido de crase seja o menor problema dentre os que se evidenciam com esse e-mail. Mesmo com toda a informalidade proporcionada pela Internet, um e-mail oficial de um deputado federal tem um apelo mais significativo do que seria conseguido com um e-mail pessoal.

Além disso, o fato dos dois funcionários que, prestando serviços ao gabinete e sendo remunerados com verbas públicas, estarão dando suporte pode significar – pelo extenso período que estarão a disposição do evento pessoal do deputado – que tenhamos nos gabinetes pessoal sem trabalho e ocupando vagas.

Mas a grande preocupação é com a propaganda da empresa de turismo, que foi feita de forma oficial pelo deputado para os que eventualmente queiram acompanhá-lo nessa despedida dos ringues. Segundo informação da própria CBN a empresa não seria a “única responsável pelas hospedagens dentro do próprio CONRAD” como constou no e-mail.

No cartaz da luta que acompanha o convite, aparece uma declaração de Popó, onde a sua luta de despedida é dedicada a “todo o povo brasileiro, que precisa de um ídolo, uma referência”. Mas será que esse ídolo, ou essa referência, que o povo brasileiro precisa pode ser alguém que faz esse tipo de uso do erário?


          A despedida do desportista não mereceria a mancha provocada pelo mau exercício do cargo público, mas as “tentações” propiciadas pelas certezas de impunidade para tais delitos devem ter sido difíceis de resistir.

          A música de hoje, “Rio de Lágrimas”, foi composta nos anos 60 por Lourival dos Santos (1917-1997), Tião Carreiro (1934-1993) e Piraci (1917-1974). Segundo dizia Lourival dos Santos, a inspiração para essa música foi “Marrequinha da Lagoa”, música cantada por Isaurinha Garcia.

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RIO DE LÁGRIMAS
                                  Lourival do Santos, Tião Carreiro e Piraci


O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora.

La na rua onde eu moro só existe uma nascente
A nascente dos meus olhos já formou água corrente
Pertinho da minha casa já formou uma lagoa
Com lagrima dos meus olhos por causa de uma pessoa.

O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora.

Eu quero apanhar uma rosa, minha mão já não alcança
Eu choro desesperado igualzinho a uma criança
Duvido alguém que não chore pela dor de uma saudade
Quero ver quem que não chora quando amar de verdade.

O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora
Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora.



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         Para encerrar a Galeria Sertaneja de hoje, fica a interpretação de “Rio de Lágrimas” com a dupla responsável pela primeira gravação (considerado o maior sucesso deles): Tião Carreiro e Pardinho.





         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – PREFEITO DE ARAQUE


Quando vemos um gigante, temos primeiro de examinar a posição do sol
e observar para termos certeza de que não é a sombra de um pigmeu.
(Friedrich Von Hardenberg Novalis)



Amigas e Amigos,

Notícia de ontem, do portal G1, sobre a aplicação de golpes de um “falso” prefeito que teria aplicado golpe em empresários merece uma reflexão. Não penso que, no contexto apresentado, o crime de estelionato ou a assunção de cargo de maneira fraudulenta possam ser a grande inquietação.


 


Antes de continuarmos as considerações sobre essa temática, penso ser interessante publicar a informação do G1:
O homem, suspeito de aplicar golpes em empresários se passando por prefeito de várias cidades, preso nesta quarta-feira (09) em Bauru, SP, tem uma ficha criminal de mais de 10 metros. Ele já havia sido preso pelo mesmo tipo de golpe em 2006 e respondia em regime aberto quando foi flagrado cometendo o mesmo crime. O homem, de 61 anos, se apresentava como prefeito para donos de construtoras e empresas de pavimentação asfáltica. O golpista mostrava interesse em contratar os serviços, mas, em contrapartida, pedia doações em dinheiro para reformar escolas e creches. “Mas, tudo não passava de um golpe muito bem articulado. Ele sempre pedia para os empresários ligarem no celular dele porque ele estaria em viagem ou compromissos fora, para assim a pessoa não ligar da prefeitura e constatar que era um golpe e não estava realmente falando com o prefeito”, explica o delegado Jader Biazon. Imagens gravadas pela polícia durante as investigações mostram o golpista e seus comparsas sacando, no banco, o dinheiro depositado pelas vítimas. Segundo a polícia, pelo menos 50 empresários de São Paulo, Minas Gerais e Paraná caíram no golpe e doaram entre R$2 mil e R$25 mil. O golpista escolhia empresas que já tinham prestado serviços às prefeituras de grandes cidades, e se passava por prefeito de municípios vizinhos. O mapa feito pela polícia mostra a extensão alcançada pelos golpistas. Na região Centro-Oeste, eles conseguiram tirar dinheiro de empresários de Ourinhos, Marília, Assis e Agudos. Além do golpista que se passava por prefeito, mais três pessoas que faziam parte do esquema foram presas em Bauru e Agudos. Os quatro tiveram a prisão temporária decretada pela Justiça e foram encaminhados para Penitenciária de Pirajuí e vão responder pelo crime de estelionato.

Continuando essa avaliação dos fatos, chama à atenção, em primeiro lugar, a forma dos contatos iniciais com as futuras vítimas. O suspeito, ao se apresentar como prefeito mostrava interesse em contratar as empresas para obras públicas e já sinalizava com a necessidade de alguns “adiantamentos” para reformas na “sua jurisdição”.

Em segundo lugar, a escolha das vítimas, onde eram selecionadas empresas prestadoras de serviços a outras prefeituras, o que aparentemente os suspeitos consideravam com maior probabilidade de “novas oportunidades” serem bem acolhidas.

Como último ponto desta análise, a quantidade de golpes com “sucesso” não foi, aparentemente, muito pequena e a extensa delimitação geográfica de atuação do grupo (os estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná). Esses três estados já foram mapeados, mas podem surgir vítimas de outras regiões no decorrer do processo.

Com todos os fatos considerados, pode-se pensar – com preocupação – sobre a maneira das empresas acostumadas a negociar com prefeituras, no caso as escolhidas pelos suspeitos, “abraçarem” as causas do “pseudoprefeito” como uma prática natural para todos os envolvidos. A equipe das “falsas prefeituras” foi desbaratada (pelo menos até que alguma liminar os coloque novamente na ativa), mas a grande questão é se as “prefeituras de grandes cidades”, conforme aparece na notícia do G1, não mereceriam algum tipo de atenção investigativa a partir do comportamento natural das empresas com essa espécie de propina. Não parece estranho?
Com tanta possibilidade de possíveis ilícitos, a Tertúlia de hoje traz a poesia “Contrabando”, do saudoso poeta e escritor gaúcho Apparício Silva Rillo, onde Nico, um antigo contrabandista – talvez menos perigoso que alguns dos envolvidos nas situações que apareceram acima –, teve um final dramático.

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CONTRABANDO
                                  Apparício Silva Rillo


Vai a barca de farinha
cruzando o velho Uruguai.

Vaqueano dessas cruzadas
vem na popa um índio moço
manejando o varejão.

Vem atento e vem pensando:
Vou deixar do contrabando,
não é vida pra um cristão.
Hoje eu vim porque o menino
deu sumiço na chupeta
e aquele piá trompeta
saiu louco de chorão...

Sorri o moço da popa
porque no bolso da roupa
traz o bico pro piá.

Ouve um tiro, de repente,
vindo da banda de lá!
Foi tiro de sinal.

Já no mais o tiroteio
se acendeu no macegal,
pipocando seco e feio
como entrechoque de guampas
no entrevero do rodeio
no dia em que se dá sal.

Mala suerte!
O barco vinha chegando,
e a carga do contrabando
com mais dez braças de rio,
tinha subido a picada,
da picada pra carreta,
e dai pro caminhão.

Ouve um grito de: – Lá fresca,
o Nico se lastimou!
Mas ninguém botou tenência
no sentido deste grito,
porque a coisa vinha preta
sob o tendal de balaços
que a guarda ajena estendeu.

Cada bala que cruzava
debochava de assobio!

Quando o barco deu no porto
no lado de cá do rio,
o pessoal ganhou o mato,
na picada se sumiu.
O barco ficou sozinho
na madrugada e no rio.

Digo mal: ficou o Nico
sobre um saco de farinha
que um balaço espedaçou.
Tinha um lenço maragato
na brancura da farinha
onde o índio se apoiou.
Foi quando a manhã surgiu,
mostrando o sangue do Nico
pingando dentro do rio...

Menino, cala esta boca,
não demora chega o Nico,
vai-te trazer outro bico
que é pra tu não chorar mais.

Veio a manhã, veio a tarde,
veio a boieira luzir.
Veio a noite grande e morta,
A china veio pra porta,
E nada do Nico vir!

Veio um dia,
mais um dia,
veio outro dia depois.

Ao pé de uma lamparina
vela em silêncio uma china
que de chorar se cansou.
Numa cama de pelego
choraminga sem sossego
um piazito babão.

Choraminga! Choraminga!
...porque o pai não trouxe o bico,
e o que tinha se extraviou...

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         Para encerrar esta Tertúlia Nativa, do saudoso poeta e compositor Luiz Menezes, com Dante Ramon Ledesma - cantor nascido na Argentina e naturalizado brasileiro desde 1978 -, "Milonga do Contrabando".





         Um grande abraço e até a próxima!

terça-feira, 8 de maio de 2012

ORATÓRIO CAMPEIRO – ELABORAR LEIS: TRABALHO OU PASSATEMPO?


Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas!
Pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho,
e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da Lei,
como o direito, a misericórdia e a fidelidade.
Isto é que deveríeis praticar, sem contudo deixar aquilo.
 (São Mateus 23,23)






Amigas e Amigos,

         Depois de ler o Jornal do Comércio, de Porto Alegre, fiquei pensando sobre o exercício do voto. O voto, independente de considerado como um direito ou como um dever, é uma oportunidade de atuação significativa nas decisões no âmbito dos municípios, dos estados e do país.
    
         No entanto, o que se pode aferir após cada nova eleição é que o voto é desperdiçado – talvez por desânimo do eleitor – e essa falta de compromisso acaba se refletindo na atuação dos agentes públicos eleitos. Como exigir comprometimento dos eleitos se os eleitores não se comprometeram com a eleição?

         Foi com o voto que se escreveu algumas das páginas mais nauseabundas da nossa recente história política, recheada de escândalos não resolvidos a partir da reciprocidade oferecida por asseclas dos suspeitos – em alguns casos, um pouco mais do que apenas suspeitos.
        
         Esse comentário surge a partir da coluna “Espaço Vital”, do mencionado Jornal do Comércio, página 27 da edição de hoje, onde se pode ler que:
Entra ano, sai ano e o Brasil continua produzindo leis inconstitucionais. É o que mostra um levantamento feito pelo Anuário da Justiça Brasil 2012. Os números apontam que 83% das leis brasileiras que foram alvo de ações no STF no ano passado acabaram sendo derrubadas. Em 2011, das 79 normas julgadas, 66 foram declaradas inconstitucionais - o número inclui matérias federais e estaduais. O “campeão” é o Estado do Rio de Janeiro, que, no ano passado, viu 100% de suas 13 leis julgadas pelo Supremo serem consideradas inconstitucionais. De acordo com o anuário, produzido pelo saite Consultor Jurídico em parceria com a Fundação Armando Alvares Penteado, os legislativos locais são os campeões no quesito produção de normas que ferem os preceitos da Constituição. O Distrito Federal aparece em segundo lugar no ranking de unidades da Federação que produziram mais legislações ilegais: entre as sete leis distritais apreciadas, seis foram anuladas pelo STF. Uma das normas distritais revogadas pelo STF é a Lei n° 3.769/06, que proibia o GDF de realizar processo seletivo para a contratação de estagiários. No julgamento, realizado em fevereiro de 2011, os ministros avaliaram que a lei feria os princípios da impessoalidade e da igualdade, uma vez que, segundo eles, o “tratamento igualitário” só pode ser promovido por meio de seleções públicas.

         Cada uma dessas leis declaradas inconstitucionais, conforme a matéria acima, consumiu significativo número de horas de trabalho de legisladores – talvez não capacitados para esse exercício – que foram remuneradas com dinheiro público. Essa lesão ao patrimônio público por ação – ou omissão – dos legisladores não deveria ser passível de ressarcimento por parte dos que se envolveram com essa negligência?

         O fato de perder tempo com a elaboração de leis inconstitucionais parece, em princípio, constituir ato de improbidade administrativa. Em sendo, deveriam todos os agentes públicos eleitos, envolvidos na lesão ao erário, serem responsabilizados e julgados por isso. A Lei nº 8.429, de 2/06/92, que dispõe sobre as sanções aplicáveis a esse tipo de irregularidade, prevê em seu Art. 12, o ressarcimento integral do dano, o pagamento de multa civil de até duas vezes o valor do dano, a perda da função pública e a suspensão dos direitos políticos por determinado período.

         Por tudo que foi exposto, penso que não é somente o pouco valor dado ao voto que gera tanta incompetência entre uma parte de nossos eleitos. Parece que o “esquecimento” de leis que podem amenizar a incompetência e valorizar o efetivo trabalho dos legisladores funcionam, também, como motivadores para esse tipo  de passatempo, onde o tempo é desperdiçado com o faz de conta que se produz uma lei.

         Improbidade administrativa não prevê punições de caráter penal, o que deixa eventuais culpados dispensados de invocar o santo desse dia 8 de maio: São Vítor, o Mouro – o padroeiro dos prisioneiros.

         Hoje, também, se comemora mais um título da Virgem Maria. Ela é celebrada como Nossa Senhora de Lujan, a Padroeira da Argentina, cuja devoção remonta ao ano de 1630, quando duas imagens da Imaculada Conceição foram levadas de São Paulo para a Argentina. Próximo ao rio Lujan – cerca de 70 km. de Bueno Aires –, a caravana não consegui prosseguir e o local acabou dando origem a um espaço de devoção à Virgem.

                                                                                  Nossa Senhora de Lujan

         A sugestão para esta semana é nos dirigirmos à Virgem de Lujan para que ela ilumine nossos legisladores nas tarefas inerentes aos seus cargos, lembrando-os de que mandato não deve ser confundido com emprego e que remuneração justa não está atrelada a salários estratosféricos.
        
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ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DE LUJAN

Ó Virgem Santíssima de Lujan!
A ti recorremos neste vale de lágrimas,
Atraídos pela fé e pelo amor
Que tu mesma infundiste em nosso coração.

Ó Mãe querida!
Alivia a nossa dor,
Consola as nossas angústias,
Dá-nos o pão material e o alimento espiritual
Para fortalecer o nosso corpo e a nossa alma.
Faze com que não nos falte
Um emprego estável e uma justa remuneração.
Elimina o ódio e o egoísmo
Do coração de todos os homens.

Virgem Santíssima de Lujan!
Ilumina o nosso caminho para que,
Unidos na paz e fraternidade,
Com todos os irmãos da terra,
Continuemos a marcha gloriosa para a casa do Pai.

Abençoa, ó Mãe,
A Argentina e o Brasil,
Cujos filhos cantam os teus louvores,
Agora e pelos séculos dos séculos.
Amém!

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         A música escolhida para este Oratório Campeiro é "Ave Maria da Minha Infância", do Padre Zezinho, interpretada pela Joanna.



Um grande abraço e que a Paz de Cristo permaneça conosco!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ABRINDO A PORTEIRA – TRÂNSITO PARA INGLÊS VER


Todas as culturas se fundam mais sobre preconceitos do que sobre verdades.
(Friedrich Durrenmatt)





Amigas e Amigos,


         Comecei o dia, hoje, escutando rádio – é um jeito de começar uma nova jornada que muito me atrai pela afinidade que tenho com esse meio de comunicação – e, entre os primeiros registros locais (em Brasília), foram noticiados diversos pontos de congestionamento com atraso em deslocamentos para trabalho e escolas, principalmente.

         Ainda no decorrer da manhã, ao ler algumas notícias no portal “Folha.com”, chamou minha atenção o tamanho das filas de carros e a lentidão do trânsito no início deste dia, em São Paulo. Dizia o referido portal que:
O trânsito piorou na cidade de São Paulo e já chegava aos 143 km de filas às 9h desta segunda-feira. O índice era o segundo maior registrado no período da manhã neste ano, ficando atrás apenas dos 168 km registrado às 9h30 do dia 27. A lentidão das 9h de hoje corresponde a 16,2% dos 868 km de vias monitoradas. A média para o horário é de 13,1%. A pior região era a zona sul, com 55 km de filas, segundo dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). A causa do elevado índice ainda não foi divulgado pela companhia. A via mais congestionada era a marginal Pinheiros, com 9,3 km de retenção na pista expressa, no sentido Interlagos. O problema ia da Castello Branco até a ponte Cidade Jardim. Houve um bloqueio parcial na via mais cedo, na altura da avenida do Morumbi, devido a acidente, mas já estava liberado no horário. A Radial Leste também registrava lentidão, com 4,7 km de filas no sentido centro, desde o viaduto Pires do Rio até a rua Wadenkolk. O problema era resultado da grande quantidade de veículos. Segundo o serviço da empresa MapLink, usado pela Folha, a cidade tinha 385 km de filas no horário.

         Pensei, por um momento, nas pessoas que passavam pelo drama de serem vítimas do sistema de circulação de veículos em São Paulo. Fiquei imaginando o que poderia ser feito havendo necessidade de algum deslocamento mais urgente por qualquer motivo – mais preocupante ainda seria se o motivo fosse a vida de alguém. Guardadas as proporções, as vítimas de Brasília também passavam por grande desconforto de não conseguir chegar até seus compromissos no horário planejado, provavelmente já imaginando alguma desculpa pelo atraso, que se torna cada vez mais freqüente na capital brasileira.

         Acredito que a situação nas metrópoles brasileiras não seja muito diferente das acima descritas, com diferenças apenas na intensidade de cada evento. Parece que com o passar do tempo, o exotismo da situação vai desaparecendo, tornando o congestionamento algo que deve fazer parte da experiência diária de cada um.



         Mas volto novamente às pessoas que, absolutamente impotentes, são vítimas dos congestionamentos – diários ou freqüentes – para pensar um pouco mais sobre quem são essas cidadãs e esses cidadãos. Acredito que, se não todos, a grande maioria deles está com o Imposto de Renda pago – talvez até com dinheiro recolhido a mais pelo governo que ainda demorará para devolvê-lo. Acredito, ainda, que a imensa maioria – ou todos, novamente – esteja com o IPVA também pago.

         Pois com todo esse dinheiro que, sem escolha, entregam para o governo, as mencionadas vítimas recebem em troca esse desserviço por parte dos que deveriam estar proporcionando boas condições de vida para todos. Junte-se ao dispêndio de verba de cada contribuinte o acréscimo proporcionado para alguns por eventuais pedágios – que ainda podem consumir tempo.

         A expectativa de que as obras prometidas para a Copa do Mundo no Brasil solucionem boa parte dos problemas de tráfego parecem cada vez mais distante do cumprimento dessas “promessas” – ainda que as verbas destinadas a este fim sejam, com estão sendo, totalmente consumidas (inclusive as já majoradas e as que ainda sofrerão acréscimos). Para solução dos problemas de circulação no período da Copa, o governo já acenou com a criativa solução de decretar feriados nos dias de jogos, pois em caso contrário restará a expectativa de que os ingleses venham em bom número para o evento, dada a constatação possível de que estão sendo feitas obras “para inglês ver”. 

         A música escolhida para abrir a porteira da semana é "Meu Carro Velho", de José Rico, com Milionário & José Rico. Essa música é para lembrar que novas tecnologias acabaram "aposentando" muito carro de boi, que andavam bem mais rápido do que os modernos carros de hoje que praticamente estacionam em longos "engarrafamentos".


Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

GALERIA SERTANEJA – ACABOU-SE O SOM DA VIOLA



Um artista é um sonhador que consente em sonhar o mundo real.
(Jorge Santayana)




Amigas e Amigos,

Na madrugada de hoje, 4/05, aos 91 anos, morreu José Perez, o Tinoco da dupla de irmãos Tonico & Tinoco, cuja trajetória profissional começou em 1935 com nome artístico de “Trio da Roça” (com a participação de um primo), fazendo show na Festa de Aparecida de São Miguel. No final dos anos 30, passaram a se apresentar na Rádio Clube, de São Manuel-SP.

No início dos anos 40, passaram a ser conhecidos como “Irmãos Perez”, contratados pela Rádio Difusora (depois Tupi FM) para participar do programa “Arraial da Curva Torta”, apresentado pelo Capitão Furtado, que durante um ensaio do programa disse que a dupla não combinava com aquele nome espanhol e os batizou como Tonico & Tinoco. A partir daí, escreveram juntos uma história de muito sucesso, com a gravação do primeiro disco em 1944, com apenas uma música.




Já em 1946, alcançaram o sucesso com a música “Chico Mineiro”, que consta no disco como de autoria de Tonico e Francisco Ribeiro. Essa música consagrou a dupla como a mais famosa do Brasil, tornando, mais tarde, os irmãos Perez apresentadores do programa “Na Beira da Tuia”, da Rádio Bandeirantes, até o início dos anos 80, quando migraram para a televisão, com programa com o mesmo nome na Band.

Ao longo dessa belíssima carreira artística – interrompida bruscamente em 1994 com a morte de João Salvador Perez, o Tonico, que caiu de uma escada no prédio onde residia –, a dupla vendeu mais de 150 milhões de cópias de seus mais de 80 discos, e realizaram cerca de 40 mil apresentações.

Essa homenagem a Tinoco se vale da música “Chico Mineiro”, cuja letra e interpretação seguem abaixo. Tonico, conforme citado acima fez essa música em parceria com Francisco Ribeiro. E para conhecer um pouco mais desse parceiro de Tonico, encontrei no blog “Música & Poesia” (http://musicpoesia.blogspot.com.br), uma postagem de janeiro de 2008, citando um relato de Tinoco, com o seguinte teor:
Em Julho de 1946, quando o Tonico e eu chegávamos para fazer o Programa na Rádio Difusora de São Paulo, fomos chamados pelo porteiro da emissora, o senhor Francisco Ribeiro, que contou-nos uma história de dois irmãos. Um saiu pelo mundo e virou peão (Chico), o segundo (Zé Mendes) tornou-se dono de tropa. Quis o destino que se encontrassem. Pôr muitos anos trabalharam juntos, e só com a morte do Chico é que veio a revelação do parentesco entre eles. Na década de 90, fui (Tinoco) até Goiás Velho (Antiga Capital de Goiás), onde existia na época alguns pertences, uma capela e a lenda do Chico Mineiro que vivia na lembrança de muitos moradores. Outro detalhe que não está revelado na letra, é que Chico (O mais velho), sabia que era irmão de Zé Mendes (O mais novo) e sempre procurou defende-lo em muitas dificuldades. Escrevemos a história numa folha de pão (que existia nas padarias), e virou um dos maiores sucessos de Tonico e Tinoco.

         Juntos novamente, Tonico & Tinoco devem estar começando nova carreira artística na eternidade, ainda mais marcante do que a conhecida por toda a obra que nos deixaram. E não deverá faltar, lá também, pedidos para que toquem novamente “Chico Mineiro”, cuja letra está a seguir.

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CHICO MINEIRO
                                  Tonico e Francisco Ribeiro

Cada vez que me alembro
Do amigo Chico Mineiro,
Das viage que nois fazia
Era ele meu companheiro.
Sinto uma tristeza,
Uma vontade de chorar,
Alembrando daqueles tempos
Que não mais 
hai de voltar.
Apesar de ser patrão,
Eu tinha no coração
O amigo Chico Mineiro,
Caboclo bom decidido,
Na viola era delorido
E era o peão dos boiadeiro.
Hoje, porém, com tristeza,
Recordando das proeza
Da nossa viagem e motins,
Viajemo mais de dez anos,
Vendendo boiada e comprando
Por esse rincão sem-fim
Caboco de nada temia.
Mas porém, chegou o dia
Que Chico apartou-se de mim.

Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz.

Viajemos muitos dias
Pra chegar em Ouro Fino
Aonde passamos a noite
Numa festa do Divino.

A festa estava tão boa,
Mas antes não tivesse ido
O Chico foi baleado
Por um homem desconhecido.

Larguei de comprar boiada
Mataram meu companheiro
Acabou-se o som da viola
Acabou-se o Chico Mineiro.

Depois daquela tragédia
Fiquei mais aborrecido
Não sabia da nossa amizade
Porque nos dois era unido.

Quando vi seu documento
Me cortou o coração
Vi saber que o Chico Mineiro
Era meu legítimo irmão.


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         Na saudosa Galeria Sertaneja de hoje, a interpretação de “Chico Mineiro” é com a dupla que lançou essa música: os eternos Tonico & Tinoco.



         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – DOUTOR EM DISCRIMINAÇÃO


O falhado é um homem que errou
mas não é capaz de converter o seu erro em experiência.
(Elbert Hubbard)



Amigas e Amigos,

         Um shopping em Brasília-DF foi palco de uma ocorrência no último domingo, 29/04, que, pelas informações disponíveis até agora, somente provocou todo o constrangimento noticiado pela impunidade que beneficia os delinqüentes nessas Terras de Santa Cruz. Um médico, identificado como Heverton Octacílio de Campos Menezes, de 62 anos, teria ofendido uma funcionária da bilheteria da área de cinemas do shopping por que ela não foi conivente com a intenção dele de “furar a fila”.

         A funcionária da bilheteria, falando para diversos meios de comunicação, informou que o médico teria dito que  ela “era muito grossa que era por isso que tinha essa cor, que estava no lugar errado, que ali não era seu lugar, que não devia estar lidando com gente, devia estar lidando com animal. E disse também que não deveria estar morando aqui que deveria estar morando na África, cuidando de orangotangos”.



         As câmeras de segurança do shopping mostram o referido médico saindo do cinema e descendo as escadas rolantes como se fugisse de algo. Existem relatos publicados de que a forma ostensiva com que o médico agrediu a funcionária acabou provocando uma reação contrária entre as pessoas que aguardavam na fila – as que o médico queria “passar para trás” –  e que solicitaram mais respeito por parte do  descontrolado cidadão.

         Hoje, lendo a edição impressa do Correio Braziliense, encontrei uma entrevista do medico Campos Menezes, em que ele nega todas as acusações de discriminação racial contra a funcionária da bilheteria, Marina Serafim dos Reis, de 25 anos, dizendo ainda que em nenhum momento insultou a atendente. Segundo o Correio, o médico alegou:
ter dito apenas que ela estava sendo “descortês”. “Não entendo por que a palavra ‘descortês’ causou tanto mal entendido”. Questionado pelo Correio por qual motivo então teria fugido correndo, já que as imagens feitas pelo circuito de câmeras do shopping mostravam claramente isso, ele respondeu que, por conta do nervosismo da funcionária, as pessoas que estavam na fila ficaram muito exaltadas e ficou com medo de um linchamento. “No Brasil é muito comum as pessoas, a polícia, matarem ou baterem. Quis apenas preservar a minha integridade física”, disse.

         Fico pensando que, mesmo para um grande mestre do surrealismo, seria muito difícil pintar um “quadro” melhor do que a alegação publicada pelo jornal. O “equilibrado” médico da alegação acima, ainda conforme o Correio, “acumula, em 18 anos, outras nove acusações na Polícia Civil do Distrito Federal. Entre as queixas estão injúria discriminatória, desacato, agressão e lesão corporal”.
        
         Em não havendo exagero nas informações publicadas, talvez você também esteja com a mesma dúvida que me assola: como que um indivíduo descontrolado como esse ainda não foi julgado por tantos descalabros?

         E tem mais uma informação preocupante, publicada ontem no portal G1, informando que Campos Menezes:
atuava como psicanalista, em uma clínica no Lago Sul, área nobre de Brasília, mas, segundo a Sociedade de Psicanálise de Brasília, ele não tem formação na área. Segundo um representante do grupo, ele passou por três entrevistas e pelo exame de currículo, mas foi reprovado. Ele resolveu então criar uma entidade, a Associação da Refundação Psicanalítica Internacional, onde dava aulas.


Com todas essas versões para uma mesma história – onde, aparentemente, a única coisa certa é a presença da arrogância e sua consequência primeira, caracterizada pela sensação de superioridade em relação aos demais – lembrei de uma história do livro “Contando Causos”, do múltiplo artista Rolando Boldrin sobre uma versão carregada de fantasia para uma história de caçador.

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O MEDO DA ONÇA
                           Rolando Boldrin



Dentre todos os mentirosos que eu conheci, o mais engraçado deles era o Zé Farol. Esse tinha um jeito especial de inventar suas histórias incríveis.

Como todo mentiroso, causo de onça era o que não faltava ao Zé Farol. Tinha um punhado de mentira, cada uma melhor do que a outra.

Nesse causo que passo a contar agora, ao contrário de todo mentiroso que começa contando vantagem, ele começou contando pra gente assim:

Zé Farol – Óia, gente. Esta que eu vou contar agora foi fogo, porque eu sempre tive muito medo de onça. E num é que  justamente uma das grandes foi a que apareceu um dia que eu fui caçá? Apois bem: quando eu vi a marvada, carpi os pé. Larguei espingarda, larguei tudo ali mêmo e saí desembestado mata afora.

Ouvinte 1 – E daí, Zé? Conseguiu se livrar da onça? 

Zé Farol – Que nada. Pois num é que a mardita garrô corrê atráis de mim feito uma doida. E eu lá no meio daquele mato... correndo. E a onça atráis pega num pega... tava chegando nos meu carcanhá.

Ouvinte 2 – Conta logo, Zé! Quero vê como ocê se livrô dessa bitela... 

Zé Farol – Carma, gente. Eu chego lá. Pois bem, corre que corre, a onça quase me arcançando... De repente, eu trupiquei nuns graveto e tium... Caí de boca no chão. Daí, eu desesperado me virei de barriga pra riba, pra móde num morrê cumo um covarde de bruço pro chão. A onça veio vindo... vindo... me oiando... me oiando... e quando chegou pertinho de mim, que tremia... ela ponhô a pata direita em riba do meu peito... abriu aquele bocão bem na minha cara e roncô bem arto... ansim: GREEEEEEEEEEEE (Zé imitando a onça). O barulho do ronco bravo dela acho que dava para ouvi no arraia.

Todos (muito interessados) – E daí, Zé? O que que ocê fez?

Zé Farol – Me borrei tudo. Me sujei na carça. 

Ouvinte 1 – Pois agora gostei de vê, Zé. Agora ocê provou que num mente. Pois, com uma onça dessas com a pata no meu peito, até eu borrava. Me sujava as carça também.

Zé Farol (calmo) – Não gente. Eu tô falando que me borrei, mas foi agora que eu imitei o ronco arto da onça: GREEEEEEEEEEEEEEEEE...


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         A música para esta Tertúlia traz uma história de um doutor que também deixou o título "subir à cabeça". Escrita por Edward de Marchi e interpretada pela dupla Biá & Dino Franco, pode-se ouvir, abaixo, "Lição de Moral".   





Um grande abraço e até a próxima!