segunda-feira, 7 de maio de 2012

ABRINDO A PORTEIRA – TRÂNSITO PARA INGLÊS VER


Todas as culturas se fundam mais sobre preconceitos do que sobre verdades.
(Friedrich Durrenmatt)





Amigas e Amigos,


         Comecei o dia, hoje, escutando rádio – é um jeito de começar uma nova jornada que muito me atrai pela afinidade que tenho com esse meio de comunicação – e, entre os primeiros registros locais (em Brasília), foram noticiados diversos pontos de congestionamento com atraso em deslocamentos para trabalho e escolas, principalmente.

         Ainda no decorrer da manhã, ao ler algumas notícias no portal “Folha.com”, chamou minha atenção o tamanho das filas de carros e a lentidão do trânsito no início deste dia, em São Paulo. Dizia o referido portal que:
O trânsito piorou na cidade de São Paulo e já chegava aos 143 km de filas às 9h desta segunda-feira. O índice era o segundo maior registrado no período da manhã neste ano, ficando atrás apenas dos 168 km registrado às 9h30 do dia 27. A lentidão das 9h de hoje corresponde a 16,2% dos 868 km de vias monitoradas. A média para o horário é de 13,1%. A pior região era a zona sul, com 55 km de filas, segundo dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). A causa do elevado índice ainda não foi divulgado pela companhia. A via mais congestionada era a marginal Pinheiros, com 9,3 km de retenção na pista expressa, no sentido Interlagos. O problema ia da Castello Branco até a ponte Cidade Jardim. Houve um bloqueio parcial na via mais cedo, na altura da avenida do Morumbi, devido a acidente, mas já estava liberado no horário. A Radial Leste também registrava lentidão, com 4,7 km de filas no sentido centro, desde o viaduto Pires do Rio até a rua Wadenkolk. O problema era resultado da grande quantidade de veículos. Segundo o serviço da empresa MapLink, usado pela Folha, a cidade tinha 385 km de filas no horário.

         Pensei, por um momento, nas pessoas que passavam pelo drama de serem vítimas do sistema de circulação de veículos em São Paulo. Fiquei imaginando o que poderia ser feito havendo necessidade de algum deslocamento mais urgente por qualquer motivo – mais preocupante ainda seria se o motivo fosse a vida de alguém. Guardadas as proporções, as vítimas de Brasília também passavam por grande desconforto de não conseguir chegar até seus compromissos no horário planejado, provavelmente já imaginando alguma desculpa pelo atraso, que se torna cada vez mais freqüente na capital brasileira.

         Acredito que a situação nas metrópoles brasileiras não seja muito diferente das acima descritas, com diferenças apenas na intensidade de cada evento. Parece que com o passar do tempo, o exotismo da situação vai desaparecendo, tornando o congestionamento algo que deve fazer parte da experiência diária de cada um.



         Mas volto novamente às pessoas que, absolutamente impotentes, são vítimas dos congestionamentos – diários ou freqüentes – para pensar um pouco mais sobre quem são essas cidadãs e esses cidadãos. Acredito que, se não todos, a grande maioria deles está com o Imposto de Renda pago – talvez até com dinheiro recolhido a mais pelo governo que ainda demorará para devolvê-lo. Acredito, ainda, que a imensa maioria – ou todos, novamente – esteja com o IPVA também pago.

         Pois com todo esse dinheiro que, sem escolha, entregam para o governo, as mencionadas vítimas recebem em troca esse desserviço por parte dos que deveriam estar proporcionando boas condições de vida para todos. Junte-se ao dispêndio de verba de cada contribuinte o acréscimo proporcionado para alguns por eventuais pedágios – que ainda podem consumir tempo.

         A expectativa de que as obras prometidas para a Copa do Mundo no Brasil solucionem boa parte dos problemas de tráfego parecem cada vez mais distante do cumprimento dessas “promessas” – ainda que as verbas destinadas a este fim sejam, com estão sendo, totalmente consumidas (inclusive as já majoradas e as que ainda sofrerão acréscimos). Para solução dos problemas de circulação no período da Copa, o governo já acenou com a criativa solução de decretar feriados nos dias de jogos, pois em caso contrário restará a expectativa de que os ingleses venham em bom número para o evento, dada a constatação possível de que estão sendo feitas obras “para inglês ver”. 

         A música escolhida para abrir a porteira da semana é "Meu Carro Velho", de José Rico, com Milionário & José Rico. Essa música é para lembrar que novas tecnologias acabaram "aposentando" muito carro de boi, que andavam bem mais rápido do que os modernos carros de hoje que praticamente estacionam em longos "engarrafamentos".


Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

GALERIA SERTANEJA – ACABOU-SE O SOM DA VIOLA



Um artista é um sonhador que consente em sonhar o mundo real.
(Jorge Santayana)




Amigas e Amigos,

Na madrugada de hoje, 4/05, aos 91 anos, morreu José Perez, o Tinoco da dupla de irmãos Tonico & Tinoco, cuja trajetória profissional começou em 1935 com nome artístico de “Trio da Roça” (com a participação de um primo), fazendo show na Festa de Aparecida de São Miguel. No final dos anos 30, passaram a se apresentar na Rádio Clube, de São Manuel-SP.

No início dos anos 40, passaram a ser conhecidos como “Irmãos Perez”, contratados pela Rádio Difusora (depois Tupi FM) para participar do programa “Arraial da Curva Torta”, apresentado pelo Capitão Furtado, que durante um ensaio do programa disse que a dupla não combinava com aquele nome espanhol e os batizou como Tonico & Tinoco. A partir daí, escreveram juntos uma história de muito sucesso, com a gravação do primeiro disco em 1944, com apenas uma música.




Já em 1946, alcançaram o sucesso com a música “Chico Mineiro”, que consta no disco como de autoria de Tonico e Francisco Ribeiro. Essa música consagrou a dupla como a mais famosa do Brasil, tornando, mais tarde, os irmãos Perez apresentadores do programa “Na Beira da Tuia”, da Rádio Bandeirantes, até o início dos anos 80, quando migraram para a televisão, com programa com o mesmo nome na Band.

Ao longo dessa belíssima carreira artística – interrompida bruscamente em 1994 com a morte de João Salvador Perez, o Tonico, que caiu de uma escada no prédio onde residia –, a dupla vendeu mais de 150 milhões de cópias de seus mais de 80 discos, e realizaram cerca de 40 mil apresentações.

Essa homenagem a Tinoco se vale da música “Chico Mineiro”, cuja letra e interpretação seguem abaixo. Tonico, conforme citado acima fez essa música em parceria com Francisco Ribeiro. E para conhecer um pouco mais desse parceiro de Tonico, encontrei no blog “Música & Poesia” (http://musicpoesia.blogspot.com.br), uma postagem de janeiro de 2008, citando um relato de Tinoco, com o seguinte teor:
Em Julho de 1946, quando o Tonico e eu chegávamos para fazer o Programa na Rádio Difusora de São Paulo, fomos chamados pelo porteiro da emissora, o senhor Francisco Ribeiro, que contou-nos uma história de dois irmãos. Um saiu pelo mundo e virou peão (Chico), o segundo (Zé Mendes) tornou-se dono de tropa. Quis o destino que se encontrassem. Pôr muitos anos trabalharam juntos, e só com a morte do Chico é que veio a revelação do parentesco entre eles. Na década de 90, fui (Tinoco) até Goiás Velho (Antiga Capital de Goiás), onde existia na época alguns pertences, uma capela e a lenda do Chico Mineiro que vivia na lembrança de muitos moradores. Outro detalhe que não está revelado na letra, é que Chico (O mais velho), sabia que era irmão de Zé Mendes (O mais novo) e sempre procurou defende-lo em muitas dificuldades. Escrevemos a história numa folha de pão (que existia nas padarias), e virou um dos maiores sucessos de Tonico e Tinoco.

         Juntos novamente, Tonico & Tinoco devem estar começando nova carreira artística na eternidade, ainda mais marcante do que a conhecida por toda a obra que nos deixaram. E não deverá faltar, lá também, pedidos para que toquem novamente “Chico Mineiro”, cuja letra está a seguir.

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CHICO MINEIRO
                                  Tonico e Francisco Ribeiro

Cada vez que me alembro
Do amigo Chico Mineiro,
Das viage que nois fazia
Era ele meu companheiro.
Sinto uma tristeza,
Uma vontade de chorar,
Alembrando daqueles tempos
Que não mais 
hai de voltar.
Apesar de ser patrão,
Eu tinha no coração
O amigo Chico Mineiro,
Caboclo bom decidido,
Na viola era delorido
E era o peão dos boiadeiro.
Hoje, porém, com tristeza,
Recordando das proeza
Da nossa viagem e motins,
Viajemo mais de dez anos,
Vendendo boiada e comprando
Por esse rincão sem-fim
Caboco de nada temia.
Mas porém, chegou o dia
Que Chico apartou-se de mim.

Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz.

Viajemos muitos dias
Pra chegar em Ouro Fino
Aonde passamos a noite
Numa festa do Divino.

A festa estava tão boa,
Mas antes não tivesse ido
O Chico foi baleado
Por um homem desconhecido.

Larguei de comprar boiada
Mataram meu companheiro
Acabou-se o som da viola
Acabou-se o Chico Mineiro.

Depois daquela tragédia
Fiquei mais aborrecido
Não sabia da nossa amizade
Porque nos dois era unido.

Quando vi seu documento
Me cortou o coração
Vi saber que o Chico Mineiro
Era meu legítimo irmão.


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         Na saudosa Galeria Sertaneja de hoje, a interpretação de “Chico Mineiro” é com a dupla que lançou essa música: os eternos Tonico & Tinoco.



         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

TERTÚLIA NATIVA – DOUTOR EM DISCRIMINAÇÃO


O falhado é um homem que errou
mas não é capaz de converter o seu erro em experiência.
(Elbert Hubbard)



Amigas e Amigos,

         Um shopping em Brasília-DF foi palco de uma ocorrência no último domingo, 29/04, que, pelas informações disponíveis até agora, somente provocou todo o constrangimento noticiado pela impunidade que beneficia os delinqüentes nessas Terras de Santa Cruz. Um médico, identificado como Heverton Octacílio de Campos Menezes, de 62 anos, teria ofendido uma funcionária da bilheteria da área de cinemas do shopping por que ela não foi conivente com a intenção dele de “furar a fila”.

         A funcionária da bilheteria, falando para diversos meios de comunicação, informou que o médico teria dito que  ela “era muito grossa que era por isso que tinha essa cor, que estava no lugar errado, que ali não era seu lugar, que não devia estar lidando com gente, devia estar lidando com animal. E disse também que não deveria estar morando aqui que deveria estar morando na África, cuidando de orangotangos”.



         As câmeras de segurança do shopping mostram o referido médico saindo do cinema e descendo as escadas rolantes como se fugisse de algo. Existem relatos publicados de que a forma ostensiva com que o médico agrediu a funcionária acabou provocando uma reação contrária entre as pessoas que aguardavam na fila – as que o médico queria “passar para trás” –  e que solicitaram mais respeito por parte do  descontrolado cidadão.

         Hoje, lendo a edição impressa do Correio Braziliense, encontrei uma entrevista do medico Campos Menezes, em que ele nega todas as acusações de discriminação racial contra a funcionária da bilheteria, Marina Serafim dos Reis, de 25 anos, dizendo ainda que em nenhum momento insultou a atendente. Segundo o Correio, o médico alegou:
ter dito apenas que ela estava sendo “descortês”. “Não entendo por que a palavra ‘descortês’ causou tanto mal entendido”. Questionado pelo Correio por qual motivo então teria fugido correndo, já que as imagens feitas pelo circuito de câmeras do shopping mostravam claramente isso, ele respondeu que, por conta do nervosismo da funcionária, as pessoas que estavam na fila ficaram muito exaltadas e ficou com medo de um linchamento. “No Brasil é muito comum as pessoas, a polícia, matarem ou baterem. Quis apenas preservar a minha integridade física”, disse.

         Fico pensando que, mesmo para um grande mestre do surrealismo, seria muito difícil pintar um “quadro” melhor do que a alegação publicada pelo jornal. O “equilibrado” médico da alegação acima, ainda conforme o Correio, “acumula, em 18 anos, outras nove acusações na Polícia Civil do Distrito Federal. Entre as queixas estão injúria discriminatória, desacato, agressão e lesão corporal”.
        
         Em não havendo exagero nas informações publicadas, talvez você também esteja com a mesma dúvida que me assola: como que um indivíduo descontrolado como esse ainda não foi julgado por tantos descalabros?

         E tem mais uma informação preocupante, publicada ontem no portal G1, informando que Campos Menezes:
atuava como psicanalista, em uma clínica no Lago Sul, área nobre de Brasília, mas, segundo a Sociedade de Psicanálise de Brasília, ele não tem formação na área. Segundo um representante do grupo, ele passou por três entrevistas e pelo exame de currículo, mas foi reprovado. Ele resolveu então criar uma entidade, a Associação da Refundação Psicanalítica Internacional, onde dava aulas.


Com todas essas versões para uma mesma história – onde, aparentemente, a única coisa certa é a presença da arrogância e sua consequência primeira, caracterizada pela sensação de superioridade em relação aos demais – lembrei de uma história do livro “Contando Causos”, do múltiplo artista Rolando Boldrin sobre uma versão carregada de fantasia para uma história de caçador.

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O MEDO DA ONÇA
                           Rolando Boldrin



Dentre todos os mentirosos que eu conheci, o mais engraçado deles era o Zé Farol. Esse tinha um jeito especial de inventar suas histórias incríveis.

Como todo mentiroso, causo de onça era o que não faltava ao Zé Farol. Tinha um punhado de mentira, cada uma melhor do que a outra.

Nesse causo que passo a contar agora, ao contrário de todo mentiroso que começa contando vantagem, ele começou contando pra gente assim:

Zé Farol – Óia, gente. Esta que eu vou contar agora foi fogo, porque eu sempre tive muito medo de onça. E num é que  justamente uma das grandes foi a que apareceu um dia que eu fui caçá? Apois bem: quando eu vi a marvada, carpi os pé. Larguei espingarda, larguei tudo ali mêmo e saí desembestado mata afora.

Ouvinte 1 – E daí, Zé? Conseguiu se livrar da onça? 

Zé Farol – Que nada. Pois num é que a mardita garrô corrê atráis de mim feito uma doida. E eu lá no meio daquele mato... correndo. E a onça atráis pega num pega... tava chegando nos meu carcanhá.

Ouvinte 2 – Conta logo, Zé! Quero vê como ocê se livrô dessa bitela... 

Zé Farol – Carma, gente. Eu chego lá. Pois bem, corre que corre, a onça quase me arcançando... De repente, eu trupiquei nuns graveto e tium... Caí de boca no chão. Daí, eu desesperado me virei de barriga pra riba, pra móde num morrê cumo um covarde de bruço pro chão. A onça veio vindo... vindo... me oiando... me oiando... e quando chegou pertinho de mim, que tremia... ela ponhô a pata direita em riba do meu peito... abriu aquele bocão bem na minha cara e roncô bem arto... ansim: GREEEEEEEEEEEE (Zé imitando a onça). O barulho do ronco bravo dela acho que dava para ouvi no arraia.

Todos (muito interessados) – E daí, Zé? O que que ocê fez?

Zé Farol – Me borrei tudo. Me sujei na carça. 

Ouvinte 1 – Pois agora gostei de vê, Zé. Agora ocê provou que num mente. Pois, com uma onça dessas com a pata no meu peito, até eu borrava. Me sujava as carça também.

Zé Farol (calmo) – Não gente. Eu tô falando que me borrei, mas foi agora que eu imitei o ronco arto da onça: GREEEEEEEEEEEEEEEEE...


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         A música para esta Tertúlia traz uma história de um doutor que também deixou o título "subir à cabeça". Escrita por Edward de Marchi e interpretada pela dupla Biá & Dino Franco, pode-se ouvir, abaixo, "Lição de Moral".   





Um grande abraço e até a próxima!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

GALERIA SERTANEJA – UMA LAMBANÇA E A ÚLTIMA LEMBRANÇA



Não existe outra via para a solidariedade humana

senão a procura e o respeito da dignidade individual.

(Pierre Lecomte Du Nouy)





Amigas e Amigos,


A bandidagem começa a ultrapassar todos os limites imagináveis. Ou talvez a máxima de que ladrão não rouba ladrão esteja sendo respeitada em toda sua amplitude, pois como entre os ricos está cada vez mais difícil identificar quem não esteja envolvido em algum “esquema”, os bandidos, na dúvida, estão buscando vítimas entre os mais pobres.


A matéria do portal G1 sobre um assalto a garis, no horário de trabalho, na Bahia é, no mínimo, chocante. Diz a notícia que:
Três garis que faziam a coleta de lixo na noite de quinta-feira (26) na cidade de Feira de Santana, a cerca de 100 km de Salvador, foram roubados por homens armados que cercaram o caminhão de lixo. Os suspeitos levaram dinheiro e pertences dos garis e do motorista do caminhão. O assalto ocorreu no Conjunto Feira Nove. De acordo com testemunhas, seis homens armados cercaram o caminhão de lixo e saquearam os garis. “Quando o condutor estava parado e os coletores estavam coletando o lixo, apareceram os bandidos do nada, eram seis bandidos fortemente armados, tinha um com escopeta, dois com um 38 [revólver], tinham dois com pistola”, afirmou uma testemunha que prefere não ser identificada. Segundo o delegado Ricardo Brito, chefe da Polícia Civil em Feira de Santana, o caso foi registrado na Delegacia de Furtos e Roubos da cidade. Por causa do assalto, parte da coleta não pôde ser feita na quinta-feira. O gerente operacional da empresa de coleta disse nesta sexta-feira (27) que os funcionários estão receosos de trabalhar nos bairros onde a violência é maior, e que já pediu providências à prefeitura da cidade. “Pra gente acionar toda vez que for necessário, a Guarda Municipal e a Polícia Militar para proteger os nossos funcionários”, disse Rodrigo Lopes, gerente da empresa de coleta de lixo de Feira de Santana. Segundo a Secretaria de Serviços Públicos do município, esta não foi a primeira vez que uma equipe de agentes de limpeza foi agredida. Em 2012, outras quatro situações de violência já foram registradas contra agentes durante o trabalho. A comunidade ficou assustada. “Eu acho um absurdo, nem os garis mais estão se livrando”, afirma a manicure Sandra Silva.



         Fico imaginando como os seis marginais repartiram a “féria” arrecadada junto a três empregados encarregados da coleta de lixo em Feira de Santana. Faz-se cada vez mais urgente uma resposta de quando este país deixará de tratar bandidos com tantas regalias, pois para esses tipos a grande motivação para o crime está na impunidade ou na certeza de que, mesmo recebendo pena máxima, passarão pouco tempo detidos, e, nesses períodos, serão sustentados pelos exagerados impostos cobrados de cada cidadão brasileiro.

          Como essa postagem é de Galeria Sertaneja, é necessário que, mesmo pensando nas “facilidades” oferecidas para a bandidagem, se separe um momento para um bom momento poético e musical. Para isso, a música escolhida hoje é de Luiz Meneses – poeta, autor, radialista, produtor e apresentador de TV, que nasceu em Quaraí-RS e morreu em 2005 – e tem por título “Última Lembrança”, com a letra logo abaixo.


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ÚLTIMA LEMBRANÇA

                                  Luiz Meneses


Eu hei de amar-te sempre, sempre além da vida


Eu hei de amar-te muito além do nosso adeus


Eu hei de amar-te com a esperança já extinguida


De que meus lábios possam ter os lábios teus.



Quando eu morrer permita deus que nesta hora


Ouças ao longe o cantar da cotovia


Será minh'alma que num canto triste chora


E nessa mágoa o teu nome pronuncia.



Eu viverei eternamente nos cantares


Dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho


Eu viverei para a glória dos pesares


Onde quase sucumbi nos teus carinhos.



Eu viverei no violão que a noite tomba


Ante a janela da silente madrugada


Eu viverei como uma sombra em tua sombra


Como poesia em teu caminho derramada.



Eu viverei eternamente nos cantares


Dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho


Eu viverei para a glória dos pesares


Onde quase sucumbi nos teus carinhos.



Nem mesmo o tempo apagará nossos amores


Que floresceram de uma ilusão febril e mansa


Eu viverei como uma sombra em tua sombra


Mas te levando em minha última lembrança.



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Nessa Galeria, a interpretação dessa valsa de Luiz Meneses é do grupo Os Fagundes, com destaques para as vozes de Neto Fagundes e Ernesto Fagundes.



         Um grande abraço e até a próxima!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

TERTÚLIA NATIVA – O BEM, O MAL E O BAR DE FRUTAL



Arrogância: 

tendência para dominar os outros
para além dos próprios e legítimos direitos e méritos.
(João Paulo II)




Amigas e Amigos,


         No portal Folha.com encontrei uma matéria sobre o arquivamento de um processo que poderia averiguar indícios de corrupção envolvendo a prefeitura de Frutal-MG. Nada sei sobre a postura ética dos envolvidos nos supostos esquemas, mas me chamaram a atenção alguns aspectos – aparentemente exagerados – sobre a forma como os suspeitos e seus simpatizantes reagiram a notícias de rejeição da proposta de instaurar uma Comissão Processante.



        A matéria da Folha informou que:
Depois de a Câmara de Frutal (600 km de Belo Horizonte) arquivar na segunda-feira (23) dois pedidos de investigação de supostos esquemas de corrupção na área da saúde, o secretário responsável pela pasta, José Plínio dos Reis, chegou ao bar onde a decisão era comemorada de modo pouco tradicional: dirigindo uma ambulância. A Folha teve acesso a uma foto feita a partir de um telefone celular, que mostra o secretário no bar, de braços erguidos, com uma ambulância ao fundo. O fato foi confirmado à Folha pelo próprio secretário, que afirmou ter parado no local para "cumprimentar o pessoal". No início de abril, uma CEI (Comissão Especial de Investigação) denunciou um suposto esquema de desvio de dinheiro público envolvendo a prefeitura e duas fundações ligadas à área da saúde. Segundo a denúncia, a prefeita Maria Cecília Marchi Borges (PR) tinha conhecimento do caso. A prefeita também é acusada, desta vez pelo Ministério Público de Minas Gerais, de ter prevaricado ao não dar andamento regular aos processos movidos pelo município de Frutal contra seu marido e ex-prefeito, Luiz Antônio Zanto. Os dois pedidos de instauração de Comissão Processante não conseguiram maioria absoluta, em votação ocorrida na Câmara nesta segunda-feira (23), tendo sido arquivados. O secretário José Plínio dos Reis afirmou que dirigiu a ambulância anteontem de Belo Horizonte até Frutal e que a estacionou em frente ao bar, localizado ao lado da prefeitura, apenas por alguns instantes. "Na hora em que eu cheguei, estacionei, cumprimentei o pessoal e disse: 'eu vim trazer esta ambulância de Belo Horizonte'", afirmou. Segundo ele, que qualificou o encontro como "uma coincidência", a ambulância ficou em frente ao bar por poucos instantes. "Foi só o tempo de descer do carro e cumprimentar as pessoas. Logo em seguida, eu a estacionei dentro da prefeitura", afirmou o secretário, segundo quem a foto foi feita por pessoas "da oposição".


A denúncia de uma quantidade considerável de ilícitos deveria ser motivo para que os envolvidos como suspeitos de tais práticas buscassem formas de elucidar os cidadãos daquele município para dirimir todas as dúvidas sobre irregularidades no exercício de funções públicas. No lugar disso, o que se viu foi uma comemoração ostensiva, onde uma ambulância participa da “festa” como a demonstrar falta de preocupação com opiniões contrárias.

As declarações publicadas na matéria também dão idéia de que poderia estar sendo caracterizado um eventual desprezo para com a inteligência dos próprios eleitores daquele município. Esta hipótese esta associada, ainda, a publicação feita pelo jornalista Rodrigo Portari, de Frutal, que escreveu em seu site um comentário sobre o que chamou de “espetáculo armado na Câmara de Frutal, mais parecido com um verdadeiro circo” dizendo:
o que mais me preocupou nesse contexto, foi a cena que vi ontem em frente ao Bar do Gato. Pessoas ligadas à administração (inclusive médicos que viram seus nomes envolvidos na CEI) “comemoravam” o arquivamento das Processantes e, ao lado, uma mesa formada por jornalistas e pessoas de oposição. Em dado momento, uma ambulância, tocando sirene em “alto e bom som” chega até ao Bar do Gato, encosta ao lado da mesa e, dela, desce um médico também comemorando os arquivamentos. Essa foi a cena que gerou, pelo menos nesse articulista, um mal-estar enorme, digno de embrulhar o estômago. Cada um tem o direito de comemorar, mas utilizar uma ambulância para esse fim… é passar dos limites. Só me resta rezar para que o final do ano não seja marcado por extravasos como este que vi ontem. Sob pena de toda a cidade ser seriamente castigada.

         Esse acontecimento em Frutal-MG pode servir para que se pense sobre os relacionamentos entre os poderes constituídos, em todos os seus níveis – municipal, federal e estadual – que cada vez mais se revestem de arrogância como se estivessem acima da lei ou da avaliação dos cidadãos que representam. Como atos reprováveis tornam-se cada vez mais corriqueiros, acordos escusos passam a freqüentar com desenvoltura essas rodas de “negociações”.

         No decorrer da reflexão que possa surgir a partir dessas notícias, recomendo a leitura de outro conto recolhido por Câmara Cascudo (que fez parte da Tertúlia Nativa da última semana) sobre como pagar bem-feitos e malfeitos. No livro “Contos Tradicionais do Brasil”, C. Cascudo diz ter ouvido esse conto quando ainda era menino, em Natal-RN, e novamente lhe foi repetido no Recife-PE, quando estudava Direito.

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O BEM SE PAGA COM O BEM

                                                                  Luís da Câmara Cascudo


A onça caiu numa armadilha preparada pelos caçadores e, por mais que tentasse escapar, ficou prisioneira. Resignara-se a morrer, quando viu passar um homem. Chamou-o e lhe pediu que a libertasse.


— Deus me livre — disse o transeunte. Se você ficar solta, devorar-me-á.


A onça jurou que seria eternamente agradecida, então o homem desatou as cordas que seguravam a tampa do alçapão e ajudou a onça a deixar a cova. Logo que esta se encontrou livre; agarrou seu salvador por um braço, dizendo:


— Agora você é o meu jantar.


Debalde o homem pediu e rogou. A onça, finalmente decidiu:


— Vamos combinar uma coisa. Ouvirei a sentença de três animais. Se a maioria for favorável ao meu desejo, comê-lo-ei.


O homem aceitou e saíram os dois. Encontraram um cavalo, velho, doente, abandonado. A onça narrou o caso. O cavalo disse:


— Quando eu era moço e forte trabalhei e ajudei o homem a enriquecer. Qual foi o meu pagamento? Largaram-me aqui para morrer, sem um auxílio. O bem só se paga com o mal.


Adiante depararam com um boi. Consultado, opinou pela razão da onça. Contou sua vida de serviços ao homem e, quando julgava que ia ser recompensado, soube que fora vendido para ser morto e retalhado pelo açougueiro. O bem só se paga com o mal.


O homem, triste, acompanhava a onça que lambia o beiço, quando viram um macaco. Chamaram o macaco e pediram o seu parecer. O macaco começou a rir. A onça ia-se zangando:


— Por que tanta risada, camarada macaco?


— Não é fazendo pouco, — explicou o macaco — é que eu não acredito que o homem caísse na armadilha que ele mesmo preparou.


— Ela não caiu. Quem caiu foi eu, — contava a onça.


— Foi você? Então como é que esse homem fraquinho pôde libertar um bicho tão grande e forte como a camarada onça?


A onça, despeitada pelo macaco julgá-la mentirosa, foi até o alçapão e saltou para o fundo do fosso, gritando lá de baixo:


— Está vendo? Foi assim!


Mais que depressa o macaco empurrou o engradado de varas pesadas que fazia de tampa e a onça tornou a ficar prisioneira.


— Camarada onça - sentenciou o macaco — o bem só paga com o bem. E como você fez o mal, receba o mal.


E se foi embora com o homem, deixando a onça para morrer de fome na armadilha.



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         A música escolhida para esta Tertúlia é "A Palavra Ladrão", do saudoso compositor, de Itápolis-SP, José Fortuna, com a dupla de irmãos Zé Fortuna (José Fortuna) e Pitangueira (Euclides Fortuna).


 



Um grande abraço e até a próxima!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

ORATÓRIO CAMPEIRO – O EVANGELISTA E A COMISSÃO DE JURISTAS



Entraram em Cafarnaum.
No sábado, Jesus foi à sinagoga e pôs-se a ensinar.
Todos ficaram admirados com seu ensinamento,
pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas.
(Marcos 1,21-22)




Amigas e Amigos,

         Por tudo que leio e escuto sobre a prática de ilícitos em nosso país, tenho cada vez mais clara a opinião de que não nos faltam leis, mas aplicação de leis. A possibilidade de pequenas penas ou a certeza de impunidade levam a um crescimento da desobediência a  leis como a observada nos noticiários de cada dia.
        
         A Folha de São Paulo noticiou em seu portal na última segunda-feira que:
A comissão de juristas que prepara anteprojeto da reforma do Código Penal no Senado aprovou nesta segunda-feira (23) a criminalização do enriquecimento ilícito. Significa que devem responder na Justiça os servidores, juízes ou políticos, por exemplo, que não puderem comprovar a origem de valores ou bens, sejam eles móveis ou imóveis. A previsão de pena varia de 1 a 5 anos. Além disso, o bem deverá ser confiscado. Para o relator da reforma, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, trata-se de 'um momento histórico na luta contra a corrupção no Brasil'. "Criminalizamos a conduta do funcionário público que enriquece sem que saiba como. Aquele que entra pobre e sai rico", afirmou. Segundo Gonçalves, não há qualquer previsão desta natureza hoje no Código. "O país está descumprindo tratados internacionais contra corrupção, que determinam a criminalização. Estamos levando essa proposta para o Senado e os representantes do povo vão discuti-la", completou. O texto prevê ainda que a punição seja aumentada em metade ou dois terços caso a propriedade ou posse seja atribuída a terceiros. Caso se prove também o crime que deu origem ao enriquecimento, como corrupção ou sonegação, por exemplo, o réu deixa de responder por enriquecimento ilícito e passa a responder pelo outro crime, que, em geral, tem a pena mais alta. A mudança do anteprojeto de reforma do Código Penal deve ser entregue até o fim de maio para votação do Senado. Em seguida, as modificações serão apreciadas pela Câmara dos Deputados.

         Com esse “momento histórico na luta contra a corrupção no Brasil” (conforme a matéria), vislumbro como grande mudança nas atitudes dos infratores a possibilidade de uma nova preocupação para seus advogados, que lhes poderão exigir maior remuneração por conta das novas penas estipuladas. Como o “enriquecimento” favorece o pagamento, o problema para o relacionamento dos meliantes com seus defensores estará praticamente resolvido.

         Se a infração for praticada por um parlamentar, a situação será simplificada, pois não haverá necessidade da contratação de defensores. Nesses casos, uma CPI se arrastará por longo tempo até concluir que não tem qualquer conclusão e o caso será encerrado.

         Pelo exposto, pode-se concluir que “o momento histórico” marca a criação de mais uma lei. E só! Veio-me ao pensamento que Deus precisou de apenas 10 leis para dar origem a um grande número de religiões que até hoje se submetem a essas mesmas leis e fiquei imaginando o que poderia ter acontecido se Ele tivesse solicitado a uma comissão de apóstolos juristas a criação de leis para os homens – talvez, continuassem criando leis até hoje sem qualquer resultado prático.

         Neste dia 25 de abril, celebra-se a Festa de São Marcos, o evangelista responsável pelo chamado segundo evangelho – apesar de ser o primeiro a ser escrito –, o mais curto e com uma abordagem especial da paixão de Jesus. Marcos, ou João Marcos, escreve para mostrar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, a Boa Nova que Deus encaminha para todos nós.

São Marcos

         Como sugestão para esta semana, pode-se invocar a intercessão de São Marcos pelos que criam e aplicam leis neste nosso Brasil para que verdadeiramente tenhamos leis que nos permitam – como cidadãos – uma vida com qualidade.
        
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ORAÇÃO A SÃO MARCOS EVANGELISTA

Ó Deus,

Que concedestes a São Marcos,

Vosso evangelista,

A glória de proclamar a Boa Nova,

Dai-nos assimilar de tal modo seus ensinamentos,

Que sigamos fielmente os caminhos do Cristo,

Que convosco vive e reina

Na unidade do Espírito Santo.

Amém!

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         A música escolhida para este Oratório Campeiro é de Zé Vicente, interpretada pelo próprio Zé Vicente, "Pão em Todas as Mesas", nos chamando a uma reflexão sobre o tempo Pascal que estamos experimentando.


 


Um grande abraço e até a próxima!